Carta aos desmemoriados e aos fascinados com discursos “anti-sistema”

| 15 Fev 2024

Campanha #NãoPodias assinala 50 Anos do 25 de Abril

‘Como dizia um cartoon que vi há tempos, com uma senhora de idade a pintar um grafiti numa parede: “Não vão por aí. Já fomos uma vez, e correu muito mal.” ‘ Campanha #NãoPodias assinala 50 Anos do 25 de Abril

 

Tinha 12 anos quando aconteceu o 25 de Abril de 1974. O meu irmão mais velho estava na recruta, a “preparar-se” para ir para a guerra. Se o 25 de Abril não tivesse acontecido e se lhe “corresse tudo bem” na guerra, quando ele voltasse, seria a vez do outro meu irmão. Era o destino dos rapazes quando terminavam o liceu. Ir para a tropa, era ir para a guerra. Com a preocupação, o meu pai teve um ataque cardíaco.

Conheci uma pessoa que ficou a sofrer de stress pós-traumático: foi mobilizado duas vezes, porque era piloto de helicópteros. Não entrava em combate: ia buscar os feridos ao mato. Lembro-me de ele dizer que, se não tinha morrido por causa do choque de coisas que tinha visto, não morreria tão depressa.

Havia mães que morriam de desgosto, porque deixavam de receber cartas (os “aerogramas”) dos filhos que estavam na guerra e pensavam que eles tinham morrido. Havia mensagens de Natal de militares que, quando passavam na televisão, eles já tinham morrido. Os caixões chegavam de noite. A partida dos militares para África deixou de ser transmitida na televisão, porque o desespero das famílias era visível: quando o navio partia, havia uma espécie de uma força magnética desesperada que parecia arrastar as pessoas atrás dos navios.

O 10 de Junho era um dia negro: “o dia da raça” era celebrado com uma parada no Terreiro do Paço e com condecorações a “heróis da guerra”. Muitas vezes, esses heróis tinham morrido e quem recebia as condecorações eram as viúvas, as mães, os filhos pequenos.

Tinha um irmão a trabalhar numa rádio. A PIDE confiscava os discos que não se podiam passar, por serem considerados subversivos.

Lembro-me do caso, que se soube depois, de um radialista que foi despedido porque se atreveu a passar a música It’s only words, depois de um discurso do presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano.

No 1º de Maio, era raro não haver pancadaria da polícia, pelo menos em Lisboa.

Ninguém podia falar de política, da guerra. Fechavam-se as janelas com medo “deles”. Só depois do 25 de Abril é que eu percebi quem eram “eles”: era a PIDE, a polícia política do regime.

Já sei que esta circunstância da guerra colonial não é desejada por ninguém hoje. Mas há quem tenha muito orgulho nela. E quem tenha orgulho em afirmar-se fascista. E quem considere que Portugal é só para os portugueses. E quem diga que é preciso limpar Portugal. E quem seja cego ou não queira ver a teia a nível europeu (pelo menos) que se está a criar para limitar as liberdades fundamentais.

Ora, gostava de deixar um recado a quem é mais novo, a quem não passou por nada disto, a quem pensa que a democracia “são favas contadas”, a quem diz que “não gosta de política”, a quem fica contente se o verniz das unhas aguentar muitos dias e se ninguém lhe chamar nomes nas redes sociais: imaginem que, quando casarem (e têm de casar, porque, se não forem casadas, não têm direitos), o vosso marido pode abrir a vossa correspondência e se quiserem começar um negócio ele tem de autorizar, assim como tem de autorizar se quiserem abrir uma conta bancária.

Imaginem vocês, jovens, que estão na universidade e a polícia de choque entra por ali adentro e bate em tudo e em todos. E traz cães que vos perseguem pelas alamedas abaixo.

Imaginem que têm de ir para a tropa (mesmo que não haja guerra), que a vossa vida é interrompida, porque o serviço militar volta a ser obrigatório, que em momentos “menos tranquilos” não podem estar na rua até às tantas, não se podem juntar mais de três pessoas, não se podem rir de piadas que a censura considere imorais ou políticas (aliás, imaginem que nem sequer podem fazer humor), que a televisão é censurada, que há livros inacessíveis. Ir ao estrangeiro é uma carga de trabalhos, se estiverem em idade de ir para a recruta. Imaginem que emigram e que vivem em bairros de lata (os bidonvilles, em França). Em suma: imaginem que não há liberdade, que os direitos fundamentais não são respeitados.

Tudo isto se passava há cinquenta anos. Como dizia um cartoon que vi há tempos, com uma senhora de idade a pintar um grafiti numa parede: “Não vão por aí. Já fomos uma vez, e correu muito mal.”

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Ed. Paulinas).

 

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