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Manifesto Católicos por Seguro Foto DR
O manifesto está disponível online para poder ser subscrito. Foto: Direitos reservados

Para "construir pontes em vez de muros"

Católicos publicam manifesto: “Votamos e apelamos ao voto em António José Seguro”

| 28/01/2026

Apresentam-se como “católicos de diferentes sensibilidades”, mas têm em comum a certeza de que, no próximo dia 8 de fevereiro, irão votar em António José Seguro e querem apelar a que todos os católicos façam o mesmo, por considerarem que este é o único candidato que “respeita as instituições e não põe em risco os valores democráticos e humanistas que protegem a dignidade de todos”. Por isso, acabam de lançar um manifesto, a que o 7MARGENS teve acesso em primeira mão. O texto, que está já disponível online para poder ser subscrito, contava, às 16h desta quarta-feira, 28, com 310 subscritores, mas pretende chegar a “todos os portugueses que se revejam na mensagem de Cristo”.

“Podemos ter divergências políticas com António José Seguro. Mas, neste momento, votar Seguro é escolher um Presidente comprometido com o bem comum, com a justiça e com a paz”, pode ler-se no texto do manifesto, publicado em catolicosporseguro.pt.

Reconhecendo ser “natural que muitos católicos, de boa fé, se sintam indecisos sobre o voto” e que “num cenário polarizado, torna-se tentador ler gestos religiosos como sinais políticos”, o manifesto alerta que “ver um candidato sair de uma igreja” – como aconteceu com André Ventura na noite da primeira volta eleições – “não prova, por si só, fidelidade ao Evangelho”.

De facto, acrescenta o texto, “para quem quer votar com consciência cristã, o critério não é a encenação: é o fruto”, até porque “a fé não é adereço de campanha; é caminho de vida, tecido de coerência, verdade e serviço”. E nesse sentido, particularmente num mundo “ferido por guerras e radicalismos”, os católicos devem escolher “lideranças que promovam a paz com honestidade, baixem a temperatura social e contenham impulsos de conflito – não que os alimentem”.

A ideia de escrever e tornar público este texto “não nasceu de uma pessoa nem de um grupo fechado”. Margarida Rodrigues, uma das promotoras da iniciativa, conta ao 7MARGENS: “Foi amadurecendo a partir de várias conversas e de um mesmo sentimento que fomos ouvindo repetidamente: preocupação, desilusão e uma certa paralisia. Muitos católicos reconhecem sinais perigosos de polarização e ódio, mas sentem medo de exposição e acabam por ficar em silêncio à espera que alguém diga algo com serenidade e clareza”, acrescenta a psicóloga, de 54 anos, que é membro ativo do movimento católico Equipas de Nossa Senhora.

Para Margarida Rodrigues, ficar parada e em silêncio não era opção. Tal como não foi na altura dos devastadores incêndios de 2017, em que ajudou a fundar o projeto TudoOuNada, para levar apoio à população de Treixedo (Viseu), ou mais tarde, em 2022, quando o mesmo projeto voltou à ação na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia para “acolher famílias, integrar crianças na escola, encontrar trabalho para mães e acompanhar de perto o que significa emigrar”.

“É desse percurso – e dessa aprendizagem concreta sobre dor, deslocação e reconstrução – que surge agora este manifesto”, explica. “Sentimos que chegou ao nosso país uma onda de hostilidade e desumanização que não pode ser normalizada. E quisemos responder com paz, sem medo e sem agenda de notoriedade: apenas dar voz àqueles que, procurando viver a mensagem de Cristo, sabem que Ele não cruzaria os braços diante do ódio e da discórdia.”

Não se trata de “fazer propaganda, nem substituir a consciência de ninguém”, afirma ainda Margarida Rodrigues. “Queremos, isso sim, oferecer um apelo claro: o silêncio perante a normalização da agressão e da desumanização tem custos. É, por isso, um apelo aberto: a todos os que, na vida concreta, procuram viver o mandamento maior – amar o próximo como a si mesmo – e não querem deixar que o medo e o ressentimento ditem o futuro.”

