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Exortação apostólica Dilexi te. Foto Vatican Media
Publicada nesta quinta-feira, 9 de outubro, a exortação apostólica já está disponível online na versão portuguesa. Foto © Vatican Media

Primeira exortação apostólica

Em “Dilexi te”, Leão XIV une a voz à de Francisco para pedir “uma Igreja que caminha pobre com os pobres”

| 09/10/2025

O tema foi escolhido por Francisco, o título também, e as primeiras ideias terão sido alinhavadas por ele nos últimos meses de vida. Mas Leão XIV não só aceitou esta herança como a fez sua. Por isso, na exortação apostólica Dilexi te (em português “Amei-te”) – publicada nesta quinta-feira, 9 de outubro e já disponível online na versão portuguesa – o que encontramos é a sua assinatura, por baixo de um convite e de um apelo a todos os católicos: “ler novamente o Evangelho” e “não esquecer os pobres”.

É o próprio Leão XIV que faz questão de o esclarecer logo na introdução do documento, que se estende ao longo de 121 pontos, organizados em cinco capítulos: “Em continuidade com a encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco, nos últimos meses da sua vida, estava a preparar uma exortação apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um deles dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas ‘Eu amei-te’ (Ap 3, 9)”.

E continua: “Sinto-me feliz ao assumi-lo como meu – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres”. Até porque, justifica ainda o Papa Leão, também ele considera ser “necessário insistir neste caminho de santificação”.

 

Uma cultura de descarte “bem disfarçada”, mesmo entre “cristãos”

Papa assina exortação apostólica Dilexi te. Foto Vatican Media

O Papa assina a exortação apostólica Dilexi te, no dia 4 de outubro. Foto © Vatican Media

Certamente não por acaso, Leão XIV assinou este seu primeiro documento magisterial no passado sábado, 4 de outubro, data em que se assinalava a festa de São Francisco. Ele próprio recorda, na exortação, que foi por causa de um pedido para que não se esquecesse dos pobres que o anterior Papa escolheu o nome de Francisco, pois foi este santo que “há oito séculos provocou um renascimento evangélico nos cristãos e na sociedade do seu tempo”, ele que “anteriormente rico e presunçoso, renasceu a partir do impacto com a realidade daqueles que são expulsos da convivência”.

E ao unir nesta exortação a sua voz à do Papa Francisco (e à do santo de quem este tomou o nome), Leão XIV parece querer provocar um novo renascimento evangélico. “Estou convencido de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade, quando somos capazes de nos libertar da autorreferencialidade e conseguimos ouvir o seu clamor”, afirma.

E reconhecendo que “a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja”, o Papa expõe o facto de esse grito sair da boca de cada vez mais pessoas, sem que muitos, mesmo na Igreja, consigam escutá-lo.

Denunciando as “múltiplas formas de empobrecimento económico e social” a que assistimos no mundo de hoje (como as “mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência”, as “famílias que não conseguem chegar ao fim do mês”, ou os milhares de pessoas que “morrem por causas relacionadas com a desnutrição”), Leão XIV expõe o paradoxo do crescimento de “algumas elites ricas, que vivem numa bolha de condições demasiado confortáveis e luxuosas, quase num mundo à parte em relação às pessoas comuns”.

“Isto significa que persiste – por vezes bem disfarçada – uma cultura que descarta os outros sem sequer se aperceber, tolerando com indiferença que milhões de pessoas morram à fome ou sobrevivam em condições indignas do ser humano”, alerta o Papa. Uma cultura que aponta muitas vezes o dedo aos pobres como estando nessa situação “porque não obtiveram ‘méritos’, de acordo com a falsa visão da meritocracia, segundo a qual parece que só têm mérito aqueles que tiveram sucesso na vida.

Leão XIV vai mais longe e denuncia que “também os cristãos, em muitas ocasiões, se deixam contagiar por atitudes marcadas por ideologias mundanas ou por orientações políticas e económicas que levam a injustas generalizações e a conclusões enganadoras”. E que muitos cristãos têm “preconceitos” em relação aos pobres, sentindo-se “mais à vontade” sem eles. “Há quem continue a dizer: ‘O nosso dever é rezar e ensinar a verdadeira doutrina’. Mas, desvinculando este aspecto religioso da promoção integral, acrescentam que só o Governo deveria cuidar deles, ou que seria melhor deixá-los na miséria, e ensinar-lhes antes a trabalhar”, lamenta o Papa.

“Observar que o exercício da caridade é desprezado ou ridicularizado, como se fosse uma fixação somente de alguns e não o núcleo incandescente da missão eclesial, faz-me pensar que é preciso ler novamente o Evangelho, para não se correr o risco de o substituir pela mentalidade mundana. Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres”, conclui Leão logo no ponto 15 da exortação.

