À guisa de introdução
Na crónica passada falei sobre a obra Corropita: um círculo suicida da autoria de Virgílio Sitole, escritor moçambicano. Prometi ainda, abordar uma segunda obra sua, intitulada Esguelhas da alma, livro em prosa.
Nesse livro, de Virgílio Sitole, logo nas epígrafes, somos avisados sobre essa temática. O autor utiliza as minúsculas em quase toda a obra, excepto no seu nome e no título da capa do livro. Já na folha de rosto, o título do livro aparece em minúsculas e nome do autor todo ele em maiúsculas. A obra composta por dois cadernos, a saber “esguelhas da alma” e “esguelhas de mim”.
Li Esguelhas da alma avisada de que quem não tem informação sobre alguma coisa não a deve criticar, deve procurar conhecê-la, antes. Isto é-nos dado através de uma das epígrafes, que diz: “e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”, ou seja, há um conselho: não fales sobre o que não sabes, pergunta.
Aliás, esta epígrafe tem a sua ressonância no livro Corropita: um círculo suicida, já apresentado, no qual se afirma, com recurso a uma citação de Osvaldo Montenegro: “quem não ouve a melodia acha maluco quem dança”. Estas premissas dialogam, ainda, com o poema intitulado “Se me quiseres conhecer”, da autoria de Noémia de Sousa, ou não fosse Sitole seu exímio seguidor, na contestação contra determinado status quo.
Diz-nos Noémia no poema acabado de mencionar: […] se me quiseres conhecer/estuda com os olhos bem de ver/esse pedaço de pau preto/” […]. Ah, essa sou eu:/órbitas vazias no desespero de possuir a vida/, boca rasgada em feridas de angústia,/ […]erguendo-me em jeito de quem implora e ameaça, corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis/pelos chicotes da escravatura/[…]. Estes versos, na sua ligação com Esguelhas da alma, livro agora em apresentação, sugerem-nos a importância do cuidado no tratamento da condição humana, mormente a temática da dor. Sugerem-nos questionamento e pesquisa sobre o que não conhecemos.
É sobre a condição humana que esta obra trata, fazendo-o do lado do qual menos atenção se tem dado: a alma. Sitole, chama-nos à atenção para a desconstrução da vida, a partir do seu lado menos físico e mais profundo, essa alma. Parece ser lá a origem do que os humanos fazem. Entretanto, para não falar da dor de modo enfadonho, há uma melodia que Sitole nos sugere escutar para dançarmos ao sabor das suas palavras.
Sobre a obra

A capa do livro “Esguelhas da alma”.
No primeiro texto da “parte i” desta obra, que vem narrada no caderno “esguelhas da alma”, somos logo sugeridos a embarcar numa imersão assombrosa. Há uma série de isotopias ou sentidos semânticos que para lá nos levam, nomeadamente: sombra, triste, morrer, malcheirosos, cinzentas, difícil subida, mata-me de suto, pg. 23.
Nessa parte, há um contexto que nos é apresentado de um lugar arrepiante, no qual o absurdo acontece: um homem estranho, invisível, desconhecido “dá instruções no vazio”, a partir do nada. Ele é seguido por um personagem, que vai acompanhado de um outro. Um deles (o narrador) questiona: “– este caminho leva-nos até aonde? – perguntei. – ao nada – respondeu o homem estranho. – nada é um lugar? – insisti.”. Nessa mesma história o absurdo é instigado, ie, há um personagem (o homem estranho) que incita os outros dois a uma luta: “- lutem, assim veremos quem é o mais forte. Quem perder, ajoelhar-se-á e beberá da cólera e ódio insolúveis do chão desta terra […].
Esse homem invisível ou estranho, trazido por ventos do mês de Agosto, tal como refere o texto, faz imensos rodopios, é como se fosse um foguetão; o que faz recordar um fantasma, faz recordar o fantasma-bicho raro do livro Palestra para um Morto de Suleiman Cassamo. O mais provável é que seja um fantasma.
