
Frei Bernardo no Dia da Profissão. Foto DR
O Natal é, para Frei Bernardo de Vasconcelos, muito mais do que um simples momento de festividade. É um mistério profundo que convida à contemplação, ao amor e à transformação interior. Nas suas reflexões sobre o Natal, contidas no livro As Nossas Festas, Frei Bernardo apresenta o nascimento de Cristo como a expressão máxima do amor divino e um apelo à humanidade para redescobrir a sua ligação com Deus e com os outros. Este ensinamento, tão rico em significado espiritual, continua relevante nos dias de hoje, ainda que enfrente alguns desafios significativos.
Para Frei Bernardo, o Natal é o ápice do plano divino, em que Deus, por amor, escolhe encarnar na figura de Jesus Cristo. O mistério da Encarnação, que ele descreve como a união da natureza divina com a humana, é visto como um gesto sublime de proximidade: “Deus ama-nos tanto que não hesita em dar o seu próprio Filho Unigénito”. Neste ato, Deus não só se faz próximo, mas escolhe a humildade e a simplicidade como forma de alcançar a humanidade. Frei Bernardo sublinha que o nascimento de Cristo não acontece em circunstâncias grandiosas, mas sim numa “caverna natural aberta em rochedos”. Esta escolha divina pela pobreza material, longe de ser casual, carrega uma lição poderosa: a verdadeira riqueza não está nas posses, mas na plenitude do amor e da graça.
Esta mensagem de simplicidade e humildade chama-nos à reflexão sobre a forma como vivemos o Natal nos dias de hoje. A época natalícia, frequentemente associada ao consumo desenfreado e a uma superficialidade social, muitas vezes afasta-nos do essencial. Celebrar o Natal, implica um regresso à sua essência: a contemplação de Jesus como o Verbo Encarnado que escolhe a humildade para nos ensinar o verdadeiro significado da vida.
Outro ponto central nas reflexões de Frei Bernardo é a ideia de união. Ele vê o nascimento de Cristo como o momento em que a humanidade é misticamente unida a Deus. “Cristo é o primogénito duma multidão de irmãos, que Deus torna participantes da sua natureza”, escreve, sublinhando que a Encarnação não é um evento isolado, mas um ponto de partida para a inclusão de toda a humanidade na família divina, destacando a necessidade de viver o amor ao próximo como uma extensão do amor a Cristo, “Só caminharão, se, vencendo o egoísmo, se derem sem medida ao próximo”.
Vivemos numa era marcada pelo individualismo o que muitas vezes obscurece o espírito de comunhão que o Natal deveria promover. Embora a solidariedade seja uma palavra frequentemente evocada durante esta época, Frei Bernardo alerta que ela não pode ser superficial. Amar ao próximo, na visão cristã, exige esforço, entrega e superação de barreiras pessoais, como ressentimentos e antipatias. “Uma alma progredirá tanto mais, quanto mais repugnâncias, antipatias, ressentimentos, tiver de vencer na prática do amor ao próximo”, recorda, deixando claro que a verdadeira vivência do Natal requer compromisso e transformação interior.
Outro aspeto crucial nas reflexões de Frei Bernardo é a “santa infância cristã”. Ele vê na figura do Menino Jesus um exemplo de pureza, humildade e obediência, características que devem ser cultivadas pelos cristãos. No entanto, na sociedade atual, marcada pelo orgulho e pela competição, este chamamento à simplicidade e à entrega pode parecer um desafio inalcançável.
Apesar das dificuldades, Frei Bernardo oferece uma mensagem de esperança e renovação, recordando-nos que através de Cristo, todos podemos aproximar-nos de Deus, independentemente das nossas falhas e limitações. “Sem Ele nada podemos, mas tudo poderemos com Ele”, afirma, encorajando os cristãos a confiarem plenamente na graça divina. Para ele, o Natal é uma oportunidade de nos apoiarmos em Cristo, permitindo que Ele nos transforme e nos guie para uma vida mais plena e verdadeira.
A mensagem de Frei Bernardo, embora profundamente enraizada na teologia cristã, oferece reflexões universais que podem inspirar a vivência do Natal em qualquer contexto. Num mundo onde o materialismo e a pressa frequentemente dominam, o seu apelo à contemplação, à simplicidade e ao amor ao próximo é um lembrete poderoso do que realmente importa. Além disso, a sua insistência na união com o Corpo Místico de Cristo, que inclui toda a humanidade, é um chamado à solidariedade e à empatia, valores que são fundamentais não apenas na fé cristã, mas também na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Por fim, Frei Bernardo convida-nos a redescobrir o verdadeiro significado do Natal. Como ele próprio proclama, “Cristãos, alegremo-nos no Senhor; sim, alegremo-nos sempre, que ‘o Verbo encarnou e habitou entre nós!’”. Que esta alegria, que nasce do reconhecimento da humildade e do amor divino, nos inspire a viver o Natal com autenticidade, superando os desafios da modernidade e permitindo que o espírito de Cristo renasça em cada um de nós.
NR: Sobre Frei Bernardo de Vasconcelos ver 7MARGENS: O “caso” frei Bernardo de Vasconcelos: 100 anos da sua vocação monacal e uma carta e Frei Bernardo de Vasconcelos e o I Congresso Eucarístico Nacional (1924)
Hugo Peixoto Henriques é Vice-Postulador da Causa de Frei Bernardo de Vasconcelos.










