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Joaquim Félix. Foto

Caminho da justiça

| 02/10/2023

[xxvi domingo do tempo comum ― a ― 2023]

UVAS. Joaquim Félix

[justiça em ruína / aprende o caminho ― / oh uvas columbanas! © haicai e fotografia: Joaquim Félix]

 

1. Na ponta final das vindimas, constatamos que há muita uva.
Felizmente estão a verificar-se excelentes produções,
ao ponto de algumas adegas terem de adiar
a receção das entregas dos produtores, tal é o ‘milagre das uvas’.
É o que sucede, por exemplo, em Vila Real, que,
por causa do aumento diário do afluxo de uvas,
― na ordem das 850 pipas, isto é, mais 200 do que o habitual ―,
foram suspensas as vindimas até amanhã, dia 2 de outubro.

2. As últimas parábolas de Jesus, ouvidas por estes domingos,
estão ligadas à cultura da vinha.
O reino de Deus assemelha-se de facto a um proprietário que,
nestes dias de ‘antíteses’ ― de abundância de uvas e,
ao mesmo tempo, de carência de trabalhadores ―
procura, a toda a hora, inclusive estrangeiros vindos de longe,
para fazer as vindimas, trabalho duro e de tonalidades dionisíacas.
Ou, como um pai, que, sem aceção, convida os seus dois filhos
para trabalhar na sua vinha, isto é, na vinha que lhes pertence.

Folha Outonal. Joaquim Félix

“Procura figos numa figueira à beira do caminho, mas ela só tem folhas; pelo que a secou com a sua palavra (cf. Mt 21,18-19).” Foto © Joaquim Félix

 

3. Depois da entrada messiânica em Jerusalém,
Jesus desloca-se para o interior do templo (cf. Mt 21,1-10).
Qual é a primeira diligência que Ele promove?
É verdade, Ele começa pela limpeza da «casa de oração»,
expulsando vendedores e compradores, e curando cegos e coxos;
tudo isto ao som de um cântico de crianças (cf. Mt 21,12-15).
Indignados, os chefes dos sacerdotes e os escribas interpelam Jesus,
interrogando-O, note-se, até sobre a aclamação das crianças.
Já acalmado do seu ímpeto, Jesus responde-lhes com uma pergunta,
abrindo-os ao horizonte de um versículo do salmo 8,
relativo ao louvor dos pequeninos e meninos de peito (v.3).
Depois disso, Jesus sai do templo e pernoita em Betânia.
E, de manhã, voltando para Jerusalém, sente fome.
Procura figos numa figueira à beira do caminho, mas ela só tem folhas;
pelo que a secou com a sua palavra (cf. Mt 21,18-19).
― É, como sugere Jesus, a imagem da oração feita sem fé ―.
E, mal entra novamente no templo,
saem-lhe ao encontro os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo
interrogando-O por e com que autoridade fazia tais ações.
Como é seu costume, Jesus responde com uma pergunta,
no caso, sobre a origem do batismo de João (cf. Mt 21,24-25).
E porque eles não sabiam, também Jesus não lhes responde.
De seguida, Ele conta três parábolas; hoje, escutámos a primeira.

4. «Que vos parece?» (Mt 21,28) é a pergunta onde enraíza a parábola.
Não será demais assinalar ― nunca, nunca, nunca ―:
a pergunta é dirigida às mais altas instâncias religiosas de Israel,
em Jerusalém, dentro do templo, por ocasião da maior das festas.
O que me faz perguntar: ― Será que, em nossos dias,
Jesus teria a coragem de fazer uma pergunta assim
às mais altas instâncias religiosas? Que nos parece?
Por mim, nem tenho dúvidas, faria esta e muitas outras.
Haverá seguramente âmbitos de responsabilidade coletiva, digo, eclesial,
nos quais, ainda hoje, alguns se apressam a descansar, desculpabilizando-se.
Porém, como ouvimos da profecia de Ezequiel,
temos de assumir a responsabilidade individual, sem ‘sacudir a água do capote’.
Até para que ninguém diga, equivocado e mal-agradecido:
«A maneira de proceder do Senhor não é justa» (Ez 18,25).

5. Por falar em justiça, gostaria de descer da parábola
às considerações finais de Jesus, que são de uma frontalidade sísmica:
«João Batista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça,
e não acreditastes nele» (Mt 21,32),
diz Jesus sem rodeios às mais altas autoridades religiosas.
Também neste sentido, o próprio salmista canta,
evidenciando a docência do Senhor compassivo:
«Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos» (Sl 24,9).
Que justiça é esta? Haverá quem clame por ela?

6. Porquê insistir nesta ‘tónica’, como diria o Pe. Miguel Carneiro,
que nos visitou estes dias, na altitude dos seus 90 anos de idade?
Não, não é para compor uma música litúrgica,
mas para que um zumbido agudo entre pelos nossos ouvidos dentro,
e nos faça abrir os olhos diante de realidades escandalosas.
Saliento esta ‘tónica’, sim, porque há dias saiu um documento,
a meu ver, particularmente vigoroso, como poucas vezes sucede,
sobre o qual me parece que se fala pouco;
nem tem sido objeto de publicação e debate na imprensa oficial católica!
Refiro-me ao documento publicado, no passado dia 27 de setembro,
pela Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores,
presidida pelo cardeal O’Malley.