A história é disruptiva, leva-nos a um universo no qual poucos conseguem penetrar, aquele no qual se acredita no diálogo entre vivos e mortos. E não o conhecendo, que não seja criticado, que se pergunte para se saber. Aliás, as crenças e as culturas não devem ser subalternizadas, em função do desconhecido. Este livro, numa das suas epígrafes, citando Tchemene (mãe de Virgílio Sitole) diz-se: não tenha medo da sua pele escura, pois isso significa que você é puro, genuíno e bem cozido.”
Na segunda estória do livro encontramo-nos diante de uma sugestão de busca de identidade, numa estória na qual o medo subjaz na comunidade narrada, a das sete colinas. Há sangue, há choro, há morte e era impensável perguntar sobre os acontecimentos surreais, sob pena de ser deles vítima, segundo a obra. Passo a ler um texto sobre o medo, nesse local:
“o medo vivia dentro do medo. as sete colinas transformaram-se em medo. as pessoas viventes, naquele espaço sanguinolento, transformaram-se em medo. defecavam o medo. faziam sexo do medo. peidavam o medo. sorriam o medo. olhavam o medo. vivia-se uma órbita de medo. o medo tinha virado medo de si mesmo. as sete colinas tornaram-se medo delas próprias” (p. 33). Narra-se, se quisermos, uma sociedade na qual a condição humana atingiu os píncaros do absurdo. Ninguém confia em ninguém, na verdade, a Humanidade acabou. As identidades são uma coisa inominável.
E como se pode depreender, há algum exagero nisso tudo. A hipérbole enquanto figura de estilo foi utilizada por Sitole. Sem pudores agudiza a dor e o absurdo que vive a sociedade narrada no texto. Viver de medo e com ele, é o cúmulo da degradação de uma sociedade. As expressões, sem tabus, utilizadas pelo autor do livro recordam-nos que essa sociedade simbólica existe, na realidade.
Saindo um pouco desta penumbra acabada de mencionar, gostava de abordar o segundo caderno desta obra, que se intitula “esguelhas de mim”. Esta parte parece ter cariz biográfico. A Teoria Literária reserva um capítulo para esse tipo de escrita, a escrita autoficcional, na qual partes da identidade do seu autor são mescladas com ficção. Os dados biográficos, nas orelhas do livro induzem a essa afirmação.
As badanas do livro informam-nos que o autor foi coreógrafo na Companhia Nacional de Canto e Dança. Além disso, é membro fundador do Centro Cultural de Matalana. Se na primeira parte da obra somos embalados por uma narrativa esvoaçante e que remete à dança, o modo de narrar sugere-nos o conhecimento da dança pelo seu autor, reforçado pelas várias menções a essa disciplina artística. Deixo isso para a leitura de cada um.
Na segunda parte da obra, as menções ao espaço Matalana e arredores, remetem-nos à identidade do seu autor; daí poder-se afirmar que a obra em apresentação é composta por uma parte autoficcional, ie, que mistura ficção com partes da identidade do seu autor e isso é aferível, a partir do que as badanas do livro informam sobre a sua biografia. Mas escusamo-nos de afirmar que conhecemos Virgílio Sitole, por termos lido o seu livro.
Esguelhas da alma é dedicado a várias pessoas, incluindo Tchembene e Nkapana, seus pais. O último texto deste livro tem como narrador alguém que se diz filho destes dois, portanto, irmão do autor, que lhe fez um texto laudatório. Nesse contexto, quem desejar saber mais sobre o autor deste livro, deve ler o texto intitulado “’estórias’ de vida”, que termina em “siyavuma”. Reforçando e já terminando, diria: Virgílio Sitole, segue confiante! Parabéns!
Obrigada por nos recordar que, sendo o esterco do mundo, podemos reflectir sobre nós e melhorar a nossa condição humana.
Sara Jona Laisse. Membro do Graal, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs — saralaisse@yahoo.com.br.
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