Bispos dos EUA divididos pela Presidência Biden

| 22 Jan 21

O aborto e uma declaração “irreflectida” do presidente do episcopado dos EUA, José Gomez, provocou uma tempestade entre diferentes bispos do país, a propósito da posse do Presidente Joe Biden e da questão do aborto. No meio, ainda apareceu a posição do Papa, que usa uma linguagem bem diferente da de Gomez. Uma declaração “muito infeliz”, comenta-se no Vaticano. 

O bispo José Gomez, ao centro, na última assembleia plenária em videoconferência dos bispos dos EUA. Foto reproduzida da página no Twitter da USCCB.

 

O dia de “inauguração” da nova Presidência dos EUA, como é designado, teve várias referências religiosas: Biden começou a manhã com uma missa na qual também participou a vice-Presidente Kamala Harris e vários outros políticos dos dois partidos; um padre jesuíta e um pastor protestante fizeram duas orações no início e no fim da cerimónia; o próprio Biden e os outros intervenientes referiram por várias vezes a Bíblia, Santo Agostinho ou o Papa Francisco nos seus discursos; o novo Presidente pediu um momento de oração em silêncio pelas mais de 400 mil vítimas da pandemia no país; e na Sala Oval da Casa Branca, o centro do poder dos EUA, via-se uma foto de Biden com o Papa.

Tais referências, no entanto, são pormenores pouco importantes para o presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB, da sigla em inglês). No próprio dia da posse de Biden, José Gomez publicou uma declaração, dizendo que reza pelo novo Presidente, mas também acusando-o de defender “certas políticas que promovem males morais”.

Para concretizar a que se estava a referir, Lopez referia questões como o aborto, contracepção, casamento [entre pessoas do mesmo sexo] e género, acrescentando que “o aborto continua a ser a ‘prioridade preeminente'” da USCCB. “Não podemos ficar calados quando, ano após ano, quase um milhão de vidas por nascer são postas de lado no nosso país através do aborto”, escreveu na declaração de quatro páginas, das quais quase metade era dedicada ao tema do aborto.

“O aborto é um ataque directo à vida que também fere a mulher e mina a família” e é “também uma questão de justiça social” por atingir sobretudo os mais pobres e as minorias, lembra o também arcebispo de Los Angeles. Que pede a Biden: “Em vez de impor novas possibilidades de aborto e contracepção”, o Presidente e a sua administração devem dialogar com a Igreja sobre “os complicados factores culturais e económicos que estão a impulsionar o aborto e a desencorajar as famílias”.

Na realidade, Joe Biden já afirmou muitas vezes que é contra o aborto mas defende a sua legalização para evitar a sua prática clandestina.

Também a política familiar deve reconhecer “a importância crucial de casamentos fortes e da parentalidade”, acrescenta o bispo Lopez na declaração, publicada na íntegra (também em espanhol), na página da USCCB.

 

“Ansioso” por trabalhar com Biden

Joe Biden e Kamala Harris: O Presidente tem um “compromisso de longa data com a prioridade do Evangelho para os pobres”, diz o arcebispo Gomez. Mas… Foto: Direitos reservados.

 

No texto, o presidente dos bispos dizia rezar para que Deus conceda “sabedoria” ao novo Presidente no sentido de curar as feridas da pandemia, aliviar as “intensas divisões políticas e culturais” do país e congregar as pessoas no empenho “na liberdade e na igualdade para todos” nos EUA.

Em questões como “aborto, eutanásia, pena de morte, imigração, racismo, pobreza, cuidado com o ambiente, reforma da justiça penal, desenvolvimento económico e paz internacional”, os bispos tomam posições “que não se alinham bem com as categorias políticas de esquerda ou direita”, pois a principal preocupação é fazer avançar a visão de Jesus sobre a “fraternidade e comunidade humana”.

O bispo confessa-se “ansioso por trabalhar com o Presidente Biden e a sua administração, e com o novo Congresso”, e diz que será “único” trabalhar com Biden, o primeiro no cargo a professar a fé católica, em 60 anos – depois de Kennedy. E ainda elogia o percurso pessoal do Presidente: “A piedade e a história pessoal do Sr. Biden, o seu comovente testemunho de como a sua fé lhe trouxe consolo em tempos de escuridão e tragédia, o seu compromisso de longa data com a prioridade do Evangelho para os pobres – tudo isto eu acho esperançoso e inspirador.”