 

As Escrituras e a tradição são claras, é preciso segui-las

São Francisco de Assis

Giotto di Bondone, São Francisco devolve a roupa a seu pai, pintura na Basílica de Assis.

Leão XIV percorre depois o Antigo e o Novo Testamento para demonstrar que “Deus escolhe os pobres” e que “Ele mesmo se fez pobre, nasceu segundo a carne como nós e reconhecemo-lo na pequenez de uma criança recostada numa manjedoura e na extrema humilhação da cruz, onde partilhou a nossa radical pobreza, que é a morte”.

Ao abrir os olhos aos cegos, curar os leprosos, anunciar-lhes a “boa nova”, dizer-lhes “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6, 20), Cristo “mostra predileção” por eles. “E a Igreja, se deseja ser de Cristo, deve ser Igreja das Bem-aventuranças, Igreja que dá vez aos pequeninos e caminha pobre com os pobres, lugar onde os pobres têm um espaço privilegiado”, defende o Papa, que assume perguntar-se muitas vezes: “quando há tanta clareza nas Sagradas Escrituras a respeito dos pobres, por que razão muitos continuam a pensar que podem deixar de prestar atenção aos pobres”?

Para Leão XIV, “há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”, e prova disso é também o testemunho deixado por inúmeros santos, beatos e missionários que, ao longo dos séculos, encarnaram a imagem de “uma Igreja pobre e para os pobres”. Além de Francisco de Assis e do seu gesto de abraçar um leproso, Leão XIV recorda a Madre Teresa de Calcutá, ícone universal da caridade dedicada aos moribundos da Índia “com uma ternura que era oração”, e ainda São Lourenço, São Justino, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, o “seu” Santo Agostinho, que afirmava: “Aquele que diz amar a Deus e não se compadece dos necessitados, mente”.

Leão lembra ainda o trabalho dos Camilianos junto dos doentes, das congregações femininas em hospitais e casas de repouso, dos mosteiros beneditinos no acolhimento a viúvas, crianças abandonadas, peregrinos e mendigos, e dos Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas e Agostinianos que iniciaram “uma revolução evangélica” através de um “estilo de vida simples e pobre”, juntamente com os Trinitários e Mercedários que, lutando pela libertação dos “cativos”, expressaram o amor de “um Deus que liberta não só da escravidão espiritual, mas também da opressão concreta”.

O pontífice recorda também o exemplo de São José de Calasanz, que fundou a primeira escola popular gratuita da Europa, ou das irmãs Ursulinas, que “criaram escolas nos pequenos vilarejos, nas zonas de periferia e nos bairros operários”, para destacar a importância da educação dos pobres, que “para a fé cristã, não é um favor, mas um dever”.

Exemplos que precisam de continuar a ser seguidos, inspirando novas formas de ação diante das pobrezas e escravidões no mundo de hoje: o tráfico de pessoas, o trabalho forçado, a exploração sexual, as diversas formas de dependência, e também o drama dos migrantes, ao qual Leão XIV dedica vários parágrafos desta primeira exortação apostólica.

Recordando a imagem do pequeno Alan Kurdi, o menino sírio de apenas três anos que o mundo inteiro viu deitado na areia de uma praia do Mediterrâneo, já sem vida, em 2015, o Papa lamenta que “infelizmente, à parte de alguma momentânea comoção, acontecimentos semelhantes estão a tornar-se cada vez mais irrelevantes, como se fossem notícias secundárias”.

Enquanto isso, a atividade da Igreja junto dos migrantes prossegue “e hoje esse serviço expressa-se em iniciativas como os centros de acolhimento para refugiados, as missões nas fronteiras, e os esforços de Caritas Internationalis e de outras instituições”, constata.

A Igreja, como mãe, caminha com os que caminham. Onde o mundo vê ameaça, ela vê filhos; onde se erguem muros, ela constrói pontes. Pois sabe que o Evangelho só é crível quando se traduz em gestos de proximidade e de acolhimento; e que em cada migrante rejeitado, é o próprio Cristo que bate às portas da comunidade”, destaca o Papa, desafiando todos os cristãos a “ajudar os outros a verem no migrante e no refugiado não só um problema para lidar, mas um irmão e uma irmã a serem acolhidos, respeitados e amados”.

 

Um caminho a percorrer, mesmo correndo o risco de “parecer estúpidos”

Robert Prevost, Leão XIV, Peru

O então bispo Robert Prevost, hoje Papa Leão XIV, no Peru, num vídeo gravado durante umas cheias na região da sua diocese, Chiclayo, em 2023. Foto: Direitos reservados.

