
“O Luís, no seu livro, consegue a quadratura do círculo, pois fala dos acontecimentos sem pretender dar-lhes a origem. Ele estava lá, não por acaso, mas como participante.”
Quando somos adolescentes, costumamos eleger os nossos modelos inspiradores. O meu pai, um ou outro professor e sobretudo Jesus Cristo foram para mim exemplos de vida.
Sou oriundo duma família rural, onde se trabalhava de sol a sol. A minha era a única família, na aldeia e redondezas, onde não havia um emigrante… A pobreza e a Guerra colonial sangravam o país. Naquela altura, 60% da população vivia da agricultura e pescas, contra 5% no resto da Europa.
As muitas leituras na área da sociologia e das técnicas agrícolas e problemas do mundo rural, e a observação da realidade que me rodeava, fizeram-me redefinir o meu projeto de vida sacerdotal. E aí entra a figura de Jesus.
Jesus era conhecido na aldeia de Nazaré como o filho do carpinteiro. Até aos trinta anos trabalhou no ofício do pai. Muito provavelmente, teria trabalhado na construção das cidades de Cesareia e ou de Séforis, porque os rendimentos de sua família vinham exclusivamente do trabalho e tinha irmãos e irmãs… A palavra hipócrita que chama aos fariseus, que compara aos sepulcros caiados por fora e por dentro, mas que estão cheios de corrupção, tê-la-ia aprendido de companheiros de trabalho de origem grega…
Estou convencido que a experiência vivida por Jesus, da exploração dum trabalho extremamente pesado, de alto risco, lado a lado com trabalhadores escravos, às ordens de Herodes, à frente dum exército de ocupação, teria obrigado Jesus, a fazer uma leitura dos profetas do exílio, no contexto do momento histórico, que ele e o seu povo viviam naquele momento.
A sua condição de vida operária está na origem do seu projeto de vida pública. Fez aos seus discípulos a proposta do movimento do reino de Deus, que organizou e levou à prática enquanto viveu. O tema do reino de Deus é o coração da sua pregação, é a utopia do dom da sua vida que galvanizou os seus companheiros e continuou viva depois da sua morte e, tantas vezes, aparece na narrativa dos Evangelhos.
Enfrentou os poderosos. Deu-se conta do cerco que lhe era feito… Curava fora das cidades e dizia aos beneficiados: não digais nada a ninguém.
O ambiente messiânico dominante, o posicionamento dos essénios, que se opunham à ocupação romana e contestavam o clero do templo, foi o caldo em que alguns discípulos viviam e lhes fazia confiar que Jesus tomasse o poder, quando subiu a Jerusalém e libertasse o povo. Jesus enfrentou os vendilhões do templo e teria sido acompanhado pelos seus. Mas tudo ficou por ali. Judas ficou desiludido e desertou para o outro lado. Jesus chorou sobre Jerusalém e aconteceu a paixão.
Que tem a ver esta visão de Jesus com o meu projeto de padre operário? É que há mais dúvidas do que certezas, que Jesus tivesse fundado uma Igreja e muito menos uma religião. Os primeiros cristãos eram conhecidos como “os do caminho”. Mais tarde, em Antioquia, já no tempo de Pedro e Paulo foram apelidados, pela primeira vez, de cristãos.
Então, a questão que se me punha, como padre, era de vir a ser funcionário desta igreja cúmplice da miséria e do atraso do povo ou ser seguidor de Jesus e do seu projeto, o reino de Deus.
Creio que esta visão de Jesus motivou e alimentou a esperança de muitos padres e seminaristas que foram recrutados para trabalhos forçados nas fábricas que alimentavam a guerra nazi. Muitos entenderam que o seu sacerdócio vivido com os outros prisioneiros está mais de acordo com o sacerdócio de Jesus. Tive a sorte de conhecer alguns.
Quanto a mim, a partir do primeiro ou segundo ano de teologia, ser padre operário passou a ser a única alternativa e prometi a mim mesmo de nunca receber um tostão do altar.
O Luís, no seu livro, consegue a quadratura do círculo, pois fala dos acontecimentos sem pretender dar-lhes a origem. Ele estava lá, não por acaso, mas como participante. É o que o concilio fala de ser parte do povo de Deus e o Papa Francisco duma Igreja em saída, isto é, fora do templo, presentes em todas as realidades vividas pelos homens nossos irmãos.
O Luís escreve do que viveu e acerca do que o marcou. Fica a fazer falta uma história mais abrangente deste serviço contemplativo e ou militante dos padres e religiosas nas fábricas e herdades, sobretudo na margem sul.
Além do muito que não se sabe e nunca se saberá, foi da iniciativa e liderança dum padre operário, a última greve da Lisnave, anterior ao 25 de Abril e a primeira a seguir ao 25 de Abril, assim como o convite ao Otelo à presidência da República.
Parabéns, Luís, querido companheiro e camarada.
Manuel Pereira Crespo é padre-operário, membro da congregação dos Filhos da Caridade.