Os promotores da iniciativa deixam ainda um recado à hierarquia da Igreja Católica em Portugal: “Acreditamos que seria importante a hierarquia da Igreja Católica em Portugal pronunciar-se com clareza sobre o que é um voto cristão – isto é, sobre os critérios evangélicos que devem orientar o discernimento dos fiéis: dignidade humana, verdade, rejeição da desumanização, justiça sem crueldade, cuidado pelos mais frágeis e construção da paz. Num tempo de polarização, essa palavra pode ajudar muito a formar consciências e a proteger a comunidade de simplificações e instrumentalizações.”

Para Margarida Rodrigues, será “prudente e apropriado que a hierarquia não indique em quem votar, nem transforme a Igreja num ator partidário”, porque “a missão da Igreja é iluminar a consciência, não substituir a liberdade de cada um”. Por outro lado, “quando certos discursos ou práticas entram em colisão direta com o Evangelho – por promoverem ódio, mentira, humilhação ou exclusão – a Igreja tem não só o direito como o dever de o dizer, com serenidade e firmeza”. E acrescenta: “Não por política, mas por fidelidade à mensagem de Cristo e por cuidado com os fiéis e com o bem comum”.

Foi precisamente com esse espírito que os promotores do manifesto prepararam “uma carta que chegará em breve a muitas paróquias, pedindo aos párocos que, sem referências partidárias, ajudem a comunidade a passar do silêncio à ação e a reler a vida pública à luz do Evangelho”.

 

Justiça e Paz contra “instrumentalização” dos valores cristãos 

voto eleições foto pexels

A Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica, publicou uma nota na qual rejeita a “instrumentalização” dos valores cristãos para fins políticos. Foto © Pexels

 

Um dos subscritores do manifesto, Eugénio Fonseca, ex-presidente da Cáritas, escreveu um artigo publicado no 7MARGENS no qual questiona “se será compatível” com o Evangelho “a recusa a acolher refugiados, quando o próprio Jesus e seus pais viveram esse drama, tendo fugido à tirania do rei Herodes” ou com a identificação de Jesus “com todos os que matam a fome aos famintos, que visitam os prisioneiros, que dão guarida aos forasteiros”.

Nesta mesma quarta-feira, a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), da Igreja Católica, publicou uma nota na qual critica a promoção de discursos de ódio e rejeita a “instrumentalização” dos valores cristãos para fins políticos.

“Esta instrumentalização não é inédita”, diz a Comissão. “Tem-se assistido, nos últimos tempos, à colagem de partidos e movimentos aos valores das comunidades cristãs, através do aproveitamento de causas como a defesa do direito à vida intrauterina ou da defesa da exposição do presépio em espaços públicos, promovendo simultaneamente a discriminação e discursos de ódio”. Mas essa estratégia pretende “captar eleitores” que dão prioridade a “esses temas e que, por essa razão, tendem a relativizar outras posições políticas, mesmo quando estas contradigam as verdades do Evangelho”.

Por isso, a CNJP insiste em que a identidade cristã não pode “prescindir das verdades do Evangelho”, nem deixar de afirmar os ideais de solidariedade, verdade, justiça e paz, para não “ficar corrompida”. Em consequência, os fiéis cristãos devem “tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo.”

Presidida pelo juiz Pedro Vaz Patto, a CNJP, um organismo dependente mais autónomo da Conferência Episcopal Portuguesa, afirma ainda na nota, enviada ao 7MARGENS: “A política, enquanto forma mais elevada da caridade e com vista à construção do bem comum, não deve promover ódio nem divisão. É necessário um compromisso sério e empenhado com os valores democráticos, a defesa intransigente dos direitos humanos, a proteção dos mais pobres, a coesão social, a cooperação entre povos e políticas orientadas para o desenvolvimento integral de todos. É nisso que deve assentar a verdadeira radicalidade daqueles que estão comprometidos com o Evangelho.”

 

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