AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Cruz, Bíblia

Evangélicos: perder visão de gueto, largar a depressão e recobrar sentido de missão

| 27/05/2019

Evangélicos: perder visão de gueto, largar a depressão e recobrar sentido de missão

by | 27 Mai 19 | Cristianismo, Destaque 2, Newsletter diária - título, Últimas

Uma cruz feita com Bíblias: é preciso hoje um “catolicismo reformado, um protestantismo que repense o seu lugar no mundo e um pentecostalismo amadurecido”. Foto © Timóteo Cavaco

 

Para que os evangélicos possam vencer os desafios do secularismo, há necessidade de perder a visão de gueto e desenvolver uma linguagem contextualizada, encontrando novos paradigmas de acção e relação com as novas realidades da sociedade contemporânea. Esta foi uma das conclusões principais do encontro Fé na Cidade, que decorreu em Lisboa.

A iniciativa pretendeu “reflectir sobre a realidade” de um ambiente social “cada vez mais laicizado” e “encontrar caminhos” sobre o modo como os cristãos evangélicos devem enfrentar o fenómeno da secularização, como dizia ao 7MARGENS o pastor António Rodolpho, da Igreja Baptista Vida Nova, de Cascais, um dos responsáveis pela iniciativa.

Jorge Humberto, pastor da Assembleia de Deus, referia no final a importância de conhecer dados estatísticos sobre a realidade. “Eles são uma ferramenta fundamental para compreender quem são as pessoas que vivem na Área Metropolitana de Lisboa” (AML) e o seu conhecimento é “decisivo para a definição de estratégias de alcance da cidade”.

Os últimos estudos apontam precisamente para o crescimento dos evangélicos, como se concluía em 2011, no inquérito sobre Identidades Religiosas em Portugal, coordenado por Alfredo Teixeira.

No ano passado, no estudo sobre Identidades Religiosas na Área Metropolitana de Lisboa, feito por uma equipa liderada também pelo professor da Universidade Católica, concluía-se: “Ainda que estatisticamente não seja tão expressivo, 9,2% dos indivíduos declaram uma identificação religiosa não católica. As minorias religiosas na Área Metropolitana da Lisboa apresentam, aqui, um peso percentual semelhante ao do estudo de 2011 na Região de Lisboa e Vale do Tejo (9,6%). Uma análise mais particularizada dos vários grupos parece indicar que, em alguns deles, pode existir até um ligeiro decréscimo, fruto dos efeitos de remodelação das identidades nas segunda e terceira gerações e das dinâmicas dos fluxos migratórios. Os grupos mais ativos, como uma boa parte dos evangélicos, revelam melhores condições de autorreprodução e de crescimento.”

Os números, resumia ainda Jorge Humberto, retratam também um conjunto de práticas no âmbito da vida religiosa, valores éticos, prática de oração e frequência de culto. Apesar de se verificarem algumas variáveis, “há uma convergência  nas crenças fundamentais”.

De qualquer modo, o pastor da Assembleia de Deus notava as dimensões positivas que o Estado laico e a secularização trouxeram, com a possibilidade de os evangélicos agirem em liberdade. No reverso da medalha, está a secularização das próprias práticas religiosas dentro das comunidades crentes: “A secularização não está no conteúdo da crença, mas na forma como essa crença é expressa.”

Sobre os efeitos da secularização nas comunidades evangélicas, notava que eles “são visíveis nos evangélicos, o que se traduz num distanciamento entre a vida prática e o que se diz acreditar”. E acrescentava: “Também por uma visão hedonista que valoriza a satisfação e a felicidade do momento e porque se manifesta no perigo de o Evangelho se tornar numa ferramenta de satisfação apenas imediata.”

Jorge Humberto sintetizava: “A cultura é o texto que todos nós redigimos. É fundamental ler o texto cultural que consciente ou inconscientemente todos escrevemos, à luz de uma compreensão da exegese do texto escrito.”

 

Iniciativa impossível há 20 anos

O encontro decorreu a 8 de Maio, na Assembleia de Deus de Benfica, em Lisboa. Nele participaram algumas dezenas de pastores e líderes evangélicos, mas também alguns católicos e responsáveis de igrejas protestantes históricas. Numa intervenção sobre “O impacto da secularização no cristianismo evangélico, a socióloga Helena Vilaça, da Universidade de Porto, e que participou também no estudo referido, caracterizou algumas mudanças no protestantismo e na sua corrente evangélica.

