[domingo xxxii do tempo comum ― c ― 2025
Dedicação da basílica de Latrão / Último dia da semana de oração pelos seminários]
1. Nos últimos dias do passado mês de julho,
usufruí de uma visão rara, deveras surpreendente, em Roma.
Não foi o Anjo que me reconduziu, como a Ezequiel,
mas um grande artista brasileiro, Sidival Fila, padre franciscano,
que vive num convento plantado no coração do Palatino junto ao Coliseu.
Sidival Fila é um reconhecido artista ― autêntico, de verdade o digo ―,
com obras de arte que qualificam vários lugares especiais.
Desde o seu atelier e da sala superior avistei a basílica de Latrão.
Ela surge no horizonte, não com o seu aspeto pesado-travertino,
mas sobrevoando os pinheiros mansos e os cedros da cidade.
Surge como que uma basílica enviada, em movimento,
com Jesus e os apóstolos dirigindo-se ao grande largo e ao mundo.

[Basílica de Latrão sobre os pinheiros mansos e os cedros. © Fotografia: Joaquim Félix]
2. Revendo a história desta basílica maior,
há um detalhe que nos poderá surpreender:
a sua sucessiva reconstrução ao longo dos séculos.
De início, foi mandada edificar pelo imperador Constantino,
sobre o Monte Célio, no lugar do antigo palácio de Latrão.
O Papa Silvestre I dedicou-a, em 318 ou 324, ao Santíssimo Salvador.
E, junto dela, foi contruída a capela de S. João Batista,
que servia de batistério, o qual ainda subsiste,
na sua planta octogonal e com as suas colunas em pórfido.
Posteriormente a basílica foi dedicada, também,
a S. João Batista e a S. João Evangelista;
daí, a atual denominação: Basílica do Santíssimo Salvador
e dos Santos João Batista e João Evangelista de Latrão.
Considerada a igreja-mãe de todas as igrejas da Urbe e do Orbe,
simboliza a união de todas as Igrejas em torno do sucessor de S. Pedro.

[Batistério de S. João de Latrão com colunas em pórfido: perspetiva interior. © Fotografia: Joaquim Félix]
3. As diversas reedificações da basílica de Latrão
podem fazer-nos pensar nas reconstruções do templo de Jerusalém.
Tendo subido a Jerusalém para a celebração da Páscoa
e vendo a «casa de oração para todos os povos» (Is 5,7)
transformada em «casa de comércio» (Jo 2,16),
Jesus aponta a uma nova reconstrução do templo:
«Destruí este templo e em três dias o levantarei» (Jo 2,19).
Para nós, caso fosse destruída uma vez mais a basílica de Latrão
― o que representaria um dano patrimonial significativo,
mais do que a Torre dei Conti, caída há dias em Roma ―
não deixaríamos de ter por certo que o nosso templo,
único e definitivo, conservar-se-ia de pé, sem brechas nem ruínas.
Cristo é o nosso templo, um corpo levantado em três dias.
4. Esse templo, que jamais será derrubado, é Cristo em nós.
Disso nos recorda S. Paulo, na primeira epístola aos Coríntios:
«Vós sois edifício de Deus» (1Cor 3,9).
E ainda, de forma mais contundente, com uma pergunta espiritual:
«Não sabeis que sois templo de Deus
e que o Espírito de Deus habita em vós?» (1Cor 3,16).
Aqui reunidos, em assembleia litúrgica, a celebrar a Páscoa semanal,
somos uma das presenças sacramentais de Cristo ressuscitado (cf. SC 7).
Somos o seu corpo místico, na integridade dos seus membros e órgãos.
É por isso que, segundo uma outra imagem,
cantamos como «pedras vivas» (1Ped 2,5),
formando o templo espiritual de Deus,
assente sobre «os alicerces dos apóstolos e dos profetas»
cuja «pedra angular» é o próprio Cristo (Ef 2,20).

[Mão de um apóstolo na Basílica de Latrão. © Fotografia: Joaquim Félix] © Fotografia: Joaquim Félix]
5. O profeta Ezequiel narrou-nos uma visão cheia de vigor.
A água que saía do templo corria para o deserto de Arabá.
Trata-se de um vale extremamente árido que, de forma natural,
delimita a fronteira entre Israel e a Jordânia.
E que, em 1994, deu o nome ao tratado de paz entre estes dois países.
Com a água que sai em torrente do templo,
a aridez do deserto dá lugar a árvores de doze colheitas,
com frutos gostosos e folhas medicinais,
transformando as águas saturadas de sal em águas sãs.