Na sua coluna no Religion News Service, o padre Thomas Reese escreveu que esta é certamente “uma das declarações mais positivas a ser feita por um bispo sobre a fé de Biden” e que “nunca mais ninguém poderá chamá-lo [ao Presidente] de mau católico”. Apesar disso, os argumentos usados por Gomez não impediram a liderança da USCCB de criar, logo após a eleição de Biden, uma comissão para acompanhar a acção do novo Presidente na questão do aborto.

A declaração de Gomez foi apoiada e partilhada por alguns outros bispos, como o de São Francisco, Salvatore Cordileone, bem como por grupos católicos como os Cavaleiros de Colombo, que a referiram como “equilibrada e profética”.  Mas o National Catholic Reporter regista que a maioria dos bispos ofereceu orações pelo novo Presidente e pelo país. E o cardeal Wilton Gregory, de Wasghington, saudou Biden quando ele chegou à capital e presidiu a uma cerimónia memorial das 400 mil vítimas da pandemia, rezando pela unidade.

 

Uma declaração “irreflectida” e sem consultas
twitter do cardeal Blase Cupich

A publicação do cardeal Cupich: uma declaração “irreflectida”

 

Quem não gostou mesmo nada da declaração do arcebispo José Gomez foi o cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago. Numa mensagem na sua página no Twitter, publicada na noite de quarta-feira (madrugada de quinta, em Lisboa) escreveu: “Hoje, a USCCB publicou uma declaração irreflectida no dia da inauguração do Presidente Biden.”

Cupich acusava ainda o presidente do episcopado de ter escrito o texto sem consulta ao comité administrativo, o organismo executivo da USCCB. E, na declaração sobre o início da nova Administração, o cardeal referia a necessidade de reconstruir “uma nação dedicada uma vez mais aos ideais fundacionais de liberdade e justiça para todos” e pedia que não se deixe de “imaginar um melhor futuro para toda a humanidade e a nossa casa comum”.

Também o bispo de San Diego, Robert McElroy, se pronunciou criticamente em relação ao colega presidente do episcopado, dizendo que a carta envida pelo Papa a Biden mostrava melhor a forma como os bispos norte-americanos deveriam relacionar-se com a nova Administração. “A mensagem do Papa Francisco ao Presidente Biden fala-lhe fundamentalmente da sua humanidade, um homem de fé católica empenhado em servir a sua nação e o seu Deus”, escreveu. “É assim que nós, os bispos dos Estados Unidos, devemos encorajar o nosso novo Presidente: entrando numa relação de diálogo, não de julgamento; colaboração, não de isolamento; verdade na caridade, não de dureza“.

 

“Muito infeliz”, comenta-se no Vaticano

Joe Biden com o Papa: no Vaticano, a declaração do arcebispo Gomez foi mal recebida. Foto: Direitos reservados.

 

Em Roma, um alto funcionário do Vaticano, não identificado, disse à revista America, dos jesuítas americanos, que a declaração de Gomez foi “muito infeliz e é provável que crie divisões ainda maiores no seio da igreja nos Estados Unidos”.

A carta do Papa ao segundo católico a exercer o cargo nos 244 anos de história do país fazia votos para que, sob a liderança de Biden, “o povo americano continue a buscar forças dos nobres valores políticos, éticos e religiosos que têm inspirado a nação desde a sua fundação”.

Pedindo também “sabedoria e força” para o exercício do mandato de Biden, Francisco acrescentava: “Numa altura em que as graves crises que enfrenta a nossa família humana pedem respostas unidas e de longo prazo, rezo para que as suas decisões sejam guiadas pela preocupação pela construção de uma sociedade marcada pela verdadeira justiça e liberdade, juntamente com um respeito incessante pelos direitos e a dignidade de todos, sobretudo dos pobres, dos vulneráveis e dos que não têm voz.”

Recorde-se que, em Novembro, o Papa telefonou a Biden assim que a eleição foi confirmada, tendo combinado trabalharem numa “agenda comum” e, mais recentemente, enviou-lhe uma cópia autografada do seu novo livro, Sonhemos Juntos.

