Saber que Deus, sendo infinito, escolhe relacionar-se connosco através de gestos pequenos, quase impercetíveis, fascina-me. É como se, em vez de exibir a Sua grandiosidade, preferisse oferecer-nos um simples bombom — um mimo inesperado, doce, gratuito. É a lógica “sem lógica” da bondade de Deus. São gestos que não se explicam através da nossa limitação lógica humana, mas que nos transformam profundamente.
Vivemos num mundo onde tudo se mede: o esforço, o mérito, o retorno, os objetivos. A bondade, muitas vezes – demasiadas vezes – é vista como uma transação: damos, mas esperamos receber; ajudamos, mas esperamos reconhecimento. A bondade de Deus não segue essa lógica, é uma bondade que não depende do nosso desempenho, nem da nossa perfeição. É a bondade que nos é oferecida mesmo quando erramos e falhamos, quando duvidamos ou quando permanecemos em silêncio. E isso desconcerta-nos. Porque fomos, e somos, educados para merecer, para conquistar, para justificar cada gesto que fazemos.
A ideia de recebermos algo sem nada fazer para o merecer parece injusta, e chega a causar revolta a alguns. E talvez seja precisamente aí que reside a beleza da verdadeira bondade: na gratuitidade. No facto de Deus nos amar sem condições, sem cálculos ou contabilizações, sem reservas, e de nos desafiar a fazer o mesmo com os outros.
Os bombons de Deus chegam-nos às “mãos” de uma forma sempre inesperada: num momento de paz inexplicável ou no meio do caos. Na palavra certa dita por alguém que nem nos conhece bem. Num reencontro, numa oportunidade, na força que surge quando já pensávamos não a ter. São pequenos sinais, carregados de significado. E, muitas vezes, só os reconhecemos depois, quando olhamos para trás e percebemos que não estivemos sozinhos.
A bondade de Deus não é passiva. Não é um doce que nos vem adormecer. Pelo contrário, é um convite à transformação. Quando somos tocados por essa ternura, há algo em nós que muda. Deixamos de viver apenas para nós, começamos a olhar para os outros com mais e maior compaixão, com mais paciência e maior generosidade. Quem recebe um bombom de Deus, quando menos espera, sente uma inexplicável vontade de oferecer bombons a toda a gente.
E não se trata de religião, nem de dogma. Trata-se de humanidade. De reconhecer que há Amor que nos ultrapassa, há gestos que não se explicam, mas que nos salvam. E, no meio da lógica fria e calculista do mundo, há uma ternura que insiste em permanecer.
Talvez seja esse o milagre que, sistematicamente, temos vindo a desvalorizar: esta possibilidade que nos é dada de podermos ser tocados por Deus, com gestos simples, e a capacidade de os reconhecermos, saborearmos e partilharmos.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










