Na Alemanha, 23,7 por cento da população (19,8 milhões) afirmava-se, em 2024, católica, uma pequena descida em relação aos 20,3 milhões (24% da população) que se diziam membros da Igreja Católica no ano anterior. No mesmo período, A Igreja Evangélica Alemã passou de 18,6 milhões (2023) para 17,98 milhões de membros em 2024.
Os números fazem parte das estatísticas preliminares divulgadas nos últimos dias de março pela Conferência Episcopal Alemã e mostram também um ligeiro declínio na dispensa dos sacramentos, com 116.222 batismos (131.245, em 2023) e 22.504 matrimónios celebrados (27.565, em 2023), e um pequeno aumento na frequência da igreja, que subiu de 6,2 por cento para de 6,6 por cento. Além das pessoas que morreram, para a redução total do número de membros da Igreja Católica, contribuíram as 321.611 pessoas que deixaram a igreja (em 2023 tinham sido 402.694).
Tendo em conta que os restantes grupos religiosos (evangélicos independentes da Igreja Evangélica Alemã, cristãos ortodoxos e fiéis do Islão) representam menos de 11 por cento da população, conclui-se que 43,8 por cento dos alemães não professa nenhuma religião, o que, segundo o jornal digital Omnes de 4 de abril “evidencia o avanço inexorável da secularização naquele país e o declínio da religiosidade institucional”. Para aquele jornal, uma outra evidência do avanço da secularização na sociedade alemã é o facto de no ano passado se terem registado apenas 29 ordenações.
Num artigo de José M. García Pelegrín publicado no Omnes, o autor lembra que “uma sondagem realizada pelo jornal Aachener Zeitung entre os seus leitores da região tradicionalmente católica de Aachen [Aix-la-Chapelle] ilustra a perda de influência eclesiástica, pois, quando confrontados com a afirmação ‘É triste ver que cada vez mais pessoas estão a abandonar a Igreja’, apenas 25 por cento manifestaram concordância, enquanto 69 por cento manifestaram desacordo” E conclui: “Embora não seja estatisticamente representativa, a sondagem reflete o clima social atual na Alemanha”.
Esta evolução, classificada pelos bispos alemães como “alarmante”, tem, além de consequências pastorais, fortes implicações financeiras, na medida em que na Alemanha o imposto religioso pago por todos os contribuintes alemães registados como pertencendo a uma das duas Igrejas (Católica ou Evangélica), equivale a 9 por cento dos seus impostos sobre os rendimentos de trabalho.
Tendência agravada desde 2019

Quarta Assembleia Sinodal do Caminho Sinodal, em Frankfurt. Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner.
Porém, a continua redução de membros da Igreja Católica Alemã, não pode ser entendida apenas no quadro do avanço da secularização, porquanto o pico dos abandonos se ficou a dever ao escândalo dos abusos sexuais que levou a que, só em 2022, “mais de meio milhão de batizados pela Igreja Católica (522.821 pessoas) declarassem já não pertencer à instituição. Se a esse número fossem somadas as mortes registadas durante o mesmo ano, a perda de católicos em 2022 corresponde a um total de 708 mil pessoas” [ver 7MARGENS]. Já em 2021, tinham saído 359.338 pessoas e, em 2020, mais de 270 mil.
De facto, o brusco declínio das pessoas que na Alemanha se afirmam membros da Igreja Católica tem uma estreita relação com o escândalo dos abusos sexuais e, sobretudo, com o modo como a Igreja Católica Alemã lidou com eles, encobrindo muitas vezes os predadores.
Perante a crise de credibilidade, a Igreja Alemã iniciou em 2019 um processo que ficou conhecido como o ‘Caminho Sinodal’ no qual aprofundou a reflexão sobre várias questões de fundo, como a doutrina da Igreja Católica sobre a sexualidade, o papel da mulher na Igreja e a sua eventual ordenação, o celibato dos padres e a participação dos leigos na condução das comunidades. Várias das decisões tomadas no âmbito deste processo mostraram profundas divisões entre os católicos alemães e abriram um confronto de difícil diálogo com o Vaticano.










