AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Francisco, juntamente com a sua mulher, Luísa, deixou uma marca indelével no meio cinematográfico internacional desde o final da década de 1960 até à primeira década do século XXI. Foto: Direitos reservados.

Francisco Perestrello

Força motriz da imprensa cinematográfica de raiz cristã em Portugal

| 03/03/2024

Francisco e Luísa Perestrello

Francisco, juntamente com a mulher, Luísa, deixou uma marca indelével no meio cinematográfico internacional desde o final da década de 1960 até à primeira década do século XXI. Foto: Direitos reservados.

 

Francisco Perestrello foi uma das figuras notáveis da OCIC (Organização Católica Internacional do Cinema) e, mais tarde da SIGNIS (Associação Mundial Católica Mundial para a Comunicação), nomeadamente na sua secção europeia. 

Juntamente com a sua mulher, Luísa, deixou uma marca indelével no meio cinematográfico internacional desde o final da década de 1960 até à primeira década do século XXI. Na década de 1960, Portugal contava como uma já longa tradição de filiação na OCIC e na Unda (Associação Católica Internacional para a Rádio e a Televisão), desenvolvendo uma ação católica na rádio e no cinema desde 1937, ano da publicação da encíclica Vigilanti Cura.

Com o envolvimento do Francisco, a Ação Católica Portuguesa no cinema e a sua publicação, o Boletim Cinematográfico [ver texto de Carlos Capucho no 7MARGENS] – a mais pequena, mas mais apreciada revista de cinema do mundo lusófono – tornam-se novamente parte integrante da OCIC, especialmente na Europa. Sempre acompanhado da Luísa, participam em numerosos congressos mundiais da OCIC entre 1970 e 2009 destacando-se nas reuniões da OCIC-Europa. Francisco ganha um respeito generalizado como membro de júris católicos internacionais (júris OCIC) com presença nos mais prestigiados festivais internacionais e atribuição de prémio próprio, exercendo frequentemente uma influência significativa na seleção dos vencedores. Proficiente em inglês, francês e espanhol, possui uma vasta cultura geral e um profundo conhecimento da cultura cinematográfica em particular, demonstrando uma empatia e sensibilidade notáveis relativamente à sétima arte, não obstante afirmar sempre a sua formação académica de engenheiro com destacada carreira profissional na multinacional Xerox.

Em 1967, Francisco integra pela primeira vez um júri no Festival de Cinema de San Sebastian. Para grande surpresa das conferências episcopais portuguesa e espanhola e da organização do festival, o júri OCIC atribui o seu prémio a Jovita, filme de Janusz Morgenstern produzido na Polónia comunista. Uma escolha algo profética e uma subtil afirmação da persistência dos valores cristãos do outro lado da Cortina de Ferro, como símbolo da resistência cultural ao regime comunista.

Francisco regressará nove vezes a San Sebastian nas duas décadas seguintes.

No congresso da OCIC-Europa de 1988, Francisco desempenha um papel chave na revitalização da organização, algo esmorecida nos anos anteriores.

 

OCIC, uma mais-valia

Francisco Perestrello, Cinema

Francisco Perestrello (1938-2024), dinamizador do “Boletim Cinematográfico” e do Cinedoc. Foto: Direitos reservados

 

O primeiro Fórum Mundial de Vídeo Educativo de Lisboa, realizado em Outubro desse mesmo ano, tem a sua colaboração [a iniciativa foi promovida pela OCIC e organizada localmente pela Logomédia – Centro de Produção Audiovisual, entidade da Federação dos Institutos Religiosos, tendo os dois formadores/realizadores da instituição, Carlos Capucho e Manuel Vilas Boas, liderado o processo de organização]. Para além deste, empenha-se na integração de um Júri OCIC no então emergente Festroia- Festival Internacional de Cinema de Troia em Setúbal. Um passo e um laço notáveis, reveladores da visão e abertura de espírito de ambos os protagonistas, dado o presidente do festival, Mário Ventura, não ser católico nem ter ligação ou particular afinidade com a Igreja. Não obstante, é a constatação da mais-valia que a OCIC representa para o festival, pela natureza puramente cristã dos valores que o prémio enaltece e incentiva na produção cinematográfica e, pela abertura com que reforça a presença de filmes de qualidade de países longevos sem acesso ao circuito comercial, que convencem Mário Ventura a abrir a porta à Organização. 

O empenho de Francisco Perestrello produz um significativo impacto nas relações entre a Igreja e o meio não crente local: no contexto do festival, promove encontros anuais entre D. Manuel Martins, bispo de Setúbal, e Mário Ventura, forjando uma amizade entre ambos. Dom Manuel virá a convencer Ventura a deslocar o festival de Troia para Setúbal como parte integrante da política cultural da cidade. 

