Quero tocar as pessoas com a minha arte.
Quero fazê-los dizer “ele sente profundamente,
ele sente ternamente.”
(Vincent Van Gogh)

Nick Cave. Foto reproduzida do Facebook oficial de Nick Cave & The Bad Seeds
Se há um artista teólogo ou filósofo, no sentido místico-poético de uma experiência carnalmente vivida do sublime, esse nome é Nick Cave, que, com a sua música, estética e linguagem, procura os rastos do eterno no efémero e a transcendência da nossa finitude e o sublime da nossa encarnação. Se há «teólogo-poeta» no século XXI – a afirmação será ousada e transgressiva para umas quantas figuras da ortodoxia – esse nome é plena e inteiramente Cave, cuja arte assume de modo lateral e indirecto os grandes textos religiosos e mitos fundadores da humanidade, nomeadamente a Escritura sagrada. As suas letras, poesia e musicalidade incorporam também uma certa maneira de pensar própria do pensamento existencial e dos escritores do sinistro ou da «Escritura do desastre»[1], do inacabado e do fragmento, sempre à espera de realização e da junção dos estilhaços da nossa finita corporeidade.
Na sua voz e timbre, hesitante e grave se incorpora um modo de ser radical que assume a diferença como lugar e espaço de realização do humano, com tudo o que isso implica, o belo e o trágico, a alegria e a tristeza, a esperança e o desespero, a proximidade e a distância, o racional e o mítico. O seu último trabalho Wild God é a expressão máxima dessa ambiguidade que povoa o nosso ser sensível e que, ao mesmo tempo, remete para uma alegria (cf. música joy) mais profunda e anterior a toda a alegria natural, psíquico-emocional ou cultural.
Digamo-lo, de um outro modo, com Nick Cave, que atravessou a radical finitude da perda de dois filhos, na sua mais recente entrevista ao Le Monde (06/09/2024), a propósito do seu último álbum Wild God, em conjunto com os Bad Seeds: «Para mim, a alegria vem do sofrimento. Mostra-nos que estamos vivos como seres ascendentes, é quase um sentimento religioso. A alegria foi cultivada dentro da mecânica do desgosto. Este registo foi feito por alguém que passou por perdas, mas que está fundamentalmente feliz na existência. Não poderia ter dito isso há cinco anos.»[2]
Na verdade, para Cave, viver é possível nessa situação de tragicidade, porque há uma poética possível do «Deus selvagem», um «Deus abaixo de nós» (Paul Claudel) que é fonte de espanto e de alegria inexplicáveis, mas sentidas quotidianamente, e que poderá ser, portanto, um suporte para as crises existenciais que, de tempos a tempos, nos acometem e chegam a todos. Assim, para o autor de Wild God, em entrevista ao jornal El País (7/09/2024), «o conceito de Deus não é um ser que está fora do mundo, que não pode mudar, que sabe tudo, que olha o mundo com desprezo e que faz de nós uma espécie de marionetas dançantes. Eu acredito que Deus está incrustado no mundo e nas suas criações, os seres humanos. Isso significa que não é estático, que é um projecto em caminho que cresce connosco».[3]

Capa do Disco
De certa maneira podemos encontrar neste olhar espiritual de Cave uma evocação tremendamente paulina, no areópago ateniense, que, evocando os poetas pagãos, diante do altar com a inscrição A um desconhecido deus, anunciava convictamente: «Pois nele vivemos e nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos poetas…» (Actos dos Apóstolos 17, 28). A um «deus selvagem» que não estará assim tão longe nem de pagãos nem de crentes, que está na zona mais subliminar do nosso ser, nessa zona primitiva e ancestral em que tudo acontece e se revela, a quem «os seres humanos procuram na esperança de o tocarem e encontrarem» (Act 17, 27), diz São Paulo.
Sem dúvida que esta compreensão humana e experiência vivida do divino ou do Absoluto vai ao encontro do antigo adágio patrístico que afirmava que ninguém vai a Deus senão pelo humano, ou ainda que a glória de Deus é que o ser humano viva, respire e habite em ressonância o mundo. Será assim tão fácil e fluído compreender a natureza das coisas deste ponto de vista? Não, pois, como diz Cave, na referida entrevista, em que se declara «ateu não praticante», trata-se de uma luta constante entre a sua «natureza religiosa e o [seu] eu racional», quer dizer, de deixar espaço para a surpresa e o espanto do encontro inesperado do diverso, para a pergunta fundamental que nos desarma de todos os prejuízos e suspende a resposta do já-sabido. Portanto, uma luta tremendamente filosófica, tremendamente espiritual-existencial.
Por muito incrível que pareça, na sua acepção paradoxal, ironicamente ou não, como também escrevia Jean-Paul Sartre, no seu romance As Palavras, «estas Humanidades conduziam-nos directamente a Deus […]. Um mesmo sopro modelava as obras de Deus e as grandes obras humanas…».[4] Seja a beleza humana, natural ou divina, para a personagem do romance de Sarte (e porque não para ele próprio, filósofo ateu?), é o mesmo Espírito que fala, que fala dos homens a Deus e de Deus aos homens. A presença carnal da verdade inscrita e testificada na beleza? Mas que beleza poderá salvar o mundo senão integrar, assumir e transformar em si mesma o desastre, a catástrofe e o caos do mundo e do humano? Necessariamente há aqui todo um outro pensamento a pensar-se e a fazer-se, a partir deste paradoxo fundamental da existência que só o tempo futuro nos permitirá aprofundar e discernir.
Notas
[1] Cf. Maurice Blanchot, L’Écriture du désastre, Gallimard-nrf, Paris, 1980.
[2] Nick Cave, «Entretien», de Bruno Lesprit, in Le Monde, consultado a 9 de Setembro de 2024. (só para assinantes).
[3] Nick Cave, «Entrevista», de Iñigo López Palacios, in El Pais, consultado a 8 de Setembro de 2024.
[4] Jean-Paul Sartre, As Palavras, Livros do Brasil, Lisboa, 2024, p. 40.
João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).










