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[Metáforas vivas]

Hypapante: encontro com a Luz

| 03/02/2025

[Apresentação do Senhor, Festa – c 2025
Dia dos Consagrados / Dia da Universidade Católica Portuguesa]

[fogo lixívia luz / no colo da leitura / − herbário de sombras © Joaquim Félix]

 

1. Com que prazer acabamos de escutar a Palavra!
Deus fala, expondo-nos ao prazer no corpo dos textos.
Porque Ele faz-se prazer para quem, atentamente, O escuta.
Com sobreabundância de sentido,
alaga de luz os silêncios da escuta profunda
e abre-nos para a necessidade de partir em direção ao diálogo.
Não para fazer dos jogos de linguagens um espelho,
mas para inaugurar algo novo, um texto a criar, no nosso corpo.
E esse texto a criar ― corpo a viver ― nasce da contemplação,
ferida de aberturas, desconfortos e itinerâncias,
nas questões que nos deixa no corpo exposto à obliquidade da vida.
Por isso nos convoca para a clareira, a luz do Aberto.
Podemos recusar a exposição à luz da Palavra; porém, recordemos:
«Aquele que não vive do Aberto ser-lhe-á tirado o abrigo com que se cobriu»
(José Augusto Mourão, Luz desarmada,148).

2. Hoje, celebramos a festa da Apresentação do Senhor,
que, na Igreja Ortodoxa e várias Igrejas Católicas Orientais,
é também frequentemente chamada «Hypapante».
Em grego, este termo significa «Encontro».
Eis porque a Palavra de Deus nos apresenta
o encontro com a Luz das Nações, Jesus o Cristo,
cuja entrada no templo é profetizada por Malaquias (cf. Mal,3-14);
depois, meditada pelo autor da Carta aos Hebreus,
que reflete sobre o seu sumo-sacerdócio-de-proximidade
ao «tornar-se semelhante em tudo aos seus irmãos» (Hebr 2,17);
encontro, que, no Evangelho, é narrado à luz de várias declinações.

[Estação de portas altas © fotografia: Joaquim Félix]

 

3. Para as declinações abertas nos encontros do Evangelho,
gostaria de explorar uma linha de imaginação,
que parte do Salmo 23, como quem está numa estação de portas altas.
Oiçamos, abrindo-nos à novidade, a estrofe que se cantou em refrão:
«Levantai, ó portas, os vossos umbrais,/
alteai-vos pórticos antigos,/ e entrará o Rei da glória».
Será tal Rei o «Senhor dos Exércitos»,
o «Senhor poderoso nas batalhas»?
Estes eram títulos divinos no Antigo Testamento.
Não deixa, por isso, de surpreender que Malaquias,
no livro veterotestamentário de fronteira para o Novo Testamento,
no-lo apresente «como o fogo do fundidor
e como a lixívia dos lavandeiros» (Mal 3,2).
E são os dois anciãos, Simeão e Ana,
― na condição dos mais frágeis entre os frágeis ―,
a louvar a Deus e a bendizê-lo como «luz para se revelar às nações» (Lc 2,32).

4. Fogo. Lixívia. Luz.
São três metáforas que se afastam do poderio bélico.
Fundir, purificar e iluminar é a sua missão,
mas também a nossa e a de todos os consagrados;
isto é, cuidar da autenticidade no serviço cultual e nas culturas das nações.
Este é o seu sacerdócio de luz que nos cai nos braços!
Esta é a luz a derramar-se no nosso colo; por isso bendizemos!
Iluminados, perguntemo-nos: que espada nos está a atravessar a vida?
Como há de ela abrir todos os corações, a revelar os pensamentos?

5. Para tirar benefício do «sinal de contradição» (Lc 2,34),
gostaria de evocar uma experiência que poderá contribuir
para o levantamento de muitas pessoas, como alteados pórticos antigos,
e, assim, mais luz recebam, afastando-se de quedas e tropeços na violência.
Em Serralves, nos espaços do Celeiro e do Lagar,
encontra-se a exposição Herbarium Seen & Dreamed,
com várias formas de representação e de colheita de plantas.
No Celeiro, os visitantes contemplam a instalação Je/Eux d’Ombres /
Grande herbário de sombras (1972), de Lourdes Castro,
apresentado pela artista Claudia Isabel Navas.
Recordo que Lourdes Castro conseguiu obter as sombras das plantas
com o trabalho do sol, que as registou de forma heliográfica no papel.