Combinando a paixão pelo cinema, a crescente missão de estreitar laços entre a Igreja e o mundo da sétima arte e o know-how profissional no setor da tecnologia da informação e documentação, Perestrello cria e dirige o Cinedoc – Centro de documentação cinematográfica e audiovisual focado em quatro áreas essenciais: 

1. A preservação e contínuo enriquecimento do vastíssimo arquivo documental cinematográfico pessoal, a que se acrescenta o arquivo do Boletim Cinematográfico; 

2. A criação e carregamento permanente de uma base de dados pioneira, até hoje única no país, com registo do percurso de todos os filmes que correram em Portugal, desde os primeiros tempos; 

3. O acompanhamento da atualidade cinematográfica com a redação e publicação de crítica própria (cinedocfilme), fornecimento de informação e criação de conteúdos para múltiplos media e festivais; 

4. A representação oficial da OCIC, mais tarde integrada na SIGNIS, em Portugal com presença constante em júris de festivais nacionais e internacionais por todo o mundo. 

Com o Festroia, a OCIC, agora representada pela vitalidade do Cinedoc, intensifica a colaboração como consultora de programação.

Francisco Perestrello simbolizou a essência da Ação Católica no Cinema: cultivando um jornalismo católico ativo, aceite e respeitado na comunidade cinematográfica nacional. 

Para si, o importante não era promover um cinema católico militante ou catequético, mas sim a elevação dos valores humanos enraizados em princípios cristãos. E a presença nos festivais, como o Festroia, viria a constituir um precioso campo de treino para jovens jurados da OCIC.

 

A presença de um jornalismo cinematográfico católico

Capa e fichas do BC: o boletim surgiu como órgão oficial do Secretariado do Cinema e da Rádio. Foto: Direitos reservados. 

Capa e fichas do BC: o boletim surgiu como órgão oficial do Secretariado do Cinema e da Rádio. Foto: Direitos reservados.

 

Fruto do excelente relacionamento entre ambos os protagonistas, a OCIC organiza o primeiro Encontro de Jovens Críticos Católicos em Setúbal, contando com mais de 40 participantes, metade dos quais provenientes do Leste da Europa. Isto no início da década de noventa.

Fr. Ambros Eichenberger, presidente da OCIC, enalteceu Francisco pela orquestração do mais bem-sucedido encontro de cinema que alguma vez testemunhara, sublinhando que tal teria sido impossível sem o seu papel e sem o suporte financeiro do festival.

Entre 1988 e 2015, tive o privilégio da companhia do Francisco, anualmente, em Lisboa e em Setúbal, onde convivíamos diariamente ao longo de uma semana. No princípio, as nossas conversas centravam-se na importância capital da base de dados que estava a construir com a equipa do Cinedoc, ainda o IMDB (International Movie Data Base) não existia. O Francisco reforçava o atento registo e arquivo de publicações de cinema dos membros da OCIC, sobretudo europeus, na base de dados. Fez a revisão e deu importantes contributos de conteúdo para grande parte do livro de escrevi em 2011 sobre Cinema Moçambicano. 

Num olhar retrospetivo, o Francisco foi uma força discreta, mas motriz, nos mais de quarenta anos de existência da OCIC Mundial, da OCIC-Europa e, adiante, da SIGNIS (que congregaria as associações de Cinema, Rádio e Televisão), ultrapassando todos os obstáculos para garantir a presença de um jornalismo cinematográfico católico profissional no mundo da imprensa cinematográfica em geral. Mundo este em que os organismos oficiais da Igreja voltam hoje a estar praticamente ausentes.

De múltiplas formas, Francisco Perestrello deixa um legado intemporal, tendo sido uma inspiração para inúmeros jovens críticos de cinema, como eu.

28 Fevereiro 2024

Guido Convents é historiador e antropólogo, especialista de Cinema Africano e Belga; foi diretor de Comunicação e Coordenador do Secretariado de Cinema da SIGNIS – Associação Católica Mundial para a Comunicação (aposentado).

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Tinha 73 anos

[Olhar de teóloga]

Tinha 73 anos novidade

Decidi que, sempre que, infelizmente, escrever sobre o suicídio de um padre, vou intitular o artigo com a idade daquele que não encontrou outra saída.
Bernard Card, da diocese de Dijon, em França, suicidou-se na casa paroquial. Ao que parece, era um padre activo, envolvido em várias atividades diocesanas e de trato fácil e próximo. [Texto de Cristina Inogés Sanz]

Menos grelhas para preencher, mais pensamento em conjunto? O desafio da colaboração nas escolas

[Entre o quadro e o mundo (32)]

Menos grelhas para preencher, mais pensamento em conjunto? O desafio da colaboração nas escolas novidade

Ter reuniões marcadas, tempo reservado nos horários e instrumentos para registar o trabalho conjunto não significa necessariamente que exista colaboração entre professores. No novo episódio do podcast “Entre o Quadro e o Mundo”, Luís Francisco Marques questiona uma escola cada vez mais capaz de organizar e medir o que é feito por todos, mas nem sempre capaz de criar uma cultura em que os professores pensem verdadeiramente em conjunto.

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.