Estudantes apresentaram ao Papa visão crítica da Laudato si. Foto © Vatican Media
28Depois de na sexta-feira, 27, Francisco ter apelado aos professores da primeira que “alarguem as fronteiras e sejam inquietos buscadores da verdade”, neste sábado, foram os estudantes os protagonistas, ao apresentarem uma longa leitura crítica da sua encíclica Laudato Si, numa cerimónia intercalada com música da orquestra sinfónica dos alunos da instituição.
Ao longo dos últimos meses estudantes de diferentes áreas do saber trabalharam sobre a Laudato Sí, sublinhando e contextualizando umas partes, interrogando outras. O resultado final foi dramatizado perante Francisco, entrecortado por quatro depoimentos de estudantes e jovens investigadores.
Algumas das leituras e interrogações foram ao ponto de assinalar o que consideraram silêncios ou pontos enviesados contidos na encíclica. “Santo Padre, onde estão as mulheres na Laudato Si?”, perguntou a dramaturga que leu o escrito dos alunos. “O senhor poderia dizer que o cuidado da nossa casa comum, a mãe Terra, é um desafio direto à vocação feminina. Mas não é isso também verdade para os homens? Ao fazer isso não estamos ainda a viver uma divisão injusta do trabalho, em nome de uma suposta propensão natural que leva a uma divisão sexual do trabalho?”, prosseguiu ela. “A teologia católica tende a reforçar essa divisão, através de uma teologia da mulher”, acrescentou.
Mas esses pontos não questionaram o valor que os universitários reconhecem na Encíclica que, observam a dado passo, coloca desafios que também a investigação científica sublinha, permitindo uma inspiração para distintos setores da sociedade preocupados com o futuro do planeta.
O Papa, na sua resposta, aludiu à importância da coerência e de os estudantes se prepararem para serem coerentes. Sobre as perguntas em torno das mulheres, recordou o que lhe é habitual neste tipo de matéria: que a mulher “está no centro do acontecimento salvífico”, “é a partir do ‘sim’ de Maria que Deus vem ao mundo”; “o que é caraterístico da mulher é tudo o que é feminino; não pode ser influenciado pelas ideologias; a mulher é acolhimento fecundo, cuidado, dedicação vital; por isso a mulher é mais importante que o homem; a Igreja é mulher, não é homem”.
“Quando falta o espanto, não se pode pensar”
“Alarguem as fronteiras! Sejam inquietos, por favor; e com a inquietude da vida sejam buscadores da verdade e nunca extingam a paixão, para não cederem à acédia do pensamento, que é uma doença muito grave”. Foi este o apelo que o Papa Francisco deixou aos professores da Universidade (antiga) de Lovaina, durante a sua visita pastoral à Bélgica.
Num discurso nas instalações daquela instituição flamenga de ensino superior católico, Francisco começou por afirmar que a primordial tarefa da instituição universitária é “oferecer uma educação integral para que as pessoas tenham as ferramentas necessárias para interpretar o presente e planear o futuro”. Isso passa, observou ainda, por recusarem ser ”catedrais no deserto”, centradas sobre si mesmas, assumindo-se antes como “locais que impulsionam ideias e novos estímulos para a vida e o pensamento humanos e para os desafios da sociedade”.
Sendo espaços “geradores de cultura”, distinguem-se por promover “a paixão pela busca da verdade ao serviço do progresso humano”, através de uma formação académica e cultural entendida como “um espaço vivo, que englobe a vida e fale à vida”, disse o Papa.
Se a grande missão da Universidade é “alargar fronteiras e tornar-se um espaço aberto ao Homem e à sociedade”, importa estar atento a duas perspetivas que estreitam e comprometem a busca da verdade.
Um deles é, para Francisco, o que designou por cansaço do espírito, o “pensamento débil” pós-moderno, relativista, falho de “paixão, como se fosse inútil procurar sentido numa realidade que permanece incompreensível”. Ora, contrapõe Francisco, “procurar a verdade é cansativo, porque nos obriga a sair de nós próprios, a correr riscos, a fazer perguntas”, o que pode ocorrer também no plano da fé.
O “racionalismo sem alma“ seria o segundo aspeto do estreitamento. Associado à cultura tecnocrática e condicionado por ela, manifesta-se quando – adianta o bispo de Roma – a pessoa “se reduz apenas à matéria, quando a realidade se restringe aos limites do visível, quando a razão é apenas matemática, … apenas ‘laboratorial’”. Aí, ainda segundo as suas palavras, “perde-se o espanto – e quando falta o espanto não se pode pensar; o espanto é o início da filosofia, é o início do pensamento –, aquele assombro interior que nos impele a procurar mais além, a olhar para o céu, a descobrir aquela verdade escondida que responde às perguntas fundamentais: porque é que vivo? Que sentido tem a minha vida? Qual é o objetivo último e a meta deste caminho?”
É contra o cansaço do espírito e o racionalismo sem alma, e conscientes de que “ainda não sabemos tudo”, e que não falta quem queira “reforçar as fronteiras”, que se impõe alargar as fronteiras. O Papa deixou aos docentes e investigadores um apelo: “Sejam protagonistas na criação de uma cultura de inclusão, de compaixão, de atenção para com os mais fracos e para com os grandes desafios do mundo em que vivemos”.
A coragem de uma conversão eclesial
No encontro com membros do (e candidatos ao) clero, pessoas consagradas e agentes de pastoral, que decorreu no sábado de manhã, na basílica do Sagrado Coração de Koekelberg, o bispo de Roma assinalou o facto de estar perante uma igreja “em movimento”. Esse dinamismo viu-o ele no esforço de “transformar a presença das paróquias no território” e impulsionar “fortemente a formação dos leigos”, estando “próxima das pessoas”.
Referiu, nesta linha, “a coragem de uma conversão eclesial” exigida para desencadear transformações pastorais que mexem com “os costumes, os modelos, as linguagens da fé”, mas que é requerida por um cristianismo que deixou de ser o “estabelecido” e “reconhecido”, para passar a ser “um cristianismo ‘de minorias’ ou, melhor, de testemunho”.
O quadro geral é de crise, mas, como salientou Francisco, “a crise – cada crise – é um momento que nos foi oferecido para nos sacudirmos, para nos questionarmos e para mudarmos”. E a pergunta que as comunidades cristãs são chamadas a fazer, especialmente em tempos difíceis é “que mensagem o Senhor nos quer comunicar” e “o que é que a crise nos faz ver”.
Referindo-se a alguns testemunhos apresentados no encontro, o Pontífice sublinhou alguns pontos que lhe são caros: que “Deus é o Pai da misericórdia, que se comove por nós, que nos levanta das quedas, que nunca nos retira o seu amor”; “Deus perdoa tudo, Deus perdoa sempre, Deus justifica-nos com a sua misericórdia, ou seja, torna-nos justos porque nos dá um coração novo, uma vida nova”.
A visita do Papa à Bélgica termina este domingo com uma eucaristia no estádio Rei Balduíno, às 10.00h locais (9 em Portugal). A despedida acontecerá pela hora do almoço, devendo o Pontífice chegar a Roma cerca das 15.00h.









