
Vou falar de um lugar onde se consegue perceber que existem vários mundos no mundo, mesmo em 2024, pleno séc. XXI; onde a pseudo-sofisticação não consegue enjoar de superficialidade, como no mundo dito desenvolvido; onde as dificuldades se transformam em resiliência porque a luta exigida empresta coragem a cada dia que passa; onde as picadas substituem as estradas, mesmo quando nos dirigimos a lugares paradisíacos; onde a cidade, Santo António, tem apenas quase nada para oferecer;… Até agora – pessoas fáceis, simpáticas, dispostas a agradar por bem fazer. Estamos na Ilha do Príncipe, onde se recebe uma lição de vida em cada pedaço de partilha com os residentes, parte dos quais nunca daqui saiu, apesar de trabalhar no turismo. Nestas paragens a Terra Prometida (bairro construído pela ONU, mas pago por um cidadão sul-africano que tanto tem ajudado esta ilha através da forma como investe nela e dos postos de trabalho que cria), veio dignificar o existir de muitos que, antes de ali residirem, viviam nas “casas dos serviçais”, que são lugares onde ninguém alguma vez merece ter vivido, mas onde estiveram até há poucos anos.

“Saindo da Ilha do Príncipe para São Tomé acontecem os contrastes. As estradas são francamente melhores, mas a vida mais chocante.” Foto © Margarida Cordo
Saindo da Ilha do Príncipe para São Tomé acontecem os contrastes. As estradas são francamente melhores, mas a vida mais chocante. Encontramos resquícios do passado que terá sido certamente suave e bem agradável. Hoje há muita destruição. Impressiona ver ruínas; bairros degradados; roças totalmente desfeitas com edifícios em queda. Tudo, tudo por manter. E, pior – a juventude parece viciada no ócio. Mais de 75% da população tem, de acordo com o que nos disseram, menos de 20 anos, mas parece que esta pouca idade de nada serve. Não se esforçam, não têm recursos, não são empreendedores e talvez não tenham como sê-lo., salvo muito honrosas exceções que emigraram e voltam à terra por amor a esta e aos seus.
Ao cair do dia as estradas, à beira das quais há casas ou ruínas habitadas, enchem-se de música. Enfim. A vida passa a ser festa. Claro que não se pode generalizar, mas parece que todos tentam ser ou sentir-se felizes.
A noite na cidade acontece num bar ou noutro. O resto é “deserto”.
Almoçámos, um dos dias, em São João de Angulares e conversámos com o Chefe João Silva, um grande investidor no seu país, ao que pudemos perceber. Enfim…
Numa das roças (antiga Rio do Ouro e atual Agostinho Neto) sentem-se orgulhosos de estarem com tudo muito conservado. De facto está melhor que as outras, mas o próprio hospital que, no seu tempo, foi o melhor da Ilha, está em ruínas. As contradições do tempo presente vividas em cada geografia de forma mesmo distinta.
Visitámos também várias praias e lagoas. Tudo nos mostra que a natureza é capaz de muito melhor e muito pior do que qualquer ser humano. Mas sim, em algumas (a primeira em que encontrámos foi a Praia dos Tamarindos), deparámo-nos com um letreiro que dizia assim – Não deixe nada, além de pegadas; não tire nada além de fotos; não leve nada além de saudade.
É uma lição de elegância no dizer de forma prosaica – conserve o que encontra e aprenda alguma coisa nos lugares por onde passa. Isto também é São Tomé.
Muito mais poderia dizer sobre o que deixámos por estas paragens, de onde partimos em 1975 abruptamente. No entanto, quem existia à época e por aqui viveu, diz que a degradação já tinha começado uns poucos anos antes da revolução. Teria que haver uma quase magia para refazer este lugar que, não tem recolha de lixo, passagens de peões nem saneamento básico de forma generalizada.
Apenas termino a dizer – é um destino imperdível.

“Apenas termino a dizer – é um destino imperdível.” Foto © Margarida Cordo
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt







