“Vocês, americanos, têm de sair do vosso berço. Acham que o mundo é americano; não têm noção de que só a América é americana. Serem tão provincianos e nem sequer saberem que o são.”
(Chimamanda Ngozi Adichie, Inventário de Sonhos, Alfragide, D. Quixote, 2025, pg. 520.)
Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora nigeriana que muito prezo pelo olhar original que geralmente tem sobre o mundo em que vivemos e que ela nos habituou a analisar com um olhar diferente. No entanto, quando li este seu livro há alguns meses, considerei esta afirmação exagerada e mesmo preconceituosa.

Acontece que hoje, ao considerar o que tem acontecido na América depois da eleição de Trump, esta sua apreciação tem-se-me imposto como verdadeira. Nunca nenhum presidente americano contemporâneo ameaçou a soberania de países que ao longo do tempo consolidaram a sua independência e definiram as suas fronteiras. Nunca nenhum ordenou prisões em massa em Los Angeles, efectuadas por fuzileiros não preparados para este tipo de acções, ou seja, postos perante o facto inevitável de obedecer a ordens injustas que os levaram a deter pessoas pelo simples facto de serem estrangeiras, invadindo locais onde havia muitos imigrantes e aprisionando-as indiscriminadamente sem qualquer julgamento prévio. Assim, muita gente foi detida pelo simples facto de se encontrar em aglomerados e não ter provas de possuir nacionalidade americana. Esta situação ocorreu em Los Angeles onde se deu um grande número de prisões ilegais e onde muitos tribunais receberam ordem para arquivar as contestações dos imigrantes que reagiram a tal procedimento.
Trump tem-se mostrado um desrespeitador das leis americanas que, tal como noutros países civilizados, concedem aos seus cidadãos o direito de se defender das acusações que lhes são feitas, nos locais apropriados para uma defesa justa, ou seja, nos tribunais. O governo de Trump tem ignorado os direitos em que os americanos tiveram um papel precursor e muitos juízes nos Estados Unidos têm sido meramente informados das deportações ocorridas sem que tenha havido processos que previamente as justificassem. Os procedimentos mais frequentes no que respeita a pseudo-criminosos tem sido prendê-los em primeiro lugar e só depois analisar se são susceptíveis de prisão.
Hoje tornaram-se habituais rusgas de imigração efectuadas por fuzileiros não preparados para tal tipo de acção. De facto, as rusgas em locais onde viviam imigrantes tornaram-se frequentes, sendo efectuadas prisões em massa. O caso de Los Angeles é sintomático, pois nessa região os tribunais receberam ordem para arquivar as contestações dos imigrantes, esquecendo-se o carácter precursor das políticas norte americanas no que respeitava ao direito de defesa concedido a cada cidadão.
Os europeus, enquanto parte do mundo dito “civilizado”, assistem atónitos a este atropelo dos direitos individuais, considerando-se impotentes perante os humores deste ditador imprevisível que em poucos meses de governação pôs em causa as conquistas de séculos.
Muitos houve que se habituaram a considerar os Estados Unidos da América como um país precursor da defesa dos direitos das liberdades individuais. Hoje é altura de estarmos atentos a outras vozes e de admitir como justa a censura daqueles que aprenderam – muitas vezes com o exemplo americano – a amar a liberdade.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










