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Do pouco sobra sempre

| 16/08/2024

Música no jardim

“Não há palavras para descrever o que se vive por causa de quem dá licença a estas selvajarias.  E, sim, não são tradições. Os Santos Populares já passaram.” Foto: Música no Jardim. © Agenda cultural de Lisboa

 

Neste texto vou contar quatro situações diferentes e um provérbio chinês.

Habitualmente constato, quando estou em Lisboa, que o padre da minha paróquia, celebra pontualmente a missa dominical. Nos outros dias da semana não sei, já que não ando pelo local, mas imagino que seja o mesmo. Hoje[1] veio outro celebrante, igualmente rigoroso no horário, que, na homilia, contou uma história que se passou em S. Tomé, aquando da sua ida a uma ordenação sacerdotal. Resumo-a assim – …quando chegou o momento da refeição a comida parecia insuficiente para todos os que iam chegando. Almoçaram duas vezes mais pessoas do que as previstas e o próprio pensou que seria melhor não comer para, desse modo evitar, no que de si dependesse, que não houvesse comida para todos.

Uma anciã da zona chamou-o e perguntou porque não se servia. O sacerdote explicou a razão e a anciã respondeu-lhe mais ou menos assim – Senhor Padre não se preocupe. Coma à vontade. O pouco sobra sempre e o muito nunca chega.

Posso ter falhado em alguns detalhes, mas a frase sábia escrevi-a textualmente. Fiz algo que nunca tinha feito antes. Peguei no telemóvel durante a missa e tomei nota.

Impressionei-me com a verdade desta reflexão, o conhecimento que ela contém, a ambição desmedida por que alguns pautam as suas vidas e a sábia humildade que integra a existência de outros.

Nos últimos dias de trabalho em Lisboa, o presidente da minha Junta de Freguesia autorizou festas, no Jardim público para o qual estão dirigidas 10 das minhas janelas, que nem nos permitem ouvir a nossa música ou ver uma série dentro da própria casa; não nos permitem descansar nem aos fins-de-semana; não nos permitem falar uns com os outros porque não nos podemos ouvir entre divisões; não nos deixam dormir a horas decentes… Em pleno Verão e calor tentamos fechar todas as janelas que são duplas, note-se (mesmo as que não estão dirigidas ao jardim), ligar o ar condicionado e é em vão. A casa vibra e a sua estrutura que é de betão, e não de tabique, faz ressonância em jeito de abalo sísmico. Queremos dormir porque passa das 11h da noite e na Segunda-feira trabalhamos, mas este inferno continua. Começou às 5h da tarde. Não há palavras para descrever o que se vive por causa de quem dá licença a estas selvajarias.  E, sim, não são tradições. Os Santos Populares já passaram.

Com crianças em casa, durante a tarde, passamos vergonhas e só podemos ficar constrangidos. Uma das figuras que usa o microfone utiliza aos “berros” palavras que nem no Minho ou Trás-os-Montes se usam num enquadramento de semelhante natureza. Sobre isto sei o que digo porque tenho outra casa por essas paragens. Enfim, uma barbaridade permitida num dos bairros ditos mais nobres da nossa capital.

Uns dias depois comecei férias e fui até ao Norte. Havia algumas compras para fazer e revelou-se fundamental ir a um centro comercial. Não é um local que consideremos muito aprazível. De facto as lojas de rua conservam um carisma mais interessante. No entanto, quando faz falta despachar, é mais prático. Tinha apenas dado poucos passos lá dentro e vi de frente uma figura humana, degradada, decerto, pelo tempo e pela vida, Um boné na cabeça; uma bengala de um lado, outra, mas com tripé do outro; o fecho das calças aberto; o corpo inclinado para a direita e a solidão por companhia. Não sei o que posso dizer mais.

Passados mais dois dias entrámos no espaço de uma esplanada para petiscar e pedimos a carta a ver o que tinham. A rapariga atrapalhada procurou e disse – só tenho aqui em inglês. Os pratos são estes. – Apontou. Parece que estamos em Portugal ou, com ironia, talvez não. Fiquei a olhar para ela e fomos embora. Há limites para tudo.

Estes episódios que descrevo nada têm que ver uns com os outros, nem em termos de conteúdos, nem de importância relativa, mas todos são retalhos da vida que nos fazem pensar que precisamos de ficar atentos. Ao nosso redor estão sempre a passar-se coisas relevantes que nos interpelam. E ainda bem, porque o mundo em que vivemos tem muitas circunstâncias nas quais parece estar a desabar. Basta pensarmos que as crianças já não brincam ao ar livre, tendo seres diversos e virtuais para conviver. Quase tudo, menos as outras crianças como elas.

Não é possível ficar indiferente. Tenho para mim que a maioria das vezes em que o fazemos é porque não temos ao nosso alcance a garantia de sermos eficazes em muitas iniciativas. E isso faz-nos desistir antes de tentar. O facto de só querermos fazer grandes coisas nas quais somos vistos, retira-nos do essencial. Temos que tentar sempre e começar pelo que é mais pequeno e se encontra à distância do nosso braço.

Um dia encontrei uma frase sábia, identificada como provérbio chinês, que dizia assim – «Antes de começar o trabalho de mudar o mundo dê três voltas dentro de sua casa.»

 

[1] Este texto foi escrito no dia 28 de Agosto de 2023.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt 

 

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