Egito Gonçalves, poeta desaparecido, mas presente

| 7 Abr 20

“O corpo é o lugar da revelação/desejo sem fim/que nos transporta aos outros…”

(in os pássaros mudam no outono)

Egito Gonçalves, poeta

Egito Gonçalves. Foto: Direitos reservados

 

Falo de Egito Gonçalves, que faz 100 anos neste 8 de Abril de 2020 (Matosinhos, 1920 – Porto, 2001). Editor, tradutor, poeta com vasta obra publicada e traduzida em francês, inglês, castelhano, catalão, búlgaro, polaco, turco.

Contactei-o, no início dos anos 1980, através de um amigo que tinha um amigo que o conhecia. Como sempre, eu andava à procura de um Poeta, em carne e osso, para mostrá-lo aos meus alunos. Uma forma de iluminar os adolescentes, fazê-los sentir mais a poesia.

Procurei-o no local de trabalho. Era um homem afável, elegante; enfim, um Poeta aberto aos outros. Conservo duas cartas dele: a primeira (1982), agradece-me quase cerimoniosamente o encontro entre ele e os alunos: “(…) sobretudo o prazer de estar entre alunos (…) tentar falar de uma maneira simples com eles (…) e atingir o seu interesse. (…) muito mais do que a discussão académica entre professores (cujo perigo chegou a existir) e que por vezes raiou o pedantismo (…) Penso que alguns alunos poderão ter alargado as suas ideias acerca do fenómeno literário. Mas sou eu sempre que saio enriquecido destes encontros (…)”. A segunda carta era a resposta a outro convite para outra escola secundária (fins de 1983), a que ele não se fez rogado.

A sua obra poética é muito vasta. Há, em geral, duas vertentes nos seus poemas: a temática da Resistência política, antes do 25 de Abril. O poema Notícias do Bloqueio tornou-se, em certos países, uma espécie de oração contra o medo e a desesperança. Um “eu”, na “cidade” cercada, fala com um “tu”, fora das muralhas e leva-lhe “notícias” dessa “cidade”:

“Aproveito a tua neutralidade/ o teu rosto oval/ a tua beleza clara/ (…) Tu lhe dirás do coração o que sofremos (…) dirás como trabalhamos em silêncio (…) Vai pois e noticia com um archote/ aos que encontrares fora das muralhas (…) Diz-lhes que se resiste na cidade (…) e enquanto a água e os víveres escasseiam/ aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.”

Esta “cidade”, país submetido à repressão, surge noutros poemas, como Sitiados: “(…) unidos, trituramos os assaltos/ E renovamos o cristal da esperança(…)”. Nos vários poemas desta temática, há sempre uma luz futura que “rasga”…”rasgando” a asfixia (in Assobio na Noite Solitária). Há frases que valem uma profecia, parece ouvir-se a voz do Big Brother: Edital: “(…) Não leiam livros/ não ouçam música/ não pintem – É UMA ORDEM/ Trabalhem sem hesitação/ O problema é urgente.” (do livro O Amor Desagua Em Delta – Edit. Inovação, 1971).   

Livros de Egito Gonçalves

Capas de algumas das edições de Livros de Egito Gonçalves; uma Antologia Poética com o título O Pêndulo Afectivo está também publicada na Afrontamento

 

Na outra vertente – embora não estejam, por vezes, assim tão separadas – canta-se o amor. São também inumeráveis os poemas, uma espécie de “poesia em prosa”. Em os pássaros mudam no outono (Limiar, 1981), o sujeito lírico recorda um passado, “um corpo o que vem povoar/ este horizonte”. O eros interliga-se com a natureza: peixes, águas, frutos, fogo: “(…) as coisas mudavam de sentido (…) braços apertam água como peixes/ apertam a vida.(…) Nasce um canto ígneo/ um sabor a morango (…) E que nome darei/ a este monte onde me sento, olho, abraço/ a grande flor nascida entre os teus seios”. O amado dialoga com a amada: há um êxtase e simultaneamente uma incompletude: “(…) Assusta-me o teu grito/ a explosão de silêncio/ que segue a crispação dos sobressaltos (…) e no entanto as coisas não são fáceis/ mesmo no interior da chama/ uma sombra anda por aqui (…).”

“É um abuso submeter um texto tão complexo e fascinante como este em duas ou três anotações”, diz, e com toda a razão, Luís de Miranda Rocha (Colóquio-Letras, nº 34).  Na verdade, há nestes poemas extensíssimos – como epopeias – um canto admirável ao amor. Esta é a força vital que irrompe no corpo e no ser, agregando tudo à volta.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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