“O protestantismo histórico adoptou o ecumenismo” ao mesmo tempo que “desistiu do proselitismo”, afirmou. Simultaneamente, as comunidades da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) acabaram por entrar num forte espírito de gueto. “Há 20anos, era impossível estar aqui como nesta assembleia”, notou. No momento conclusivo, António Calaim, presidente da AEP, também sublinharia o facto de o encontro ter reunido investigadores e líderes religiosos, a academia com os evangélicos, “o que nem sempre acontece”.

Outras transformações seriam ainda apontadas pela socióloga: o aumento de escolaridade dos pastores e dirigentes evangélicos; o “evangeliquês” que as igrejas do protestantismo histórico ou dos grupos evangélicos adoptam quase sempre; o facto de os cristãos (incluindo católicos) ainda estarem presos às dicotomias esquerda/direita ou progressista/conservador, que vêm da Revolução Francesa; a falta de aposta nos jovens na maior parte das comunidades locais; e um panorama generalizado de “desânimo e frustração”, entre os líderes de muitas comunidades, o que é pouco animador”.

A questão da depressão e os modos como se pode chegar às pessoas marcariam, aliás, parte do debate. Numa região como a da AML, com cerca de 2,8 milhões de habitantes, cinco por cento são evangélicos. O que implica o desafio de saber como é que a mensagem pode tocar essas pessoas, referia Jorge Humberto na sua síntese final.

Mário Rui Boto, da Hillsong, comunidade que tem a música como instrumento privilegiado de evangelização, disse que esse clima depressivo “não é propício para a juventude”. Acrescentando que há uma relação entre o “estado anímico do pastor ou líder e a comunidade que ele dirige”, perguntava como se pode “anunciar a Boa Nova com esse estado anímico”.

 

Inclusão não é prémio para conversão

Num dos debates da jornada, e falando sobre situações de pessoas que estão ainda à procura da fé, Mário Rui Boto defendia que a possibilidade de inclusão não pode ser um “prémio para a conversão”. A inclusão, acrescentava, “pode ser o primeiro passo para a conversão”. E o “perigo é usar a inclusão como prémio para a mudança”. A Hillsong mereceria mesmo um elogio de Tiago Cavaco, pastor da Igreja Baptista da Lapa (Lisboa): “É a igreja mais desavergonhadamente igreja, apesar de não ter esse nome.”

Alfredo Abreu, do Serve The City (STC), movimento de integração de pessoas marginalizadas, dizia ser necessário saber “onde estão os anseios, as esperanças e as dores” das pessoas. E afirmava que “a pergunta mais difícil é: porque perdemos todas essas pessoas” que estão à margem da sociedade ou das igrejas.

O próprio manifestou-se surpreendido com o trabalho do STC: “Em oito anos, mobilizámos 15 mil pessoas e, em 2018, trabalhámos com 140 organizações diferentes, o que significa que alguma coisa atrai as pessoas.” E acrescentava, sobre o trabalho da organização: “Não há uma técnica, há entrega e sacrifício. O grande pecado da(s) Igreja(s) contemporânea(s) é a generalização da mensagem, quando a evangelização foi feita para ser particularizada.”

João Martins trouxe outras experiências que tocam também aspectos sociais. Tendo já dirigido o Desafio Jovem, instituição de apoio a toxicodependentes, é hoje o responsável da Casa da Cidade, comunidade “muito heterogénea”. Ali estão pessoas abaixo dos 45 anos, em média; pessoas com cursos superiores ou sem-abrigo; ou evangélicos sem pertença a uma comunidade local que iniciaram na Casa da Cidade um processo de integração.

Os pequenos grupos, diz, têm um papel importante na dinamização da comunidade e por isso não se deve “ter medo de que as pessoas participem antes de pertencer”. E, acerca do debate sobre a depressão dos líderes, diz que deve ser motivo de preocupação.

Tiago Cavaco acrescentou ainda que qualquer responsável se deve sentir mais incomodado com as perguntas das pessoas, para não se ficar apenas com os anseios. “Uma igreja cristã não deve ter outro anseio senão ser ela própria.”

Alcir de Souza, do Seminário Teológico Baptista, também insistiu na ideia da missão como “sair de si: todo o relato bíblico é a emancipação da religião e a cruz é a religião da história e não do templo”. O percurso teológico ocidental, durante muito tempo, olhava muito para si mesmo, analisou, propondo ser necessário, para os tempos de hoje, um “catolicismo reformado, um protestantismo que repense o seu lugar no mundo e um pentecostalismo amadurecido”.

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This