A diferença de tom entre a mensagem do Papa e a de Gomez levou o National Catholic Reporter a notar: “O Vaticano está a mais de 4.000 milhas [cerca de 6437 km] de distância da Casa Branca, mas na quarta-feira esteve muito mais próximo do segundo Presidente católico da nação do que a liderança da hierarquia dos EUA.”

No artigo já citado, Thomas Reese nota, aliás, que na posse do antecessor de Biden, os bispos “não emitiram uma declaração semelhante” a esta. E diz que é notória a diferença entre o tom usado pelo Papa – que prefere sublinhar pontos de convergência – e pelo presidente do episcopado, para quem o importante são os dois ou três temas e que há desacordo. “Resta saber se bispos como Cupich serão capazes de dar a volta ao Titanic antes de este se despenhar”, comenta Reese ao concluir o seu artigo.

 

A fé que sustenta Biden e o que diz Santo Agostinho

Francisco com Biden, quando ele era vice-presidente de Obama, na altura da visita papal aos EUA: Biden apoia-se na “centralidade da sua fé”. Foto: Direitos reservados.

 

Toda esta polémica entre bispos surgiu por causa de um Presidente que, sem qualquer fingimento, tem assumido a sua fé como alicerce pessoal (foi ela que lhe deu consolo quando perdeu a primeira mulher e, mais recentemente, um dos filhos) e fundamento da sua intervenção cívica e política.

“Durante toda a campanha eleitoral, Biden apoiou-se sempre na centralidade da sua fé sem deixar a mínima dúvida de onde provêem as suas raízes e tudo aquilo que o sustenta”, escreve o teólogo e historiador católico Massimo Faggioli no seu novo livro, do qual o 7MARGENS divulgou um excerto há dias.

Se é normal ver os presidentes americanos fazer alusões cristãs frequentes, em Biden isso não é apenas uma roupagem ou uma bandeira que se transporta na mão. E essa fundação cristã que o sustenta apareceu também no discurso de posse em que, ao contrário das palavras conflituosas do seu antecessor há quatro anos, as palavras escolhidas não acentuavam divisões. Antes falavam de amor, unidade, justiça, democracia, dignidade – foi a primeira vez que um Presidente falou de “supremacia branca” e da necessidade de a combater, por exemplo.

Aliás, quando citou o santo de Hipona, Biden juntou várias das palavras que marcaram o seu discurso: “Muitos séculos atrás, Santo Agostinho, um santo da minha Igreja, escreveu que um povo era uma multidão definida pelos objectos comuns do seu amor. Quais são os objectos comuns que amamos que nos definem como americanos? Penso que sei: oportunidade, segurança, liberdade, dignidade, respeito, honra. E, sim, a verdade.”

 

“Temos esperança e um presidente moralmente centrado”
Joe Biden

Joe Biden no discurso de posse, numa imagem captada da transmissão televisiva.

 

Pouco antes de terminar e de pedir uma oração em silêncio pelas vítimas da pandemia, Biden citou o salmo 30: “O choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria.” (O discurso pode ser lido na íntegra em português do Brasil ou visto com legendas.)

Pouco antes de terminar o seu discurso, Biden citou ainda a Bíblia, nomeadamente o Salmo 30. Depois de elencar os vários desafios que o país enfrenta, recordou que “o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria”.

Precedendo o discurso de posse, que duraria 23 minutos, o padre jesuíta Leo O’Donovan, amigo de Biden há muitos anos, fez a oração de invocação inicial. Nela citou o Papa Francisco e invocou a sabedoria do rei Salomão, para acrescentar: “Há um poder em cada um, que vive de se abrir aos outros. Um impulso do espírito para estimar, cuidar e estar ao lado dos outros, sobretudo os que mais precisam. Chama-se amor e o seu caminho é o de dar-se cada vez mais.”

No Washington Post, a colunista Jennifer Rubin considerou o discurso de Biden como um dos melhores já pronunciados nas cerimónias de investidura presidencial. E acrescentava: “Agora começa a parte difícil da governação. Mas pelo menos temos esperança e um presidente moralmente centrado. E isso, aprendemos, faz toda a diferença no mundo.

 

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