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"Sermos construtores da paz nesta conjuntura local e universal requer um trabalho interior de reconhecimento dos desejos que dão sentido à nossa vida."

Grupo paz e não-violência

Construir a Paz é também perceber o que dá sentido à Vida

| 20/05/2025

 

Este texto, redigido por Paulo Melo, coordenador e animador do grupo de reflexão/debate sobre Paz e não-violência promovido pelo 7M, pretende apresentar algumas das ideias, considerações, sentimentos e preocupações do que foi a partilha e reflexão nos três encontros online até agora realizados. Em cada um participaram sete dos leitores do Sete Margens que nele se inscreveram, embora nem sempre os mesmos. Foram partilhados textos e livros sobre o tema por vários participantes.

 

Depois das duas grandes guerras do séc. XX, da criação da ONU, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, do fim da Guerra Fria, não esperávamos a atual conjuntura internacional de injustiça, desigualdade, violência e guerra. Pensámos, erradamente, que a Humanidade tinha encontrado os caminhos para eliminar a destruição e a morte. A incapacidade da ONU, para promover a resolução dos conflitos por via diplomática, a falência do multilateralismo com o reforço de nacionalismos expansionistas, a aposta no rearmamento explorando o sentimento de medo geram um sentimento de desilusão e tristeza em quem, como muitos de nós, ao longo da vida acreditou e se empenhou por um mundo mais justo de paz e cooperação. Apesar do célebre documento aprovado pela ONU do Desenvolvimento Sustentável (setembro 2015), a corrida ao armamento colocou-o fora das agendas internacionais.

Os horários, as condições e as remunerações do trabalho que não permitem uma vida digna a muitos trabalhadores e às suas famílias, assim como acesso à habitação, cada vez mais difícil, violentam, estragam a vida a muitos dos nossos concidadãos. São em si mesmas violentas e geram ressentimento, hostilidade e agressão contra aqueles que, muitas vezes apressadamente, consideramos culpados, como têm sido constantemente visados os migrantes. Constatamos quotidianamente sinais de mal-estar e de confrontação que impedem o diálogo, a escuta mútua, a procura de caminhos que promovam o bem-comum e a relação harmoniosa com a criação. A conversão Ecológica Integral, para além da espiritualidade que cada ser humano possui, só terá sentido com a conversão económica, ambiental, social e cultural, como poderemos ler na Laudate Si’ e Laudate Deum.

A guerra é a forma extrema da violência que permeia o nosso quotidiano.

Sermos construtores da paz nesta conjuntura local e universal requer um trabalho interior de reconhecimento dos desejos que dão sentido à nossa vida. Somos tentados pela inércia, pelo sentimento de impotência perante a força do mal, a lógica de domínio e destruição que parece dominar muitos dos que detêm o poder. Escutar, perscrutar os sinais dos tempos, conhecer e sentir, tornar-nos próximos em gestos e palavras, em iniciativas que destruam os muros do medo e do ódio e construam fraternidade, o reconhecimento dos outros, por vezes, bem diferentes de nós, como pessoas a quem podemos desafiar para caminhos de justiça e dignidade. Somos, ainda, tentados a manter a espiral da violência, respondendo na mesmo registo de domínio e aniquilação aos que consideramos agentes do mal. Assumir o conflito de forma não destrutiva, escutando e procurando compreender os anseios dos que se nos opõem e procurando, em diálogo, encontrar caminhos de bem-comum é um desafio permanente e exigente para os construtores da paz. Ainda assim aceitar “que nunca conseguiremos, em definitivo, extirpar o mal nada tem de fatalismo. Apenas implica que o compromisso pessoal e comunitário a favor da paz, da justiça, da fraternidade e da igualdade não tem nem fim nem descanso. E a sua renovação constante encontra ânimo nos gestos concretos de humanidade e na certeza de que somos amados, destinados a um futuro de vida plena, mais do que na alegria dos progressos de percurso.” [ver 7MARGENS, 7MARGENS, 7MARGENS, 7MARGENS]

A promoção da empatia, a mediação de conflitos, o raciocínio ético, a educação para a paz, são propósitos muito ausentes nas nossas escolas e outros espaços de formação e na política nacional. Nos diferentes âmbitos de educação das nossas crianças e jovens predominam valores como o triunfo na vida, o sucesso a todo o custo medido em riqueza material, a popularidade, mesmo que à custa dos outros. Há pouco espaço para o sereno questionamento sobre o espírito que nos anima, o desejo que nos move, para a formação da consciência pessoal a partir do facto de que precisamos uns dos outros, de que só na interdependência sobrevivemos e nos salvamos, encontramos o sentido das nossas vidas. A mensagem que passa, em muitas das nossas comunidades cristãs, reduz a Boa Nova, anunciada e vivida por Jesus, a um conjunto de preceitos morais, que abafam a novidade subversiva das bem-aventuranças. Se a paz não é a mera ausência da guerra, se é uma construção que começa em cada um de nós e um anseio que nos acompanha ao longo da vida, há de ser alimentada, sentida, refletida, intencionalmente educada desde a infância e juventude e sempre cultivada numa autêntica conversão à Ecologia Integral.

 

A reflexão resulta da participação de Paulo Melo, José Torres, José Centeio, Isabel Viseu, António José Paulino, Anita Gonçalves, Luís Lito, Graça Martins, Joaquim Armindo, Maria Artur Barros, Diogo Pereira, Ana Sofia Brito nos três encontros do Círculo de Reflexão/debate sobre Paz e Não-violência, promovido pelo jornal online Sete Margens.

 

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