
O ex-cardeal afirma que gastará “toda a energia” que lhe resta “a assegurar que se restabeleça a verdade”. Foto: Vatican Media.
Angelo Becciu, obrigado pelo Papa a renunciar ao cargo de prefeito da Congregação para a Causa dos Santos e aos direitos do cardinalato no passado mês de setembro, anunciou esta quarta-feira, 18 de novembro, ter apresentado uma denúncia por difamação contra a revista italiana L’Espresso. O ex-cardeal exige uma indemnização de dez milhões de euros e sugere que, caso lhe venha a ser vedada a presença num eventual conclave, tem poderes para impugná-lo.
Em comunicado, citado pelo Religión Digital, Becciu afirma que, desde que foi sancionado por Francisco, a revista semanal L’Espresso “levou a cabo ininterruptamente” em relação a si “uma série de acusações, todas absolutamente sem fundamento”. E assegura que desmontou “inclusive documentalmente, uma a uma”, todas essas acusações, desde o desvio de fundos destinados à caridade para empresas pertencentes a familiares seus, até ao “fantasioso complô contra o cardeal Pell, com interferências ilícitas destinadas a condicionar o seu julgamento”.
No mesmo texto, o antigo prefeito da Congregação para a Causa dos Santos afirma ainda que continuará “a servir a Igreja” e a “ser totalmente fiel ao Santo Padre e à sua missão”, mas gastará “toda a energia” que lhe resta “a assegurar que se restabeleça a verdade”.
Já na denúncia apresentada ao tribunal, Becciu avisa que tem poderes para pôr em causa um eventual conclave caso venha a ser impedido de participar nele, o que “poderia levar a impugnar a validade da eleição do Santo Padre, com todas as implicações doutrinais que possam dela derivar, bem como as divisões dentro da Igreja que poderão ser geradas, sem esquecer os graves problemas económicos que provocaria a convocatória de um segundo conclave, já que é um trâmite com muitos custos para a Santa Sé”, assinala.

Capa da revista L’Espresso, publicada três dias depois do afastamento de Becciu.
Uma queixa reveladora da “ambição” do ex-cardeal
No texto da denúncia, os advogados de Becciu referem-se não apenas aos artigos publicados no L’Espresso após a renúncia do ex-cardeal, mas alegam que foi a reportagem de investigação realizada pela revista, publicada três dias depois do afastamento do cardeal e à qual Francisco terá tido acesso antecipadamente, que esteve na origem da decisão do Papa.
A resposta da revista L’Espresso não se fez esperar. “Temos a certeza de ter cumprido o nosso trabalho e o nosso dever de informação, com correção e profissionalismo, conscientes da excecional relevância pública do assunto” pode ler-se no artigo intitulado “O surpreendente ataque de Becciu a L’Espresso (e ao Papa)”, assinado pelo diretor Marco Damilano, e publicado no mesmo dia em que Becciu divulgou o seu comunicado.
Segundo o jornalista, a queixa contra L’Espresso contradiz aquilo que o próprio Becciu havia afirmado na sua primeira conferência de imprensa sobre o tema, em que justificou a decisão do Papa com o resultado de investigações realizadas pela justiça italiana.
Para o diretor da revista semanal, a denúncia feita agora por Angelo Becciu é reveladora da “ambição” do ex-cardeal. Damilano destaca que “os advogados de Becciu quantificam o montante da indemnização” solicitada, aludindo à “circunstância de que o cardeal, com base no seu próprio prestigioso currículo (…), poderia muito bem ter estado entre os papabili” (termo usado em Itália para referir os mais prováveis candidatos a Papa).
Assim, a revista “L’Espresso é acusada de condicionar não só o Papa no cargo, mas também o Espírito Santo, que poderia ter escolhido Becciu como seu sucessor, caso um artigo não tivesse intervindo para impedir a sua ascensão”, afirma Damilano, ironizando com o episódio. E conclui: “O trono de Pedro, pela primeira vez, tem uma avaliação: dez milhões de euros”.










