O filme O Brutalista está nomeado para dez óscares da Academia de Hollywood e está em cartaz há cerca de um mês em Portugal. Do elenco consta o ator principal do inesquecível O Pianista, de Roman Polanski, Adrien Brody – para sempre na lembrança a cena daquela figura alta e esguia, sozinha a caminhar por entre os destroços – que vem, uma vez mais, cruzar-se com a segunda guerra mundial, desta vez no pós-guerra.
No início do ano, nos Globos de Ouro, quando ouvi o nome do filme, a primeira ideia que me ocorreu foi que a temática seria sobre uma qualquer criatura humana abrutalhada e violenta. Não é – ou se calhar é, há que ver o filme. Não fazia ideia de que o Brutalismo, do francês béton-brut, é um estilo arquitetónico que emergiu no pós II guerra mundial, na sequência da necessidade urgente de reconstrução e da escassez de materiais. Caracterizado por construções que parecem inacabadas, em bruto, onde predomina o cinzento do betão. (E, já agora, para quem, como eu, não sabia: há Brutalismo no centro de Lisboa! Trata-se da Igreja do Sagrado Coração de Jesus que, de resto, sempre achei ligeiramente “abrutalhada”.)
A arquitetura dos edifícios aponta para a estética do filme: uma espécie de alegoria – humanos que são como os edifícios, as rodas das cadeiras e o tempo, passado e presente – um conjunto metafórico, um vaivém emocional entre as complexas relações humanas das personagens e as características arquitetónicas de um ambiente urbano, muitas vezes opressivo, perante o qual é impossível fugir a uma reflexão sobre verdade e superficialidade, sobre a existência humana e a sua transformação: “- Eu não sou quem eu esperava…”
Pelo meio cruzamo-nos com o totalitarismo, frio e de linhas geométricas, igual às construções; com o sonho americano e o seu lado sombrio, que contraria a perspetiva romântica da imigração para um país de promessas, onde “correrá leite e mel”, entenda-se riqueza e poder; com o capitalismo pós-guerra, corrosivo, a destruir as almas; a religião, o combustível que faltava para atear a chama do preconceito, da intolerância e da violência. Aliás, esta é a temática de uma das cenas mais revoltantes da história.

Adrien Brody vem, uma vez mais, cruzar-se com a segunda guerra mundial, desta vez no pós-guerra. Imagem de divulgação.
O filme é divido em duas partes, tem um intervalo incluído, o que não é habitual, que funciona, mais ou menos, como um acordar para a realidade, uma espécie de passagem de sonho a pesadelo, da expetativa à realidade.
O Brutalista convence, transformando a história em momentos intimistas e imersivos, é profundamente enigmático e, a páginas tantas, parece ser a história de alguém conhecido. Esta dinâmica leva a diferentes interpretações dos factos, o que foi certamente muito inteligente para que se tornasse ainda mais interessante.
Para uma opinião mais pessoal só vendo o filme, para quem já viu, a pergunta, em modo “brutalistometafórico”: quem será, afinal, o brutalista? Será o personagem principal, o país que escolheu para viver ou nenhum dos dois?
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










