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[da ferida aberta ―/ no comboio dos porquês / vêm bem-aventuranças? © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Do comboio das bem-aventuranças

| 02/02/2026

[domingo iv do tempo comum ― a ― 2026
Dia da Universidade Católica Portuguesa]

1. Por estes dias, parece que precisamos de soltar uma pomba,
a fim de nos trazer um ramo de oliveira no bico (cf. Gen 8,8-11),
dando-nos conta do fim da passagem do comboio das tempestades
e do regresso da paz a tantos lugares mergulhados na violência.
Estarrecidos com a destruição causada pela depressão Kristin,
sentimos a urgência de acionar a nossa «sincera caridade» (Coleta)
para com as populações gravemente atingidas.
Efetivamente, o grau de destruição é tão severo
que as paisagens se assemelham a cenários de guerra,
com mortes, escombros e danos por toda a parte.

2. Creio que ficámos sensibilizados com a onda de solidariedade,
que ontem se fez sentir em muitos dos lugares afetados,
com numerosos voluntários, inclusive crianças e idosos,
a procederem à limpeza dos destroços nas ruas
e a darem apoio nos armazéns na distribuição de bens essenciais.
Tocados por todos os gestos de magnanimidade,
procuremos também nós fazer chegar a nossa ajuda,
através das linhas disponibilizadas por tantas instituições,
através da Caritas e das Conferências Vicentinas, por exemplo,
ou das linhas entretanto criadas pelas autarquias.
Além dos mecanismos acionados pelo Estado Português
e pelas empresas envolvidas na reposição da normalidade,
também nós somos chamados a ser generosos
neste momento de provação para tantas pessoas lesadas.
Ajudemos como gostaríamos de ser ajudados.
E tenhamos presente nesta eucaristia as vítimas mortais,
os seus familiares e as comunidades em luto.

Joaquim Félix

[Ajudemos como gostaríamos de ser ajudados. © Fotografia: Joaquim Félix]

3. Não obstante a História testemunhe tempestades e cataclismos,
os observatórios que monitorizam este tipo de ocorrências
têm lançado alertas sobre as mudanças climáticas
potenciadoras de fenómenos extremos, cada vez mais frequentes.
Ainda há dias, estávamos a ver as inundações em Moçambique
e a apelar à ajuda internacional,
ou a lamentar os deslizamentos de terras em Niscemi, na Sicília,
com o desabamento de casas na falésia.
Numa reportagem, um homem dizia: «É uma ferida aberta!»
E uma mulher perguntava: «Porquê? Porquê? Não é justo!».

Joaquim Félix

[Alertas sobre as mudanças climáticas. © Fotografia: Joaquim Félix]

4. Mais alto que estas pungentes perguntas,
eleva-se o «grito da Terra»,
em sintonia com o diagnóstico da encíclica Laudato si’:
«Esta irmã (Terra) clama contra o mal que lhe provocamos
por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou.
Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores,
autorizados a saqueá-la.
A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado,
vislumbra-se nos sintomas de doença
que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos.
Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados,
conta-se a nossa terra oprimida e devastada,
que “geme e sofre as dores do parto” (Rm 8, 22)» (LS 2).

Joaquim Félix

[Grito da Terra. © Fotografia: Joaquim Félix]

5. Em sintonia com esta preocupação,
revi uma conversa, que proponho para a nossa meditação
― à luz da Palavra de Deus ―,
sobre o que está a acontecer e como poderemos evitá-lo.
Trata-se do diálogo de Luís Osório com Viriato Soromenho Marques,
«o ambientalista dos ambientalistas»,
no programa «Vencidos», da Antena 1.
Luís Osório pergunta-lhe se ainda será possível travar o relógio,
que nos assinala o final do caminho ao qual estaremos a chegar.
Desdobrando várias questões, Soromenho Marques
chama a atenção para a singularidade do nosso tempo,
que, por um lado, tantas promessas e poderes gerou,
mas, por outro, nos colocou próximos de um colapso.

6. Não sendo possível fazer aqui a síntese da longa conversa,
passo à Palavra de Deus, para iluminar a pergunta de fundo:
Como havemos de evitar o desmoronamento?
Jesus aponta um caminho, aberto através das bem-aventuranças.
Vendo as multidões desgovernadas (Mt 5,1), compadece-se delas.
E, subindo à montanha, assume-se como o novo Moisés,
oferecendo-lhes a Lei nova, melhor do que a depositada no Pentateuco.
São Mateus alinha-a em cinco discursos (cf. Mt 5-7;10;13;18;24-25).
As bem-aventuranças são um desses discursos,
que correspondem ao novo código ético que Jesus ensina
para formar a comunidade cristã não apenas com judeus,
mas com pessoas de todos os povos, sem discriminar os migrantes.

Joaquim Félix

[As bem-aventuranças. © Fotografia: Joaquim Félix]

7. Mais dilatada que na versão de S. Lucas (cf. Lc 6,20-26),
esta formulação das bem-aventuranças apresenta-se
como um comboio de possibilidades para atingir a felicidade,
não obstante as circunstâncias mais improváveis e adversas.
Jesus não é como aquele presidente que,
gloriando-se de ter evitado mais de oito guerras,
se descompromete com a promoção da paz.
Assim ele o disse, por carta, à primeira ministra da Noruega:
«Considerando que o seu país decidiu não me conceder
o Prémio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras,
não me sinto mais na obrigação de pensar apenas em paz» (Donald Trump).
E, todavia, Jesus não desiste de a promover e de louvar os pacíficos:
«Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9).

