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Folhas Caídas. Filme

Folhas Caídas: A simplicidade profética do cinema

| 01/02/2024

Folhas Caídas. Filme

“Apesar de ser, verdadeiramente, uma belíssima história de descoberta do amor e da sua dificuldade, depois daquele inesperado encontro de olhares no bar de karaoke, que leva Holappa e Ansa a pensarem que a vida ainda não lhes tinha revelado tudo, Folhas Caídas é também uma denúncia dos ‘tempos modernos’ que vivemos e que, afinal, não melhoraram a vida das pessoas.” Foto retirada do Trailer do filme.

 

“Não há mil maneiras de o dizer: ‘Folhas Caídas’ é o grande cinema, a grande arte, o grande filme indignado que nos enche os corações de ânimo e de esperança nestes anos 20 cinzentões que estamos a atravessar.” (Francisco Ferreira, Expresso-Revista, 11.01.2024)

Parece-me que estas palavras poderão ser uma boa forma de tentar seduzir espectadores para este filme, o quarto filme de uma ‘Trilogia dos Losers’, segundo brincadeira do próprio realizador finlandês, Aki Kaurismäki. (cf. ípsilon, Público, 12 Janeiro 2024)

Folhas Caídas é um filme breve (“Acho que as pessoas gostam, especialmente os críticos, porque é um filme curto, dura 81 minutos… fartos que estão de filmes de três horas”, ípsilon), com poucas palavras, mas uma intensidade de imagens e de olhares encantatória, que mostra uma estranha história de amor entre um metalúrgico alcoólico (cuja vida se resume a trabalhar, beber e dormir) e uma mulher que precisa de trabalhar e trabalha no que for preciso (começamos por encontrá-la empregada num supermercado, depois a lavar loiça num bar e ainda operária numa fundição). Ambos são pessoas solitárias, ambos sentem o peso da solidão e ambos sofrem a precariedade dos seus empregos e experimentam o desemprego. E ambos, mais ele do que ela, vão levar tempo a sair de si mesmos para se entregarem ao outro e perceberem como podem ser importantes um para o outro. É esta viagem de descoberta interior, “através da quietude dos planos, da imobilidade dos corpos, dos gestos muito essenciais” (ípsilon) que podemos acompanhar, com uma vontade enorme de entrar no filme, fazer parte daquelas vidas e ajudá-los a tomar a decisão. Parecem sempre tão desamparados. E, no entanto, não são pessoas angustiadas: “São pessoas que têm de trabalhar, não são preguiçosas, mas não penso que pertençam à working class no sentido político. Não me parece que pertençam a um sindicato… não é um filme sobre pessoas com consciência social… É um filme sobre proletários, sim.” (ípsilon)

São, pelo contrário, pessoas de uma simplicidade desarmante, justas, de uma grande verdade e serena tranquilidade, de uma profunda dignidade, apesar das suas fragilidades e das injustiças da sociedade, que o realizador filma ‘à mais justa distância… com a honradez de um olhar, uma pureza intacta’ (Expresso-Revista) – como se pintasse ou escrevesse poesia.

Apesar de ser, verdadeiramente, uma belíssima história de descoberta do amor e da sua dificuldade, depois daquele inesperado encontro de olhares no bar de karaoke, que leva Holappa e Ansa a pensarem que a vida ainda não lhes tinha revelado tudo (“Que sentimento estranho é esse que sente? Tem de tomar uma decisão: manter o seu mundo solitário, a sua vida simples, os seus hábitos alcoólicos, ou ser capaz de se abrir ao amor e mudar a sua vida? O amor pode ser aterrador, porque traz sempre o medo de se perder o amor.” ípsilon), Folhas Caídas é também uma denúncia dos ‘tempos modernos’ que vivemos e que, afinal, não melhoraram a vida das pessoas. “Ficamos até com a prova de que hoje, nesta Europa em que há quem ouça na rádio o relato da Guerra da Ucrânia, o mundo do trabalho só piorou e que já se despede por dá cá aquela palha.” (Expresso-Revista)

Continua a haver ‘muita carne para canhão’, como sugere logo o início do filme. Por isso, Aki Kaurismäki diz com graça que ’não gosta dos tempos modernos, a não ser os do Chaplin’. E, no filme, de maneira mais ou menos ‘subtil’, podemos ver uma pequena estátua de Chaplin na mesa-de-cabeceira de Ansa, uma cadela chamada Chaplin e um final ‘à Chaplin’. Tudo isto e muito mais, como só um bom poema é capaz de sugerir. Apesar de tudo, há esperança, mesmo que muito frágil e de muletas.

 

Título: Folhas Caídas [Kuolleet lehdet]
Realizador: Aki Kaurismäki
Elenco: Alma Pöysti, Jussi Vatanen, Janne Hyytiäinen, Nuppu Koivu
Países: Finlândia, Alemanha, 2023
Comédia dramática, 81 mn

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

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