Até dia 8 de junho, e por ocasião da comemoração do centenário do nascimento de Carlos Paredes, é possível visitar em Vila Franca de Xira, no piso térreo do Museu do Neorrealismo, a exposição Uma Guitarra Com Gente Dentro – Carlos Paredes e o Neorrealismo, com curadoria de Fernando Marques e Jorge Carvalho (entrada livre).
Carlos Paredes era “mais um de uma comunidade”, ou assim queria ser. Quem o afirma é Luísa Amaro, guitarrista e companheira do músico, num dos vários vídeos que integram a exposição. Dá conta de como era importante para o artista o contributo social e cultural que podia oferecer com a sua música, percorrendo o país de lés a lés, pronto a tocar para todos os públicos – desde a inauguração de um centro de dia, até à Ópera de Frankfurt, voltando depois para oferecer um concerto aos trabalhadores da indústria do calçado. Em todos os concertos punha “o mesmo empenho, a mesma atitude”, diz Luísa Amaro. Um tipo de militância política e social que hoje já não se faz, acrescenta.
Carlos Paredes esteve preso entre 1958 e 1959, durante 15 meses, por ter sido delatado enquanto militante do PCP. Foi torturado, sendo este um tema ao qual se esquivava, mesmo com os mais próximos. Durante esse período, usou uma peça de madeira, criada expressamente para o efeito, de modo a continuar a dedilhar e a manter uma proximidade imaginária à sua guitarra e às suas composições.

“Saído da prisão, foi expulso da função pública, perdendo o emprego no hospital onde trabalhava, mas tal não o impediu de cumprimentar o homem que o havia denunciado à PIDE, quando um dia por ele passou na rua.” Exposição. Foto © Sara Leão
Saído da prisão, foi expulso da função pública, perdendo o emprego no hospital onde trabalhava, mas tal não o impediu de cumprimentar o homem que o havia denunciado à PIDE, quando um dia por ele passou na rua.
Central na formação da consciência política de Carlos Paredes foi a sua mãe, Alice Paredes, assim como na sua apetência musical terá sido o seu pai, o guitarrista Artur Paredes, pelo contacto precoce que proporcionou com a guitarra portuguesa. É com uma fotografia deste casal que a exposição nos introduz no percurso do músico, numa sala luminosa e a paredes meias com a rua. O povo vê a exposição, a exposição vê o povo. Se falamos de Carlos Paredes, povo e popular nunca serão termos depreciativos.
Carlos Paredes concebia-se como um músico popular. «Faço música popular, portanto muito ligada à canção, mais ou menos longa, com mais ou menos motivos. Faço música instrumental porque a minha música não pode ser entendida fora da guitarra. Faz parte integrante do instrumento em que é tocada e da pessoa que a toca.»
A relação com a realidade será fundamental nas composições de Carlos Paredes. Uma mais-valia da exposição é pôr-nos em contacto com textos que o compositor escreveu. Contam-se, entre eles, artigos para o jornal Avante!, O Diário, Diário de Lisboa e Jornal de Letras. Neste último escreve, em 15 de setembro de 1981, um artigo de nome “País de músicos, país de poetas”:
«Ora os grandes artistas, e não só, sentem a realidade por dentro da sua arte. E isso ainda seria o menos. O mais importante é que a sentem em movimento, em transformação e se a realidade se transforma será sempre possível corrigi-la ou transformá-la de acordo com as mais justas aspirações humanas.»

Lê-se ainda na folha de sala da exposição: «Da música erudita ao jazz, das artes visuais ao teatro, de Lisboa a Maputo ou a Helsínquia, Carlos Paredes colaborou com dezenas de outros artistas, num gesto que tanto tinha de generosidade como de concretização de objetivos que considerava centrais para a transformação do mundo.»
E voltamos ao artigo no Jornal de Letras: «Mas vamos ao princípio. A música e a poesia estão ligadas uma à outra, desde a origem. Ambas começaram com as primeiras pedras da linguagem, irmãs gémeas geradas no ventre da mesma mãe, a voz humana. Não a voz física, que viaja com o vento e nos faz vibrar os tímpanos, mas o que dela se reflecte dentro de nós, no pensamento, nas emoções, nos sentimentos. Tudo quanto, do íntimo, a voz comovida traz cá para fora, leva sempre consigo um tanto de música e um tanto de poesia.»
«A música que eu faço é um produto das circunstâncias imediatas do tempo em que eu vivo e passará a ser encarada de outras formas quando essas circunstâncias desaparecerem. É uma coisa que se perdurar graças aos discos ficará apenas com o valor do tal documento, como acontece com toda a pequena música, desde os Beatles ao Manuel Freire. E já ficarei muito orgulhoso se daqui a muitos anos puder ser entendido como um compositor que se integrava bem nos acontecimentos desta época.»
Perante a sua música, é difícil não silenciarmos. Ela move-se, fala, traz cá para fora um “vejam lá se ainda têm coração”. No Museu do Neo-Realismo, é ao som de um concerto gravado no Porto, em 1984, e olhando a população de Vila Franca que passa, que vamos fazendo o teste.
Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.










