[domingo iv do advento ― c ― 2024]

[palavras osculares ― / de esperança louca / vem Emanuel vem! © Joaquim Félix]
1. À voz espantosa da Palavra escutada que nos beija
com a sua boca a evaporar as sombras brancas da geada,
num amor que, em desejo, nos faz exultar de alegria,
farei convosco caminhos e trilhos de montanha
para que nos visitemos mais
e nos saudemos muito mais.
Sim, na semelhança da visitação de Maria a sua prima Isabel,
e de Deus que, em Jesus, volta para junto do «resto dos seus irmãos» (Miq 5,3).
É verdade, estas palavras nascem como uma paráfrase
a versos de Alexandre O’Neill
de quem celebrámos há dias o centenário do seu nascimento:
«Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca».

[Com a sua boca a evaporar as sombras brancas da geada © fotografia: Joaquim Félix]
2. Hoje, propositadamente o evidencio,
gostaria de glosar palavras osculares, só bendizentes.
Bem sabemos como há infortúnios a lamentar:
o ataque no mercado de Natal, em Magdeburgo;
o desastre do autocarro, em Minas Gerais, no Brasil;
os danos causados pelo ciclone Chido, em Moçambique;
a montanha de mortos que cresce nos escombros das guerras.
Porém, sem esquecer as vítimas dos nossos dias, uma que seja,
neste momento, cuidemos de bem-aventurar a vida.
Vou testemunhar-vos como a Palavra escutada
se multiplica em histórias reais de bem-aventurança.
3. Vou contar-vos três histórias sucedidas com jovens.
A primeira delas sucedeu, terça-feira passada,
na capela das Sete Alegrias de Maria, aqui no Seminário,
durante o início silencioso da Lectio Divina,
a acompanhar a leitura orante do Evangelho deste domingo.
Após a invocação do Espírito Santo,
o João descalçou-se, subiu uma cadeira e abriu a alegria da visitação.
Ali, sobre um humilde tapete de lã castanha,
tecido por Fátima Gomes, em Lamas de Orelhão, Mirandela,
lançámos o olhar para o Evangelho descido naquela janela aberta.
E as palavras saltavam de encontro para encontro.
Pousando, nos fundais do silêncio, o pó inquieto da jornada,
no nosso íntimo, sentíamo-nos seres olhados com ternura.
Cada palavra do Evangelho retinia como um sino de luz
no brilho dos nossos ouvidos, em cada olhar de atenção.