Considerando que “ao longo dos séculos da história cristã, devemos igualmente reconhecer que a ajuda aos pobres e a luta pelos seus direitos não envolveu apenas indivíduos, algumas famílias, instituições ou comunidades religiosas”, o Papa recorda que “houve, e há, vários movimentos populares, constituídos por leigos e conduzidos por líderes populares, colocados muitas vezes sob suspeita e até perseguidos”, que desempenham um papel determinante e precisam de ser ouvidos.

“Também o contributo da Doutrina Social da Igreja tem em si esta raiz popular que não se pode esquecer: seria inimaginável a releitura da Revelação cristã nas modernas circunstâncias sociais, laborais, económicas e culturais sem leigos cristãos envolvidos com os desafios do seu tempo”, reconhece Leão XIV.

E defende que “a mudança de época que enfrentamos hoje torna ainda mais necessária a interação contínua entre batizados e Magistério, entre cidadãos e peritos, entre povo e instituições”. “Em particular – sublinha – é preciso reconhecer novamente que a realidade se vê melhor a partir das periferias e que os pobres são sujeitos de uma inteligência específica, indispensável à Igreja e à humanidade.”

O documento faz ainda referência às contribuições históricas dos Papas para o desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja desde Leão XIII – que inspirou a escolha do nome do atual Papa –, com a encíclica Rerum novarum (1891), a Bento XVI, passando por João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, que reforçaram o compromisso da Igreja com os pobres, destacando a dimensão “cristocêntrica” da Doutrina Social e a defesa da dignidade humana e dos direitos sociais.

Leão XIV sabe que o caminho até aqui foi longo e muito há ainda por trilhar, especialmente numa época em que continua a vigorar a “ditadura de uma economia que mata”. Mas não tem dúvidas: “Mesmo correndo o risco de parecer ‘estúpidos’, é tarefa de todos os membros do Povo de Deus fazer ouvir, ainda que de maneiras diferentes, uma voz que desperte, denuncie e se exponha. As estruturas de injustiça devem ser reconhecidas e destruídas com a força do bem, através da mudança de mentalidades e também, com a ajuda da ciência e da técnica, através do desenvolvimento de políticas eficazes na transformação da sociedade.”

O texto cita ainda constituição pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, que sublinhou o “destino universal dos bens da terra e a função social da propriedade”. Leão XIV coloca-se em continuidade com este magistério, evocando ainda as Conferências do Episcopado Latino-Americano em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, que se realizaram nas últimas décadas.

“Eu mesmo, missionário no Peru durante tantos anos, devo muito a este caminho de discernimento eclesial, que o Papa Francisco com sabedoria soube unir ao de outras Igrejas particulares, especialmente do chamado Sul global”, assume, insistindo que “a caridade é uma força que muda a realidade, um autêntico poder histórico de transformação. Esta é a fonte da qual deve nutrir-se todo o compromisso para ‘resolver as causas estruturais da pobreza’ e para o fazer com urgência”.

 

“Não renunciemos à esmola”

“Será sempre melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada”, diz o Papa. Foto © Vatican Media

Se por um lado o Papa reafirma que “o auxílio mais importante para uma pessoa pobre é ajudá-la a ter um bom trabalho, para que possa ter uma vida mais condizente com a sua dignidade, desenvolvendo as suas capacidades e oferecendo o seu esforço pessoal”, por outro aponta que “se ainda não existe essa possibilidade concreta, não devemos correr o risco de deixar uma pessoa abandonada à própria sorte, sem o indispensável para viver dignamente”.

Assim, nas últimas páginas do documento, Leão XIV detém-se sobre a importância da esmola, que “não só é raramente praticada, como às vezes é até desprezada”.

“Como cristãos, não renunciamos à esmola”, pede o Pontífice. “Um gesto que pode ser feito de várias maneiras, e podemos tentar fazer de forma mais eficaz, mas que deve ser feito. E será sempre melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada. Em todo o caso, tocar-nos-á o coração. Não será a solução para a pobreza no mundo, que deve ser procurada com inteligência, tenacidade e compromisso social. Mas precisamos de praticar a esmola para tocar a carne sofredora dos pobres.”

O Papa salvaguarda que “a esmola não isenta as autoridades competentes das suas responsabilidades, nem elimina o empenho organizativo das instituições, muito menos substitui a legítima luta pela justiça”, mas convida a “parar e a olhar nos olhos a pessoa pobre, tocando-a e partilhando com ela algo do que se tem”.

Acima de tudo, é necessário que “todos nos deixemos evangelizar pelos pobres”, exorta o Papa. “O cristão não pode considerar os pobres apenas como um problema social: eles são uma questão familiar. Pertencem aos ‘nossos’”. E devem poder sentir que são para eles as palavras de Jesus que dão título à exortação apostólica: “Eu amei-te”.

 

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