Sou leitora atenta de jornais (semanais e diários) que geralmente leio de uma ponta a outra, dando um particular relevo às crónicas pois de um modo geral são uma escrita variada, interessante, informativa e mais solta do que os habituais artigos e notícias. Como por vezes aparece uma foto a identificar os seus autores ou autoras é possível reconhecê-los se por caso nos cruzamos na rua com eles (ou com elas). Foi o que me aconteceu há anos atrás, quando constatei que uma das minhas cronistas preferidas vinha a descer a rua que eu então subia. Amavelmente dei-lhe os bons dias e preparava-me para lhe dizer quanto apreciava os seus escritos. Ela olhou-me com um ar de enfado e sacudidamente me disse: “tenha paciência, não tenho tempo”. Fiquei surpreendida com a reacção que infelizmente é comum a quem se recusa a dar esmolas a pedintes inoportunos. Lembro-me que balbuciei uma desculpa irónica, tipo “Não quero incomodar Vossa Excelência” mas confesso que fiquei irritadíssima, de tal modo que ainda hoje, passados muitos anos, me lembro deste episódio. Durante meses deixei de a ler, como represália ao “insulto” recebido. Confesso no entanto que de há uns tempos para cá retomei as suas crónicas porque de facto aprecio o que nelas escreve. Mas interrogo-me se a antipatia e a arrogância são características que inevitavelmente acompanham os profissionais desse ofício. Como não tenho o costume de os abordar na rua este episódio único serviu-me de lição para não voltar a falar com pessoas que não conheço pessoalmente, por muito que possa apreciar o que escrevem.
Aqui fica o relato deste episódio com o convite a todos os cronistas a serem brandos e simpáticos para com os seus leitores que de certo modo representam o seu ganha-pão. E recorrendo de novo à pessoa do meu relato (que até é erudita) lembro o modo como o escritor Bertolt Brecht e o filósofo Walter Benjamin prezaram nas suas obras a amabilidade do mundo e dos seres humanos.

“Mas interrogo-me se a antipatia e a arrogância são características que inevitavelmente acompanham os profissionais desse ofício.” Foto © Christin Hume / Unsplash
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.









