Quando foi a última vez que ouviu alguém dizer “frugalidade”? Falo da palavra dita com seriedade, como quem assume um ideal de vida. Pois, provavelmente, nunca, ou raras vezes, porque frugalidade é uma daquelas palavras que, por não ser dita e vivida, poucos sabem o que é e o que quer dizer. E quando alguém a diz, o mais comum é ouvir: “Frugalidade? Isso é o quê?”
Eu já não ouvia esta palavra há anos. Sei que a primeira vez que a ouvi/li era uma jovem adolescente, quando li Os Maias, do Eça de Queirós, e lembro-me porque na altura fui ao dicionário ver o significado. Voltei a ouvi-la no encontro de leitores do 7Margens em Lisboa. Fiquei interiormente eufórica. Sou fascinada pelas palavras e alguém tinha acabado de pronunciar uma palavra em desuso, ó melodia para os meus ouvidos!
Nos dias de hoje, frugalidade é o tipo de palavra que não interessa dizer em jantares, senão, experimente pronunciá-la entre amigos que discutem um novo modelo de carro, um restaurante da moda ou o último gadget que “mudou a sua vida”, o silêncio que se segue é quase religioso. Frugalidade? Mas que falta de entusiasmo, que falta de ambição, que falta de… consumo. Pronunciá-la em público é como confessar que toma banho de água fria, que come tostas sem abacate e recicla papel de embrulho no Natal.
Frugalidade não se pode dizer em voz alta, é altamente subversiva, uma ameaça ao PIB. É uma ideia que não dá lucro, destruidora de campanhas de marketing. Provoca alergia aos centros comerciais e faz os algoritmos entrarem em pânico. Não se pode viver com menos, isso desequilibra o universo. O planeta gira em torno do consumo e se alguém decide parar de comprar há uma estrela que colapsa.

“Viver de forma frugal não é pobreza, é escolha.” Foto: Frugalidade – comprar com consciência. © Site “Dr. Money”
A frugalidade tornou-se assim numa espécie de criatura mitológica: diz-se que vive na montanha, alimenta-se de lentilhas e dorme nos lençóis herdados da avó. Quem fala dela pode vir a ser acusado de radicalismo doméstico.
A palavra frugalidade soa a coisa antiga, a sopa de ontem, a casaco herdado. Chega a ser ofensiva. Viver com menos, hoje, é um insulto à lógica do mais: mais rápido, mais caro, mais novo, mais tudo. E no meio desse mais, a frugalidade encolhe-se e torna-se suspeita: quem vive com pouco está em crise, é excêntrico, ou está a tentar dar lições de moral.
Viver de forma frugal não é pobreza, é escolha. É saber que não precisamos de três versões da mesma camisola, nem de um frigorífico que fale connosco. É perceber que o silêncio vale mais do que o ruído e que o pão com manteiga pode ser um luxo se partilhado com quem amamos.
Claro que há quem diga que isso é conversa de quem nunca passou por necessidade, mas não confundamos: frugalidade não é ausência. É presença. É atenção. É liberdade. É o gesto de quem olha para o mundo e diz: “Não preciso de tudo, só do que me faz falta”.
Apesar da sobriedade, a palavra frugalidade tem alguma beleza na sonoridade. Talvez a devêssemos recuperar, para a poder dizer, e viver, para a repetir: frugalidade, assim mesmo, com todas as sílabas. Porque ela incomoda, desafia, expõe o absurdo de um sistema que nos ensina a medir o sucesso pelo volume de coisas acumuladas, pelo número de carros na garagem, pela quantidade de relógios e pares de sapatos, até pelo número de folhas do papel higiénico, mesmo que isso implique que nos falte tempo, saúde ou sentido.
Numa próxima vez, se alguém te perguntar como vives, experimenta dizer: “Com frugalidade”. Mas depois foge, porque vão tentar convencer-te a aderir a um crédito pessoal ao consumo e a subscrever uma app para gerir a tua frugalidade, na versão premium, claro.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










