Há poucos dias, precisamente a 4 de março, a Assembleia Geral das Nações Unidas instituiu 12 de julho como o Dia Internacional da Esperança, reconhecendo a própria ONU como produto da ESPERANÇA, hoje e aquando da redação da sua Carta. A deliberação foi tomada com 161 votos a favor, quatro abstenções (Índia, Paraguai, Peru e Turquia) e apenas um contra (o dos Estados Unidos da América). O resultado fala por si e pela estupefação que nos provoca: então a ESPERANÇA não nos une a todos? Sem exagero algum, é verdadeiramente aterrador pensarmos nos milhões de pessoas que sufragaram o poder político que se abstém ou vota contra tal proposta, sobretudo porque todos os seus governantes resultaram de eleições livres. Percebemos, então, que o nosso silêncio não é opção perante a desumanidade.
Aliás, nem sei se algo melhor nos definirá enquanto seres humanos para lá da ESPERANÇA. É nela que se concretiza a nossa sobrevivência na relação com o outro. Sem ESPERANÇA, como vivemos no amor? Sem ESPERANÇA, como damos sentido ao sofrimento? A ESPERANÇA anima a nossa vida e alimenta o discernimento que dela fazemos. Em especial, para um cristão, a ESPERANÇA é sinónimo de Cristo ressuscitado, razão da nossa alegria. E razão também da nossa incontornável vergonha, pois por mãos humanas, por decisão humana, foi executado e de um modo especialmente concebido para destruir a ESPERANÇA na mente e no coração de todos os que a tal execução assistiram ou dela tiveram notícia.
A este propósito, lembra o Papa Francisco, em Spes non confundit (nº. 3), que o Espírito Santo nos dá acesso à ESPERANÇA, com ela permanentemente alimentando os quotidianos discernimentos em que nos vemos envolvidos, se a eles não nos furtarmos. Ora, se estes têm uma escala pessoal, a comunitária não é menos indispensável. Consequentemente, traduzem-se em ação política, ao dizerem respeito à cidade e ao mundo. E é a ESPERANÇA a iluminar a necessidade de uma ecologia integral (Laudato Si’, nº. 137 e ss.), de trabalho, casa e comida dignos para todos (Fratelli Tutti, nº. 127), banindo uma economia que mata (Evangelli Gaudium, nº. 53).
Por estas e muitas outras razões, sabemos que Francisco é exemplo e inspiração para católicos, cristãos em geral e homens e mulheres de boa vontade, quem quer que sejam, onde quer que estejam, sejam ou não crentes de uma religião. Francisco é profundamente humano, por nos mostrar que a fraternidade se faz de pequenos atos, aparentemente irrelevantes, orientados para o respeito pela dignidade humana. Tem uma frescura messiânica que acontece não apenas com palavras, mas tem carne dentro. Já que não nasci dois mil anos mais cedo, sinto-me privilegiada por ser sua contemporânea. Sei que nem todos assim pensam, mas não me revejo em argumentos que assentam no exercício do poder temporal, na rigidez, na vaidade pessoal, no saudosismo por um in illo tempore anterior ao II Concílio do Vaticano.
Nestas últimas semanas em que a sua frágil saúde faz sofrer os nossos corações, a Conferência Episcopal Portuguesa publicou uma nota oficial intitulada Em oração pelo Santo Padre, a 19 de fevereiro. Esta foi divulgada por mais do que um órgão de comunicação social, nomeadamente por aquele que é propriedade da CEP. Nela os católicos portugueses são convidados “à intensificação da oração particular e comunitária” e, para tanto, é sugerida mesmo uma “prece para oração pessoal e comunitária”, a qual não esquece a importância da ESPERANÇA:
“Pelo Papa Francisco, sucessor de Pedro,
para que o mistério da cruz o fortaleça,
o alivie, o reanime e lhe dê esperança.
Oremos”.

Os bispos portugueses propuseram uma “oração pelo Santo Padre”. As manifestações de solidariedade para com o Papa em frente ao Hospital Gemelli, de Roma. Foto © Vatican Media
Espanta-me, por isso, que em duas das três missas dominicais em que participei desde esse dia não tenha escutado a prece sugerida pela CEP ou outra com igual intenção. E dizer “espanta-me” é pouco rigoroso. Não consigo pôr numa palavra o que experimento: estupefação, indignação, tristeza, inquietação, desespero. Faz sentido que um fiel leigo se sinta ameaçado na esperança que o anima numa missa dominical? Por onde anda o Espírito Santo? Como caminhamos conscientes de que o procuramos a cada dia? Porque resistimos à certeza de que a ressurreição de Cristo é sinal de que o mal já foi derrotado (Jo 16, 33)?
Maria do Sameiro Pedro é professora adjunta de Língua e Literatura Portuguesas no Politécnico de Beja. Integrou a Comissão de Acompanhamento do Programa do Ensino do Português no 1º Ciclo e faz parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura 2027. Foi catequista de adultos (2019-2024) e é colaboradora do 7MARGENS.
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