[Trípticos da Anunciação e Visitação abertos na iconóstase da capela das Sete Alegrias de Maria © fotografia: Joaquim Félix]
4. Maria, que já tinha entrado na casa de Zacarias,
saudava Isabel, sua prima, à luz de palavras salutares.
Vestida de vermelho, a anciã recebia a luz oblíqua desde um postigo
e sentia a mão a trepidar sobre o ventre de Maria.
Vestida de azul, Maria encostava o seu ouvido ao peito de Isabel,
em obediência à palavra da profecia messiânica de João.
Dentro e fora da casa, o mundo reflorescia em primavera:
a janela esclarece-a, de forma colorida, na transparência dos vidros;
e o vaso em floração sobre a mesa é o jardim interior das grávidas.
Assim se dava à luz a segunda alegria, a visitação,
após a primeira, aberta também na iconóstase, a anunciação.
5. Vamos à segunda história, também ela vivida à luz da visitação.
Quarta-feira passada, na capela de S. Pedro e S. Paulo,
aqui no Seminário, fizemos a Oração pela Paz,
como habitualmente sucede na última quarta-feira de cada mês.
Nela adotámos, como sempre, o estilo orante segundo Taizé,
com palavras e cânticos ao som das guitarras clássicas,
tocadas por Fernando Monteiro e vários jovens da casa.
É uma oração aberta a quem quer que nela deseje participar.
Por norma, a sala de cima enche-se,
nomeadamente, com as jovens do Instituto Monsenhor Airosa (IMA);
e, nesta última vez, com jovens e o respetivo pároco de Fraião.
6. A capela apresentava-se repleta, sobretudo de rapazes e raparigas!
Todos nos sentíamos tocados pela ternura do encontro,
nesta visitação de visitações,
pois, diante de nós, contemplávamos a visitação de Maria a Isabel,
através da imagem de um vitral, concebido pelo Irmão Eric,
que se encontra numa janela da igreja da Reconciliação em Taizé.
Maria saúda Isabel, que, à porta de sua casa, a acolhe.
Toda a cena é vivida com natural familiaridade,
reforçada pelo canto de um pássaro no beiral do telhado
e um gato à porta de casa, escancarada para um fundo azul.
Talvez o que mais surpreendia era contemplar,
no ventre de Maria, Jesus de pé com os braços abertos,
e, no ventre de Isabel, João de joelhos adorando Jesus.
Ao fundo, entre outros detalhes que me dispenso de apresentar,
foi escrita a palavra «Magnificat», o início do canto de Maria.
Assim se cumpria em nós esta visitação do Evangelho!
[Visitação: vitral, concebido pelo Irmão Eric, na igreja da Reconciliação em Taizé © fotografia: D.R.]
7. Passemos agora à terceira e última história.
Ela resulta da sequência de uma visitação que fiz
a uma pessoa idosa a quem recentemente faleceu o marido.
Na sequência da conversa, lancei um desafio à sua filha Elisa:
tentar que o grupo Despertar, formado por jovens,
visitasse os estrangeiros que vivem na paróquia.
8. E eis que, passadas umas semanas, para surpresa minha,
recebo dela a seguinte mensagem:
«Quando esteve aqui, falámos dos estrangeiros em Fragoso
e o Pe. Joaquim perguntou se o Despertar nunca tinha ido falar com eles
já que foram a S. Tomé [num voluntariado, acompanhados pelo pároco].
Como eles fazem sempre no Natal alguma ação diferente
lancei-lhes o desafio de irem a casa deles, falar com eles,
colher um depoimento sobre o Natal no país de origem deles,
…. e eles acharam interessante.
Dividiram-se em grupos e, no fim de semana passado, foram a algumas casas.
Eu também fui ao grupo que está na casa do Costa e na casa do Vilas (Ponte).
Em ambas, eram quase todos angolanos.
Foi mesmo, mesmo, espetacular.
As pessoas estrangeiras adoraram e o Despertar também.
Na casa do Costa ficaram tão felizes por terem visitas;
disseram que nunca tinham tido visitas.
Levaram-nos para a sala deles e falaram muito da questão profissional:
um deles era professor em Angola,
como ganhava muito mal foi trabalhar para a empresa…, lá em Angola.
Ele e outros trabalharam lá
e depois foram convidados a vir trabalhar para Portugal:
6 meses de trabalho 15 dias de férias em Angola, com viagem paga.
Estão muito felizes por estarem cá,
mas têm muitas saudades da família: pais, esposas, filhos…
[…] Fez-se um vídeo em cada casa para depois fazer um ‘final’
para passarem na missa da vigília de Natal.
E os que ficarem cá foram convidados a estar na missa com o Despertar.
Mas ainda faltam 2 casas, embora estas sejam apenas 2 casais:
peruamos e brasileiros».
Esta história far-nos-á pensar que este grupo de jovens
interpretou a diligência de Maria num ritmo percussionista,
ao sabor da antífona: «Veni, Veni, Emmanuel».
Assim mesmo, na semelhança da Aleksandra Šuklar:
9. Três histórias, quantas visitações!
Ao espelho da visitação de Maria a Isabel,
todas elas deixar-nos-ão a pensar que, sem fones nos ouvidos,
ainda vamos a tempo de dizer «Olá!» a conhecidos e vizinhos,
recordados da canção de Nena, que os jovens tanto apreciam;
ela que, recentemente, esteve no Auditório do Espaço Vita.
Mais: as visitações aproximam-nos uns dos outros,
para que, como sucedeu entre as primas,
possamos acolher Jesus que exulta ― e nos faz exultar ― de alegria.
Ele que, segundo o autor da Epístola aos Hebreus (Hebr 10,5 e 6),
instituiu um culto novo, no mistério da Incarnação.
Isto é, na formação de um corpo que,
no cumprimento da vontade de Deus,
― o qual não deseja holocaustos nem imolações pelo pecado ―
se oferece e, nessa oblação, somos santificados.
Mais ainda, as saudações são fonte de alegria;
enchem os outros do Espírito Santo.
E quem se enche do Espírito Santo só pode exultar,
com palavras de bem-aventurança, como Isabel;
ou de magnificência, como Maria, no seu Magnificat:
10. Por fim, e porque estamos a viver
em plena campanha de antífonas do Ó,
saudemos, nesta Hora vespertina,
Aquele que é a Paz (cf. Miq 5,4),
cantando: «Ó Rei das nações e Pedra angular da Igreja,
vinde salvar o Homem que formaste do pó da terra».
Como é entusiasmante e retemperador
― sobretudo para a nossa expectativa de advento ―
experimentar que ela nos ajuda abrir lugares de hospitalidade.
A abrir, inclusive, o nosso corpo
― com que Deus nos formou ―,
a fim de acolhermos aquele que é rei, sim,
mas humilde e ao serviço da paz e iluminação do seu povo:
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia do domingo iv do advento, proferida na Igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.