Joaquim Félix

[Bem-aventurados os que promovem a paz. © Fotografia: Joaquim Félix]

8. Atualmente abundam os sistemas que usam da violência
para impor a lei da força e a perseguição,
como tem sucedido, por exemplo, no regime teocrático do Irão,
onde terão morrido cerca de 30 mil pessoas nos recentes protestos.
Também nos Estados Unidos da América dois ativistas,
por amor à justiça, foram violentamente assassinados pelo ICE.
Refiro-me a Renée Good, poeta e ativista cristã, e a Alex Pretti.
No seu poema intitulado «Aprendendo a Dissecar Fetos de Porcos»,
pelo qual recebeu o Prémio da Academia de Poetas Americanos,
Renée Good dita os seguintes versos:
«Doei bíblias para lojas de segunda mão
― amassei-as em sacos de lixo de plástico
com uma lâmpada ácida de sal rosa dos Himalaias —
as bíblias pós-batismo, aquelas arrancadas das esquinas
das mãos carnudas dos fanáticos, as simplificadas,
fáceis de ler, do tipo parasitário».
Com isto, ela refere-se a algo que, esta semana,
a Comissão Nacional Justiça e Paz denunciou numa Nota:
nada mais do que a instrumentalização de valores cristãos
para fins políticos, na promoção de discursos de ódio.

Joaquim Félix

[Amassei-as em sacos de lixo de plástico. © Fotografia: Joaquim Félix]

9. Bruce Springsteen, com um canto de intervenção
― Streets Of Minneapolis ― procurou trazer à memória os dois mártires,
sufragando a sua luta pela a justiça e a misericórdia:
«Contra o fumo e as balas de borracha
À luz da aurora
Cidadãos levantaram-se em busca de justiça
As suas vozes ecoando pela noite
E havia pegadas de sangue
Onde deveria haver misericórdia
E dois mortos, deixados a morrer nas ruas cobertas de neve
Alex Pretti e Renée Good» (estrofe 2).

9. Quem há lembrar-se da morte destes dois bem-aventurados?
Esta pergunta remete-nos, talvez,
ao poema «Quando morre um homem» de Ruy Belo:
«Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?».

10. As polarizações que estamos a viver em termos políticos e eclesiais
fazem-nos pensar nas estratégias dos influencers, digamos assim,
que, em Corinto, S. Paulo denunciava,
por estarem a promover o espartilho da comunidade cristã,
à boa maneira dos mestres gregos, que se autovangloriavam.
Eis porque S. Paulo faz um apelo à humildade,
naquele mesmo espírito já profetizado por Sofonias (Sof 2,3;3,12-13),
para que ninguém se perturbe com más influências,
mas se conforme ao que está escrito:
«quem se gloria deve gloriar-se no Senhor» (1Cor 1,31).

escultura de Mimmo Paladino, no Hortus Conclusus

[Quem se gloria deve gloriar-se no Senhor. © Fotografia (escultura de Mimmo Paladino, no Hortus Conclusus, Benevento: Joaquim Félix]

11. Celebramos hoje o Dia da Universidade Católica Portuguesa.
Na sua habitual Mensagem, a Reitora Isabel Capeloa Gil,
partindo da Carta Apostólica do Papa Leão XIV
«Desenhar novos mapas de Esperança»,
salienta que a missão da UCP, entre outros valores,
passa por oferecer uma «diaconia da cultura» (9.3).
E nesse sentido, ela insere-se na longa tradição universitária da Europa:
«A universidade nasce do reconhecimento de que a cultura é o lugar
onde o ser humano se compreende a si mesmo,
interpreta o mundo e projeta o seu futuro,
assumindo a responsabilidade de formar pessoas
capazes de pensamento crítico, de discernimento ético
e de compromisso com o bem comum».

12. Também no sentido de cultivar uma «diaconia da cultura»,
o Festival Internacional de Órgão de Braga iniciará,
precisamente nesta igreja, no próximo sábado,
com uma vasta programação ao longo de todo o ano.
Talvez não seja por acaso que, logo no primeiro concerto
― com música de Alfredo Teixeira, docente da UCP,
interpretada pelo Ensemble São Tomás de Aquino ―,
iremos ouvir, na terceira parte, as Bem-aventuranças,
parafraseadas em prosa poética pelo Card. José Tolentino Mendonça.

Quem tiver ouvidos para ouvir, venha!
Teremos a oportunidade, como desde agora já experimentamos,
para continuar a viver do convite enfatizado por Jesus,
no final do comboio as bem-aventuranças:
«Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa» (Mt 5,12).

Cerâmica, detalhe, em Montefalco, Itália.

[Alegrai-vos e exultai. © Fotografia (Cerâmica, detalhe, em Montefalco, Itália: Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 1 de fevereiro, [domingo iv do tempo comum ― a ― 2026, Dia da Universidade Católica Portuguesa], proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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