«É uma espécie de tsunami interminável… Quando se julga que a onda passou, vem outra… E outra…» Uma amiga disse-me estas palavras, a propósito da sua vida e dos seus, pouco antes de me sentar numa sala de cinema para ver Flow. E não é que o filme começou e as palavras ficaram a ecoar pela tarde?
Outra amiga tinha-me aconselhado com veemência a ver o filme numa sala de cinema, nada de televisões e muito menos computadores. E não é que tinha toda a razão?
Boas e proféticas amigas.
Flow – À deriva (2024) é um filme de animação de Gints Zilbalodis e narra visualmente (há sons, e bem trabalhados, mas não há diálogos) as peripécias de um gato que diríamos preto, mas que não o é, uma vez que o autor já veio esclarecer que se trata de um gato cinzento-escuro. De notar também que o filme foi totalmente realizado em software de código aberto (software licenciado para ser transformado e distribuído de graça) e ganhou o Óscar para Melhor Filme de Animação, em 2025.
E eu vi muita bíblia ali. Suspeito que tal não terá sido intencional da parte do autor… Ou foi? Ou estarão essas imagens tão entranhadas na imaginação, que nem sabemos de onde vêm? Ou sou eu que encho das minhas referências os filmes alheios?
É a história de um gato e de um conjunto de animais que vão sobrevivendo a um dilúvio numa pequena embarcação. Não há sinal de humanos, pelo menos no presente, embora surjam muitos vestígios de obra de mão humana.
O gato vive num lugar que parece um templo à presença dos gatos, construído por alguém com alma egipcíaca de culto ao gato-deus.
O gato e os seus companheiros vão partir numa longa viagem em busca da sobrevivência – em busca da vida que está para lá da impossibilidade. O mar não se abre, muito pelo contrário, as vagas não param de subir. «Quando se julga que a onda passou, vem outra… E outra…».
O filme está cheio de cor e de quadros bonitos, e prossegue sem o ritmo empolgado que estamos habituados a ver na animação comercial. Se me perguntarem, diria que é aconselhável para crianças a partir dos cinco anos. Foram muitas as crianças dessa idade, e mais velhas, assim como adultos, que naquela tarde de domingo encheram a sala de cinema.

“O gato e os seus companheiros vão partir numa longa viagem em busca da sobrevivência – em busca da vida que está para lá da impossibilidade.” Imagem retirada do Trailer Oficial do filme (versão portuguesa)
Tempos antes, um menino de quatro anos, junto de quem procurei conselho, não me tinha recomendado o filme. Causou-lhe ansiedade, percebi. «Tem muita água. E a baleia…» Também ele estava cheio de razão.
E agora é spoiler: há mesmo uma baleia. Enorme, magnífica, ancestral. Quando todos se tolhem, encurtados na incerteza da sobrevivência, a baleia passeia-se pelas águas primordiais, com a sua imponência e os contornos de animal que carrega tempos onde a nossa memória não chega.
Voa a mente para Job: «Sobre a terra, nada se lhe compara, pois foi feito para não ter medo[1].». Olhamos com assombro a beleza desta criatura que parece em casa, no meio daquilo que para os outros se afigura à morte.
Ao longo da viagem, os animais vão-se humanizando, mais e mais. O gato partilha alimento com os companheiros (peixes). Há um companheiro que se sacrifica em prol de outro e, mais tarde, ascende a dimensões que os olhos de gato já não podem vislumbrar…
O medo e o instinto de sobrevivência, que poderiam tomar conta de tudo e levar apenas ao impulso para a violência, vão-se transfigurando nas possibilidades do amor, ao longo da viagem pelas águas mortíferas, iniciáticas, renovadoras. A animalidade instintiva é integrada, há uma pacificação da criatura.
E quando a paz volta para muitos, por alguma razão não volta para todos (não vou desvendar o final do filme, pelo menos esse detalhe fica intacto). Mas, para mim, tem imagens bíblicas por ali também.
O reino de Deus está aqui. É preciso saber vê-lo e isso falha (falhamos). Ter olhos, não de lince, mas de gato. Redondos, como esta casa à beira do abismo.
Flow – À Deriva
Gints Zilbalodis, Letónia, França, 2024
Aventura/Infantil, 85 minutos
[1] https://conferenciaepiscopal.pt/biblia/prov/22_Jb.pdf
Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.










