AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Advento: Vida vivida, noite e dia

| 13/12/2020

“E depois, vem a noite escura, vem o silêncio, a oração pelo sofrimento do mundo. E vem o desassossego, tão frágil é a nossa condição de ser.” Foto © José Centeio

 

Desde 15 de Março, às vésperas da nossa estreia em estados de emergência, morreram-me trinta e um, entre amigos e amigas, os próximos e aparentados, os que desde sempre conheci, os que foram importantes ao longo de tantas peripécias, acontecimentos, fases de crise ou crescimento. De quem guardo momentos, frases, gestos, jeitos, tons de voz. Minoria por covid. Maioria por doença maior, por súbito surto, síncope, mal de coração, esvaimento de cabeça. Por velhice, por cansaço ou demasiado viver. Esgotadas as palavras, públicas ou privadas, para dizer a intensidade do enunciado, a pronúncia dos nomes, a evocação das exéquias, não as tenho mais. Não as encontro que sejam capazes de exprimir as memórias ou a saudade do futuro, ou o vazio que vai crescendo.

Em casa, no meu espaço de estar, de ler, de conversar, de trabalhar, de escrever, tenho as fotografias, lembro o refrão de Vitorino: “Olha os mortos dos retratos/sempre a olhar para nós.” Bem entoada, retomo a bem brasileira frase do seu amigo a Carlos Drummond de Andrade: “A gente não morre de morte matada/a gente morre de vida vivida.” E melhor dizendo, encontro o desabafo triste de Jorge de Sena na carta a Sophia: “A impressão que cada vez mais tenho é a de que, de certa altura em diante, na vida, nós começamos a viver como o Rilke dizia que os anjos se sentiam: sem saber se estamos entre vivos ou entre mortos, porque as pessoas desaparecem, transformam-se em memória, e a gente vai ficando numa cada vez mais estranha irrealidade em que a maioria dos vivos não faz parte do nosso mundo que atravessam como espectros secundários, enquanto o espaço vazio se acumula de espectros autênticos que precisamente são os que deixaram de existir.”

Nessa espécie de irrealidade, em dias carregados de turbulência, notícias, números, declarações, indefinições, vamos sofrendo a violência das televisões que ostentam camas de hospitais, que impõem cenas de seringas e agulhas espetadas fundo no corpo. Violência no todo da realidade que nos é mostrada, em tragédia de notícias, espetáculo de horrores. E depois, vem a noite escura, vem o silêncio, a oração pelo sofrimento do mundo. E vem o desassossego, tão frágil é a nossa condição de ser.

O Advento, na contagem decrescente das horas, é a espera. Espera sem limite de tempo interior, sem pavor de apocalipse. Espera de reencontro, desejo de que o Natal seja a revelação do mistério.

 

Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja – Portugal; Laranjeiras em Atenas é o seu último livro.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal

EUA

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal novidade

A arquidiocese de St. Louis, no Missouri (EUA), intentou uma ação contra o Governo federal por ver os seus padres impedidos de distribuir a comunhão e ouvir em confissão os detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, no acrónimo em inglês) internados no Centro de Detenção do Condado de Ste. Genevieve.

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This