6. Isso mesmo é o que me faz pensar o Encontro de Jesus:
assim que Simeão recebe o Menino em seus braços,
Ele que era e é a luminosa salvação para se revelar às nações
ilumina-lhe todo o corpo, tatuando-lhe os lábios,
fazendo com que ele só pudesse bendizer.
O mesmo sucede com os olhos de Ana,
que «começou também a louvar a Deus e a falar acerca do Menino» (Lc 2,38).
O Menino é o Sol nascente e o nosso corpo é o papel heliográfico.
A salvação é a presença que a sua luz libertadora grava em nós.

[Da exposição Herbarium Seen & Dreamed, em Serralves © fotografia: Joaquim Félix]

 

7. Tal como esta exposição promove a «literacia do olhar,
através da exploração das relações ecológicas
e da transformação criativa na construção de novas narrativas» (Brochura),
também a contemplação das palavras de Simeão e Ana
cultivam em nós um texto novo a contruir no nosso corpo de louvor.
No início da Eucaristia, cantámos já com as velas acesas nas mãos;
agora, porém, podemos continuar a louvar com a Luz da Palavra
caída no colo da nossa leitura, no regaço da nossa ruminação.
O prazer do texto tatua de forma luminosa o nosso corpo;
e, por isso, no final de mais um dia, cantamos bendizendo:

 

8. Preparando-nos já para O acolhermos no corpo
― que viaja no comboio que transporta a luz dentro das noites ―,
deliciemo-nos com uma parte da balada hebraica de Else Lasker-Schüler:
«Há de uma grande estrela cair no meu colo…

A noite será de vigília,//
E rezaremos em línguas
Entalhadas com harpas.//
Será noite de reconciliação ―
Há tanto Deus a derramar-se em nós» (Reconciliação).
Sim, há tanto Deus, em Menino de quarenta dias,
― e não como «Senhor dos Exércitos» (Sl 23) ―,
a derramar-se na carne do nosso corpo!

[No comboio que transporta a luz dentro das noites © fotografia: Joaquim Félix]

 

9. O encontro com a Luz, que nos tatua o colo e os lábios,
faz-nos cantar cada restituição à liberdade, obra de Jesus mediador:
de Jerusalém (Lc 2,38) e de todos «aqueles que estavam a vida inteira
sujeitos à servidão pelo temor da morte» (Hebr 2,15).
Eis porque nos regozijamos com a libertação dos prisioneiros,
como sucedeu, por exemplo, ontem de madrugada, em Gaza,
com o luso-franco-israelita Ofer Calderon.
Mas, também, de muitos palestinianos que são soltos por Israel.
Ou, como tem sucedido várias vezes entre russos e ucranianos.

10. Sem desvalorizar o cumprimento da lei, por parte de José e Maria,
nem o sumário, no final do Evangelho, sobre a vida infantil de Jesus,
creio que, em nossos dias, precisamos de sublinhar
a necessidade de valorizar a estatura de certos pórticos antigos.
Muitos desses umbrais são pessoas idosas como Simeão e Ana,
que trazem tatuados nos olhos e nos braços a salvação de Jesus, sim,
mas também, na memória, os horrores de guerras e situações difíceis.
É uma urgência colocar os netos a ouvir os seus avós,
nomeadamente as suas memórias de libertação,
para que, aprendendo delas, promovam a paz e a justiça.

11. Na passada segunda-feira,
celebrámos os 80 anos da libertação de Auschwitz,
onde, tal como noutros campos, se praticaram crimes contra a humanidade:

Recordo a efeméride, porque, nos dias que correm,
estamos a precisar de muitas outras libertações.
Por nada nos habituemos à multiplicação das guerras,
aos discursos de ódio, ao cancelamento da memória,
às imagens de pessoas com mãos e pés acorrentados…
No combate à indiferença através da promoção da liberdade e da justiça,
a Universidade Católica Portuguesa pode e deve contribuir
para que o saber seja cultivado como esperança (cf. Mensagem da Reitora).

12. Que Nossa Senhora das Candeias, nesta Hora crítica da História,
coloque em nossos braços o Menino, que é luz a revelar-se às nações.
E, tatuados, na nossa carne, com a salvação heliográfica de Jesus,
cantemos à Senhora das Candeias,
com Maria de Bethânia e os irmãos do Brasil presentes na assembleia:

«Ó mãe de deus das candeias
Mãe de deus das candeias
Senhora de tanta luz
Quem vai doente, vem são
Quem vai cego, vem com luz».

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia referente  à “Apresentação do Senhor, Festa – c 2025 // Dia dos Consagrados / Dia da Universidade Católica Portuguesa”, de dia 2 de fevereiro, proferida na Igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar de Braga.

 

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