[Obra de arte têxtil de Sidival Fila no seu atelier (detalhe). © Fotografia: Joaquim Félix]
6. Hoje, celebrando a ressurreição de Jesus,
somos convidados a sair, como uma corrente de água viva,
para oferecer novo alento e salubridade ao vale inóspito da vida,
até ao grande mar que o mundo é.
Para continuar a celebrar o mistério pascal na eucaristia,
carecemos, entre outros ministérios, de um corpo de presbíteros.
Eis porque viemos até vós para rezar por novas vocações
e suscitar o discernimento através de encontros interparoquiais.
As comunidades têm direito à celebração da eucaristia.
Para que surjam mais pessoas para o ministério ordenado,
seria urgente que se fizesse uma digna iniciação cristã,
onde o discernimento vocacional surgisse de forma natural.
Caso ele não se faça, em atenção a todas as possibilidades vocacionais,
em vez de sermos uma torrente a levar a vida desde o templo,
pode acontecer de ser o deserto a avançar pelas igrejas dentro.
Os bancos vazios ― que aqui como noutras igrejas vemos ―
não serão um sinal de que o deserto avança sem pedir licença?

[Obra de arte têxtil de Sidival Fila no seu atelier (detalhe). © Fotografia: Joaquim Félix]
7. Estou persuadido de que, sobretudo nas Igrejas da Europa,
estaremos a precisar de ações e palavras enérgicas,
para restituir a dignidade pascal ao corpo eclesial,
desde as comunidades paroquiais ou equivalentes.
Não sei se vos surpreendeu o comportamento de Jesus,
no zelo de purificação do templo, a casa do seu e nosso Pai.
De facto, os átrios do templo tinham-se tornado uma feira do gado,
com a desculpa de que esse comércio
se destinava a apoiar o culto sacrificial.
Sem leituras instrumentais desta passagem bíblica,
a atitude de Jesus sugere que, no que toca à pastoral vocacional
para o serviço de direção das comunidades,
estaremos a precisar de decisões que exigem mais coragem
e de renovar determinados aspetos da disciplina canónica.
O atual modelo da Igreja, sustentado numa cultura clerical,
parece esgotado em Portugal e noutros países europeus.
Não poderíamos, como no tempo de Jesus e dos apóstolos,
embora com as devidas adaptações às circunstâncias atuais,
recorrer a pessoas com competências espirituais e humanas
atestadas também pelo discernimento das comunidades?

[Peregrinas passando pelos repuxos de água fora da Basílica de Latrão. © Fotografia: Joaquim Félix]
8. As urgentes mudanças para nos tornarmos torrente de alento
não se atingem com a instalação de repuxos de água nos adros.
Lembrado do Festival Literário Utopia, quase a começar,
dei comigo a pensar que a situação atual da Igreja na Europa
parece caricaturada no poema
«À espera dos bárbaros», de Konstantinos Kaváfis.
Nos primeiros versos podemos ler:
«O que esperamos nós em multidão no Fórum?
Os Bárbaros, que chegam hoje.
Dentro do Senado, porquê tanta inação?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.»
A partir destes versos, quase poderíamos perguntar:
O que esperamos nós na Igreja?
Estaremos à espera que cheguem os bárbaros
para tomar medidas enérgicas?
9. Voltemos ao poema, para ler o seu corpo central:
«Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.»

[Mão de um apóstolo na Basílica de Latrão. © Fotografia: Joaquim Félix]
10. Por certo estaremos a ver coisas parecidas na Igreja.
Jamais me atreveria a subestimar a vossa capacidade de aplicação.
Porém, não posso deixar de fornecer a última parte do poema:
«Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.
E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.»
Agora, com sinceridade, perguntemo-nos:
Porque as igrejas estão a esvaziar-se tão depressa?
E porque, recorrentemente, em vez de permanecermos alegres,
voltamos da igreja a casa tão apreensivos?
Estaremos nós também à espera dos bárbaros para legislar
e, assim, sairmos da inércia com ações enérgicas?

[Apóstolo com livro na Basílica de Latrão. © Fotografia: Joaquim Félix]
11. Na basílica de Latrão existe uma escultura
de Nossa Senhora, Mãe da Igreja, do século XIV,
que foi adquirida pelo Papa Paulo VI,
e, há poucos anos, oferecida pelo Papa Francisco.
Dos muitos e belos detalhes que ela possui,
chama-me sempre a atenção a mão com que Maria segura Jesus.
Além disso, também as mãos dos apóstolos
― esculturas, de grande escala, ao longo da nave central ―,
sugerem-me que nos devemos dar as mãos,
para rezar, sim, mas também para sermos os braços do rio
que alegram a cidade de Deus,
«a morada santa do Altíssimo» (Sl 45,5).

[Escultura de Nossa Senhora, Mãe da Igreja, colocada na Basílica de Latrão. © Fotografia: Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 9 de novembro, [domingo xxxii do tempo comum ― c ― 2025 Dedicação da basílica de Latrão / Último dia da semana de oração pelos seminários], proferida pelo padre Joaquim Félix em Fonte Arcada (com fiéis das paróquias de Oliveira, Frades e Rendufinho, que formam a mesma unidade pastoral) e em Travassos (com fiéis das paróquias de Brunhais, Esperança e Castelões, que formam a mesma unidade pastoral), no arciprestado da Póvoa de Lanhoso.











