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árvore, água, reflexo
[nos espelhos da Balsa / vejo taça a taça?  eu? ─ / oh peixes luzidios! ─ © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Desce, lenta seral

| 23/02/2026

[Lausperene quaresmal – sábado depois das cinzas – 2026
Vésperas solenes do Santíssimo Sacramento]

 

1. Depois das passagens do comboio das tempestades,
que varreu a alta velocidade o centro do país
e nos deixou mergulhados em lutos, escombros e rebentamentos,
parece que os nossos olhos melhor se iluminam no sol
que nos visita e reanima na última janela de fevereiro.
À semelhança de Santo Agostinho,
na drenagem do íntimo através das Confissões,
não tenhamos receio de declarar que já tínhamos sede
do sol que parecia tardo ou esquecido em visitar-nos.

2. O sol que, nesta hora vespertina, se põe a abraçar o mar
assinala-nos uma outra Luz, a «Luz da Luz»,
a enxugar o nosso coração resgatado das águas impetuosas,
que, como se canta no Cântico dos Cânticos,
«não podem afogar o amor» (Ct 8,7).
Contemplando a cascata de luz que do alto se derrama,
nesta hora em que o sol de prata dourada rebrilha
– desde o seu coração de trigo sombreado pela bênção do Espírito
e fermentado na vontade de Cristo com a água tépida da sua palavra –,
descobrimos que em nós a prece se faz adoração.

[«Aguas impetuosas… não podem afogar o amor» (Ct 8,7). Fotografia © Joaquim Félix]

3. Possa a fé criar em nós este sentido do paradoxo.
Subamos mais alto, até aos esplendores do Sol na custódia,
para que a nossa prece seja um sacrifício de louvores infindos.
Sim, um sacrifício de salmos carmins, húmidos nos lábios,
através dos quais celebramos a relação com Deus, em Jesus,
tangida com o santo Sopro.
Sopro que não nos quebra ou desenraíza como às árvores,
nem nos destelha como às casas e aos pavilhões,
mas nos faz levantar os olhos como papagaios de papel
conduzidos por crianças a correr contra os ventos.

[Por crianças a correr contra os ventos. Fotografia © Joaquim Félix]

4. Felizmente estamos a cantar cânticos inspirados
que nos transportam para junto do amor incarnado
cujo resplendor invade lentamente o nosso olhar
– carente de tempo e de demoras –
para se habituar à intensidade da sua presença.
Ainda assim, se me permitis, poderíamos entoar esta súplica,
que Rainer Maria Rilke ditou numa hora como esta,
tarda ou temporã, nem sei, mas propícia para fazer-se nossa:
«Desce, lenta seral,
que fluis de longes festivos em prece.
Recebo-te, sou a taça afinal
que te acolhe e retém e nada esquece.
Sossega e fica clara em mim,
ampla, suave, diluída hora, sim.
O que está formado no meu fundo
deixa ver. Não sei o que foi desse mundo»
(Exposto sobre as montanhas do coração, 176).

[Nos faz levantar os olhos como papagaios de papel. Fotografia © Joaquim Félix]                               

5. Que proximidade será esta?
Nesta hora lenta, seral, que flui de longes festivos,
ouvimos a Palavra da qual vivemos silenciando-nos:
«Vós não vos aproximastes de uma realidade sensível
como os israelitas no monte Sinai» (Hebr 12,18).
Deus que, conforme disse a Salomão,
habita «a nuvem escura» (1 Reis 8,12),
quis que, dela, a nuvem densa, caia sobre nós
uma outra chuva que nos ilumina.
E mais: deseja que a nossa vida se torne espelho
das realidades do alto, numa proximidade
que só pela fé as passamos a vislumbrar.
Sim, como aquela chuva de ouro que nos fecunda
para uma vida de relação amante com Jesus,
«mediador da nova aliança» (Hebr 12,24).
Que nos fecunda mais do que a chuva de ouro, repito,
que Correggio pintou na famosa tela da princesa Dánae,
que se encontra na Galleria Borghese, em Roma.

