
“E depois, vem a noite escura, vem o silêncio, a oração pelo sofrimento do mundo. E vem o desassossego, tão frágil é a nossa condição de ser.” Foto © José Centeio
Desde 15 de Março, às vésperas da nossa estreia em estados de emergência, morreram-me trinta e um, entre amigos e amigas, os próximos e aparentados, os que desde sempre conheci, os que foram importantes ao longo de tantas peripécias, acontecimentos, fases de crise ou crescimento. De quem guardo momentos, frases, gestos, jeitos, tons de voz. Minoria por covid. Maioria por doença maior, por súbito surto, síncope, mal de coração, esvaimento de cabeça. Por velhice, por cansaço ou demasiado viver. Esgotadas as palavras, públicas ou privadas, para dizer a intensidade do enunciado, a pronúncia dos nomes, a evocação das exéquias, não as tenho mais. Não as encontro que sejam capazes de exprimir as memórias ou a saudade do futuro, ou o vazio que vai crescendo.
Em casa, no meu espaço de estar, de ler, de conversar, de trabalhar, de escrever, tenho as fotografias, lembro o refrão de Vitorino: “Olha os mortos dos retratos/sempre a olhar para nós.” Bem entoada, retomo a bem brasileira frase do seu amigo a Carlos Drummond de Andrade: “A gente não morre de morte matada/a gente morre de vida vivida.” E melhor dizendo, encontro o desabafo triste de Jorge de Sena na carta a Sophia: “A impressão que cada vez mais tenho é a de que, de certa altura em diante, na vida, nós começamos a viver como o Rilke dizia que os anjos se sentiam: sem saber se estamos entre vivos ou entre mortos, porque as pessoas desaparecem, transformam-se em memória, e a gente vai ficando numa cada vez mais estranha irrealidade em que a maioria dos vivos não faz parte do nosso mundo que atravessam como espectros secundários, enquanto o espaço vazio se acumula de espectros autênticos que precisamente são os que deixaram de existir.”
Nessa espécie de irrealidade, em dias carregados de turbulência, notícias, números, declarações, indefinições, vamos sofrendo a violência das televisões que ostentam camas de hospitais, que impõem cenas de seringas e agulhas espetadas fundo no corpo. Violência no todo da realidade que nos é mostrada, em tragédia de notícias, espetáculo de horrores. E depois, vem a noite escura, vem o silêncio, a oração pelo sofrimento do mundo. E vem o desassossego, tão frágil é a nossa condição de ser.
O Advento, na contagem decrescente das horas, é a espera. Espera sem limite de tempo interior, sem pavor de apocalipse. Espera de reencontro, desejo de que o Natal seja a revelação do mistério.
Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja – Portugal; Laranjeiras em Atenas é o seu último livro.










