Está visto que o novo Papa tomou a paz como eixo do seu pontificado. Já está e certamente continuará a ser uma voz profética, num mundo mais sintonizado com a corrida às armas e as palavras armadas e armantes. Quem está disponível para o escutar?
1.
“A paz esteja com todos vós”. Foi esta a primeira saudação do Papa Leão XIV, quando surgiu à varanda na Basílica de S. Pedro, depois do anúncio do “gaudium magnum”. Foi a paz a primeira palavra que pronunciou. E pela insistência com que a repetiu, naquela circunstância e em várias outras depois, ela será o referente de um dos eixos mais salientes deste pontificado.
Desde o primeiro momento, o Papa começou a enunciar o alcance programático da paz: “a guerra nunca é inevitável, as armas podem e devem ser silenciadas, porque elas não resolvem os problemas, antes agravam-nos”; a paz do Ressuscitado é “uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante”, procurada por uma Igreja sinodal que caminha e que “constrói pontes, que constrói o diálogo, sempre aberta para acolher a todos”; “os povos querem paz… a dignidade da paz” e a Santa Sé disponibiliza-se para promover a possibilidade de que “os inimigos se encontrem e se olhem aos olhos”.
Mais recentemente, Leão XIV foi mais longe, no encontro jubilar das Igrejas orientais e desafiou os responsáveis políticos dos países, dizendo-lhes: “encontremo-nos, dialoguemos, negociemos”.
Pode presumir-se haver concordância quanto à necessidade e até urgência deste apelo. Bastariam os focos de conflito com extremos de destruição e desumanidade, em várias partes do mundo, que parecem não ter fim, para acolher tal manifestação de vontade. Porém, isso não basta para que o apelo obtenha resultados. É ainda necessário que quem o faz – neste caso, o Papa e a Igreja que ele lidera – seja considerado merecedor de confiança e, por outro lado, que haja quem o escute.

No encontro jubilar das Igrejas orientais, Leão XIV voltou a falar de paz e desafiou os responsáveis políticos dos países, dizendo-lhes: “encontremo-nos, dialoguemos, negociemos”. Foto © Vatican Media
2.
Quanto à confiança, seria de esperar que organizações internacionais vocacionadas para a promoção da paz e o desenvolvimento, a começar pela Organização das Nações Unidas, estivessem no terreno com iniciativas e propostas razoáveis de bases de conversação e entendimento entre as partes em litígio. Todos sabemos que os populismos e nacionalismos de várias proveniências têm minado, em tempos recentes, a capacidade e margens de manobra dessas instituições. A isso soma-se um Conselho de Segurança da ONU quase completamente armadilhado pelo direito de veto que assiste a alguns membros que são partes em vários dos conflitos. É, por isso, de olhar para manifestação de vontade de intermediação apresentado pelo novo Papa, como um gesto com interesse e algum potencial, até porque a Igreja tem não apenas experiência diplomática reconhecida, mas também instituições com provas dadas nesta matéria.
Mas haverá quem escute a vontade de Leão XIV e a sua chamada ao encontro, diálogo e negociação? Talvez seja cedo para tirar conclusões. Mas não se pode deixar de reconhecer que o “ar do tempo” vai exatamente em sentido contrário. A paz perde claramente terreno face à guerra. Nos fóruns internacionais e nos média, é mais a guerra ou a preparação para ela, as armas ou a corrida aos armamentos que prevalece, silenciando os discursos e as agendas da paz.
O argumento da guerra, tematizada como ameaça provável e próxima, serve para criar o clima de obviedade e de interesse coletivo, sem que o assunto seja objeto do debate que seria suposto existir, quer nos parlamentos quer noutros fóruns da sociedade civil. Segue-se o imperativo económico: a preparação para os cenários de guerra requer avultados investimentos que, face a recursos que não são elásticos, terão de ser retirados de outros setores essenciais à vida social.
Esta tendência está documentada, nomeadamente nos dados publicados pelo Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). O caso da Europa é a este respeito significativo, já que, com a reorientação estratégica da administração Trump, recebeu um argumento suplementar para criar o seu próprio dispositivo de defesa. O nome do plano não podia ser mais eloquente, para um espaço económico-político que se constituiu para fazer a paz e não para fazer a guerra: “Rearmar a Europa” (a clareza era tão excessiva que foi rapidamente rebatizado “Prontidão 2030”, exemplo perfeito de eufemismo).
Com o ruído deste “rufar de tambores”, só pode exacerbar-se o ambiente de polarização e crispação que perpassa a vida política, as televisões e as redes sociais.
3.
Temos, assim, que enquanto uma boa parte dos Estados e das potências mundiais apontam para o armamento ou, na melhor das hipóteses, para uma paz armada, o Papa apela precisamente no sentido contrário: não apenas para uma paz desarmada, mas também desarmante, ou seja, ativamente apostada no desarmamento.
E é muito importante que, precisamente porque o ruído ambiente se desenvolve em torno da guerra, haja vozes autorizadas que façam ressoar a música da paz. Bom é que essa voz pontifícia – isto é, construtora de pontes e passadiços – não fique isolada e seja replicada e amplificada, de muitos modos, em todos os lugares da Terra, de modo a que o clamor da paz se sobreponha ao estrondo dos mísseis.
Não se trata, no entanto, de um apelo que possa ser confinado aos governantes ou às autoridades políticas ou mesmo às lideranças das religiões. Tal como o cuidado da Casa Comum, a causa da paz é um caminho e um horizonte que não pode nem deve deixar ninguém de fora. De resto, a relação entre as duas causas está bem à vista: com as atenções e os orçamentos virados para a lógica da defesa-ataque, as metas do combate às alterações climáticas ficaram a marcar passo ou mesmo a regredir.
No seu encontro com os milhares de jornalistas que estiveram a cobrir os atos fúnebres do Papa Francisco e a eleição do novo Papa, Leão XIV apontou nesse sentido, recorrendo à mensagem que Francisco publicou em devido tempo para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais. “Desarmemos a comunicação de todos os preconceitos, rancores, fanatismos e ódios; limpemo-la da agressividade. Não precisamos de uma comunicação beligerante e musculosa, mas sim de uma comunicação capaz de escutar, de acolher a voz dos fracos que não têm voz”, convidou ele.
Ao incluir-se ele próprio nesse desafio, o Papa estava a dizer que o problema de desarmar a comunicação não é apenas dos jornalistas e de outros comunicadores, mas de todas as pessoas de boa vontade, sejam crentes ou não. Todos podem, nos seus respetivos campos e setores de atividade, a começar no interior de cada um, no seu círculo familiar, de amigos e colegas, de grupos e instituições, cuidar da comunicação consigo mesmo, com os outros, com Deus e com a natureza.
Para a aprendizagem do caminhar nessa direção, ficam ainda as palavras de Leão XIV: “Desarmemos as palavras e ajudaremos a desarmar a Terra. Uma comunicação desarmada e desarmante permite-nos partilhar uma visão diferente do mundo e agir de forma coerente com a nossa dignidade humana”.
É que, como explicou o Papa Francisco a partir do Hospital, numa carta ao diretor do Corriere della Sera, em 14 de março último, as palavras “nunca são apenas palavras: são factos que constroem ambientes humanos. Elas podem ligar ou dividir, servir a verdade ou servir-se dela”.










