AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Fachada norte do Santuário da Aparecida, Brasil, com mosaicos da autoria de Rupnik. Foto DR

Centro Aletti alerta

“Cultura do cancelamento” quer destruir obras de Rupnik

| 01/08/2024

Fachada norte do Santuário da Aparecida, Brasil, com mosaicos da autoria de Rupnik. Foto DR

Fachada norte do Santuário da Aparecida, no Brasil, decorada com mosaicos da autoria de Rupnik e inaugurada em março de 2022. A fachada sul foi inaugurada já este ano. Foto: Direitos reservados

O Centro Aletti, fundado pelo padre e artista Marko Rupnik, considera que os movimentos e as posições que defendem a retirada ou apagamento das obras em mais de duas centenas de templos em todo o mundo decorrem da difusão da assim chamada “cancel culture” (cultura de cancelamento) e de “um pensamento que legitima a ‘criminalização’ da arte”.

Numa “carta aos amigos do Centro Aletti”, datada de 24 de julho último e traduzida em mais de uma dúzia de línguas, a diretora da instituição, Maria Campatelli, e a sua equipa, sediada em Roma, começa por referir os “20 meses de prova” que estão a viver, referindo-se à eclosão das denúncias de abusos do padre Rupnik nos meios de comunicação, em dezembro de 2022, e agradece os apoios recebidos ao longo deste tempo. “E é justamente graças a essa vossa amizade que conseguimos dar a outra face e superar o desassossego, quando até a arte se torna objeto de ataque e de vontade de destruição”, refere a carta.

Recorde-se que Rupnik, entretanto expulso da Companhia de Jesus por “desobediência”, e acusado de abusos sexuais, psicológicos e espirituais sobre algumas dezenas de mulheres, em diferentes momentos e contextos, nunca se pronunciou sobre as acusações e continua a integrar a equipa do Centro Aletti.

Depois de vários desenvolvimentos anómalos do seu caso, que levaram a criar a ideia de que beneficiava de cobertura ao mais alto nível na Cúria Romana, o Papa Francisco acabou por ordenar a reabertura da investigação sobre as acusações de que é alvo, em finais de outubro de 2023, correndo o processo no Dicastério para a Doutrina da Fé.

Sobre o caso, a Carta do Centro Aletti agora conhecida refere que aguarda o resultado da “avaliação da consistência e veracidade” das acusações dirigidas a Rupnik, afirmando que ele “sempre negou firmemente, nas devidas instâncias, ter cometido os abusos denunciados por quem o acusa” (mas não referindo que nos dois processos em que ele já foi julgado na então Congregação para a Doutrina da Fé foi-lhe imposta, num caso, a excomunhão latae sententiae, logo de seguida anulada, e, noutro caso, o processo não avançou não por os factos denunciados serem falsos, mas por terem, entretanto, prescrito).

 

“Não é com a injustiça que se pode buscar a justiça”

Rupnik durante visita às obras no Santuario dedicado a João Paulo II, Polonia. Foto Pawel Kummer

Rupnik durante uma visita às obras no Santuário dedicado ao Papa João Paulo II, em Cracóvia, em abril de 2016. Cada projeto da sua autoria envolve também a criatividade de dezenas de artistas e teólogos, lembra o Centro Aletti. Foto © Pawel Kummer

Indo à questão das obras de arte, a equipa do Centro Aletti sublinha que “uma das mais elementares normas jurídicas é a presunção da inocência”. Esquecendo-se disso, acrescenta, “chega-se ao paradoxo de exigir uma condenação, sem recurso, antes do julgamento, e exigir o sacrifício de um bode expiatório, referindo-se as vítimas num sentido genérico”. No caso concreto do padre Rupnik, o Centro Aletti reconhece que qualquer pessoa que possa ter sofrido “um prejuízo ou uma violência” por parte de qualquer representante da Igreja, encontra-se “legitimada a sentir-se ofendida” pelas obras de arte ali criadas. E remata com um argumento que poderia servir também às vítimas do padre Rupnik e a quem defende a retirada das suas obras: “Não é com a injustiça que se pode buscar a justiça. Aquilo que não é gerado a partir do bem não pode gerar frutos do bem”.

Salienta também que quem encomendou a arte do Centro Aletti verifica que essa arte não apresenta qualquer assinatura individual, mas “tem como único autor a comunhão de oração e de criatividade de dezenas de artistas e teólogos que participam ativamente de cada projeto em particular, em sinergia, desde o início, com a comunidade eclesial que desejou a obra”.

Finalmente, a carta aos amigos do Centro faz um apelo a que não se removam ou ocultem as obras instaladas, observando que “a remoção de uma obra de arte não deveria jamais ser considerada como punição ou cura”, nem tampouco “castigo” público de uma das pessoas envolvidas numa obra comunitária”.

A eventual necessidade de uma “cura pastoral para as pessoas que sofrem” não justifica a sua remoção ou ocultamento, já que isso originaria sofrimentos adicionais quer dos artistas e teólogos envolvidos na produção artística, quer aos “muitíssimos fiéis” que, através dessas obras, “puderam contemplar a Palavra de Deus, frequentemente em momentos difíceis das suas vidas”.

Desconhece-se o que aconteceu ao Centro Aletti depois de se ter desencadeado o escândalo e se as encomendas têm continuado a chegar. Sabe-se apenas que, depois de inaugurada a fachada principal em março de 2022, prosseguiram trabalhos de instalação de mosaicos na fachada sul do Santuário da Senhora Aparecida, no Brasil, os quais foram inaugurados discretamente em maio deste ano.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This