[Cf. https://www.tutelaminorum.org/a-call-to-action-on-the-occasion-of-the-consistory-for-the-creation-of-new-cardinals-and-the-16th-ordinary-general-assembly-of-the-synod-of-bishops/].

 7. Confesso-vos que tive a tentação de o ler na íntegra,
aqui e agora, em vez desta homilia…
E, no fim, talvez para surpresa, mencionaria a sua fonte.
De facto, em sintonia com o tema da justiça,
no documento, reconhece-se que, não obstante os esforços feitos,
desde 2019, ano da criação desta comissão:
«permanecem profundas frustrações,
especialmente entre aqueles que procuram justiça
pelos erros que lhes foram cometidos.
Ninguém deveria ter que implorar por justiça na Igreja».
No que concerne às causas desta insatisfação, afere-se o seguinte:
«a resistência inaceitável que permanece
aponta para uma escandalosa falta de determinação por parte de muitos na Igreja,
que é muitas vezes agravada por uma grave falta de recursos».
Pelo que, concluem os membros da comissão,
«poucas mudanças eficazes poderão ocorrer nesta área
sem a conversão pastoral dos líderes da Igreja».

8. Os membros da comissão reuniram-se de 20 a 22 de setembro,
tendo precisamente no horizonte o consistório, que ontem se realizou,
com a investidura de 21 novos cardeais, um deles português;
e o início dos trabalhos da assembleia sinodal, em Roma, no dia 4 de outubro.
Eis porque, no documento se pode ler, em termos de apelo:
«Apelamos a todos os membros do Sagrado Colégio
para que se lembrem das vítimas e das suas famílias
e incluam como parte do seu juramento de fidelidade
o compromisso de permanecerem firmes na honra das pessoas
afetadas pelo abuso sexual,
unindo-se a elas na busca comum da verdade e da justiça.
Todos os bispos e superiores religiosos deveriam fazer eco deste compromisso».

9. Mais, no documento, pode ler-se ainda:
«Ouvimos e ficamos perturbados com relatos sobre as ações de indivíduos
que ocupam cargos de responsabilidade dentro da Igreja,
os gritos das pessoas afetadas,
bem como o legado do comportamento atroz associado a movimentos leigos e outros
e a tantas áreas da vida institucional da Igreja.
Estamos profundamente abalados pela imensa dor,
sofrimento e revitimização vividos por tantos,
e condenamos inequivocamente os crimes e a sua impunidade
perpetrados contra tantos dos nossos irmãos e irmãs.
Reafirmamos o nosso firme compromisso de trabalhar para garantir,
tanto quanto possível,
que tais atos prejudiciais e repreensíveis sejam erradicados da Igreja».

10. Talvez porque também atentos ao que foi publicado no 7 Margens,
os membros da comissão referem o seguinte:
«Casos recentes relatados publicamente apontam
para deficiências tragicamente prejudiciais».
Eis porque eles, levantando a voz, dizem em coro: «Basta!».
O apelo é sem dúvida especialmente dirigido aos «líderes religiosos»,
para que promovam «reformas robustas».
Eis porque a comissão sugere temas para as discussões sinodais
sobre esta problemática, que está a desgastar a Igreja:
«o ensino, o ministério, a formação e a governação».
E porque hoje é o 1º dia da Semana da Educação Cristã,
procuremos ter esta preocupação pastoral na nossa oração.

11. Afastemo-nos dos males cometidos, não do caminho da justiça.
Abramos os olhos e enfrentemos o problema para não sucumbirmos.
De contrário, as prostitutas e os maiores pecadores arrependidos entrarão,
como disse Jesus, diante de nós e dos responsáveis da Igreja, no reino de Deus.
Que nos parece? Jesus, hoje, diria aos principais dirigentes religiosos
o que disse aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo?
E as palavras deste documento, que convido a ler na íntegra, di-las-ia?

12. Por lhes ter dito quanto ouvimos, bem sabemos o que Lhe sucedeu:
«a morte de cruz» (Filip 2,8).
Sejamos solidários com as vítimas e Jesus, partilhando o seu sentir;
Ele que, por causa da sua atitude, percorreu a Via Crucis.
Fernando Botero, recentemente falecido, pintou-a:

Que a sua série de pinturas nos ajude a solidarizarmo-nos,
na clemência e amabilidade dos seus sentimentos.
E, arrependidos, acreditemos n’Ele (cf. Mt 21,32).
Pois, como Igreja, não podemos parar a meio do caminho da justiça.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais  VERNA. Este texto corresponde à homilia do passado domingo, dia 1 de outubro, XXVI Domingo do Tempo Comum na liturgia católica, 2023.

 

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