
Campanha do sim na Austrália pelo reconhecimento dos povos primitivos na Austrália. Foto © Matt Dennien / Wikimedia
17 milhões de australianos foram este sábado 14 de outubro às urnas rejeitar de forma categórica uma proposta para reconhecer os povos aborígenes (os povos primitivos) na Constituição do país e estabelecer um órgão de aconselhamento do Parlamento sobre as questões indígenas. Os resultados do referendo, com 75 por cento dos votos apurados, indicavam que o “não” ganharia em todos os seis Estados australianos e obteria quase 60 por cento dos votos.
Apesar de no início deste ano as sondagens apontarem para a vitória do ‘sim’, esta perspetiva foi sendo contrariada por uma estranha ‘coligação’ de vozes que incluía desde o líder da oposição, Peter Dutton (Partido Conservador), a dirigentes e ativistas da defesa dos direitos dos povos aborígenes, passando por representantes políticos à esquerda dos trabalhistas (no poder). O ‘sim’ sofreu a erosão habitual dos referendos: sendo uma consulta sobre uma questão de princípio, não consegue responder às questões concretas sobre o que aconteceria caso vença a mudança.
Segundo Rod McGuirk, jornalista da AP citado pelo Washington Post, “os defensores do ‘sim’ esperavam que [a instituição de um órgão de aconselhamento do Parlamento que permitisse] ouvir as opiniões indígenas levaria a uma prestação mais eficaz dos serviços governamentais e a melhores resultados para as vidas indígenas”, mas os defensores do ‘não’ argumentaram que tal alteração à Constituição “dividiria os australianos em linhas raciais sem reduzir as desvantagens indígenas”, ou que consistiria num “primeiro passo em direção às reivindicações indígenas de repatriação e compensação”.
Todos os dados indicam, porém, que o Estado australiano tem sido incapaz de melhorar significativamente a qualidade de vida dos povos primitivos (ou primeiras nações) que representam menos de quatro por cento da população, morrem em média oito anos mais jovens do que a população em geral, têm uma taxa de suicídio duas vezes superior à média nacional e sofrem, quando vivem em lugares do interior do país, de doenças que foram erradicadas nos países que emparceiram com a Austrália.
O referendo teve lugar, lembra The Guardian, “235 anos depois da colonização britânica, 61 anos após o direito de voto ter sido finalmente alargado aos aborígenes australianos e 15 anos depois do histórico pedido de desculpas do primeiro-ministro pelos danos causados por décadas de políticas governamentais, incluindo a retirada forçada de crianças de famílias indígenas”.









