A pintora Graça Morais encontrou uma enxada velha e enferrujada na terra, já sem vestígios do cabo, e, com mais uma série de outros objetos, sobretudo da natureza, criou uma nova exposição que acaba de abrir no Centro de Arte Contemporânea que tem o seu nome, na cidade de Bragança. Em declarações à jornalista Sandra Sousa, do Jornal2 da RTP, relacionou o tema que une os trabalhos expostos – ‘A Natureza e a Graça’ – com os tempos de “diabos à solta” que estamos a viver.
A pintora reconheceu que ficou bloqueada com o que se tem passado no mundo. “Nos últimos tempos, explica ela, eu acho que temos sido tão agredidos com imagens tão violentas, tão violentas, de uma maldade tão grande, como eu nunca imaginei, ou seja, eu já imaginei porque nós sabemos que, ao longo da história há anjos e há diabos, não é? Neste momento soltaram-se os diabos”.
O que ela não deixa de fazer, uma constante das mais recentes exposições, é prestar atenção ao mundo e questionar-se “não só sobre aquilo que acontece de mal, mas também sobre muita coisa boa que acontece no mundo”.
Confrontada com o referido bloqueamento, a artista respondeu, como de outras vezes, ao “apelo em relação à terra onde nasc[eu] e em relação à natureza”. “Rodeei-me daquelas pequeninas coisas, objetos simples, daquilo que está no meu ateliê… Os objetos que nós guardamos em casa e que realmente estão cheios de simbologia, trazem-nos memórias…”.
Perante “um mundo tão perturbado como o nosso, com uma Europa em grande aflição… porque de repente isto descamba tudo e não sabemos para que lado vai”, Graça Morais põe-se a desenhar numa pequena mesa e a pintar todos esses objetos aparentemente irrelevantes – as romãs, as azeitonas, as folhas, os tomates que o irmão lhe trouxe, mas que ela passa para a tela, antes de os comer. E há ainda as perdizes. Porque “a nossa vida… nós não sabemos quanto tempo andaremos neste mundo e, por isso, há um lado precário da vida que realmente eu pinto através destes animais que são as perdizes”.
Por estes caminhos a pintora faz o seu caminho de “cura de silêncio e solidão”, como reconhece no texto que acompanha a exposição. Mas através destes registos faz também “um inventário de uma história coletiva”. “Acho que quero oferecer às pessoas aquilo que é o mais simples da vida”, declara ela à jornalista.

A pintora Graça Morais na inauguração da exposição A Natureza e a Graça. Foto © Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
Do que Graça Morais não gosta é de ficar fechada – no seu ateliê ou em si mesma. “Eu estou sempre a surpreender-me com coisas novas”, revela. E a arte (assim como a ciência) questionam e “podem [ajudar a] criar uma nova humanidade e nós todos precisamos disso porque estas forças que estão a acontecer por todo o mundo – e que é uma coisa que alastra – são muito inquietantes e nós temos que dar força e a força é através da música, da escrita, do pensamento, sobretudo…”.
Alargando o âmbito deste contributo da arte, a artista confessa: “Eu acho que só nos salvamos desta tragédia iminente que estamos a sentir no mundo através da arte e através das relações interpessoais, de estarmos cada vez mais agarrados uns aos outros, porque estes nossos pequenos mundos dão-nos a força para aguentar a grande paranoia de certos seres que são verdadeiros diabos que estão a atormentar-nos”.
A Exposição ‘A natureza e a graça’, com cerca de 80 peças, na sua maioria originais, está patente no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, no centro histórico de Bragança, até 15 de junho deste ano de 2025, de terça a domingo, entre as 10h e as 18h30. Teve a curadoria da própria pintora e do coordenador artístico do Centro, António Meireles.
(Imagem de destaque: A pintora Graça Morais fotografada junto a algumas das obras que integram a nova exposição. © Centro de Arte Contemporânea Graça Morais)
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