 

6. Por estes dias, contemplei uma paisagem-parabólica
que nos pode ajudar a viver esta hora
como a taça que a Cristo «acolhe e retém e nada esquece».
Caminhava no interior de uma floresta ripícola,
com as águas do rio formando lagoas fora do seu leito,
e eis que, junto de uma delas, passei a ver em espelho,
numa profundidade que me devolvia as alturas,
as árvores com as suas heras verdes cobrindo a sua nudez.
O vento, suave como uma brisa após as tempestades,
fazia tremeluzir a superfície das águas
como se fossem escamas de peixes luzidios e voadores.
Que bela paisagem, confesso-vos no fascínio que criou!

[No interior de uma floresta ripícola. Fotografia © Joaquim Félix]

7. De início, fez-me até lembrar a história de João Sem Medo,
que vivia na aldeia Chora-Que-Logo-Bebes,
cujos habitantes vivem presos à tradição de que tanto se orgulham:
chorar de manhã até à noite.
É uma história criada pelo escritor José Gomes Ferreira.
Pois bem, segundo essa história,
um dia, João Sem Medo decidiu saltar o alto muro
que protegia a aldeia da floresta branca;
floresta que era uma espécie de reserva de entes fantásticos.
Adentrando-se nessa floresta,
João Sem Medo encontrou um letreiro, no qual se podia ler:
«É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir».
Porque não desejo diminuir a vossa curiosidade,
proponho que vejais nem que seja uma parte desta história,
que, segundo a última frase da sua sinopse, é:
«Uma obra intemporal que continua a arrebatar
tanto adolescentes como adultos».

 

8. Depois, pensei, em função desta hora.
O reflexo daquela floresta a dançar no fundo da pequena lagoa
é uma autêntica parábola do que aqui sucede:
se as altas árvores desciam ao coração das águas translúcidas,
no espelho daquele baloiço lacustre,
porque não pensar que tudo o que do alto do camarim eucarístico desce
acaba por espelhar-se no fundo do nosso coração,
na nossa vida de adoração e de escuta em silêncio?
Que vislumbraremos, então, nesta hora
na qual nos sentimos como uma taça
que acolhe e retém e nada esquece?
Veremos Jesus em nós? A Jerusalém celeste?
Muitos milhares de Anjos em reunião festiva?
A assembleia dos primogénitos inscritos no céu,
à qual nos juntamos a cantar cânticos d’aqui?

[Tudo o que do alto do camarim eucarístico desce. Fotografia © Joaquim Félix]

9. Disponhamo-nos a saltar o alto muro dos medos
que nos separa desta floresta de talha dourada,
na qual, para avançarmos ao encontro dos Seres fantásticos,
precisamos de andar espantados de existir.
Admiro muito as flores desta floresta dourada
a perfumar o resplendor de tantos círios tremeluzentes,
cujo coração branco se acende no alto.
Se as rosas amarelas se abrem em silêncio,
no ouro branco e amarelo-solar das suas pétalas,
e as tulipas crescem nas suas delicadas campânulas,
como não haveremos nós de ser uma taça
que acolhe e retém e nada esquece?
Sim, que acolhe Jesus, o retém no coração da vida
e d’Ele nada esquece.

10. Aquela criança ― ou será um anjo áptero? ―
sentada numa das espiraladas colunas salomónicas,
que, para a sua sacola, colhe uvas da vinha,
seja para nós um outro espelho de quem recolhe
o fruto desta hora, mais doce do que as uvas Pérola de Csaba.

[Aquela criança ― ou será um anjo áptero? Fotografia © Joaquim Félix]

11. Que a vossa luz, Senhor, no espelho das chuvas,
nos ajude a incorporar as dores e as tristezas dos irmãos.
Na premência desta hora, entrançada à hera verde,
brilhe a nossa caridade em gestos de ajuda derramados
nas feridas abertas pelo comboio das tempestades.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de sábado, 21 de fevereiro [Lausperene quaresmal de sábado depois das cinzas, de 2026, na celebração das Vésperas solenes do Santíssimo Sacramento], proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga. 

 

 

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