A homenagem que o Bloco de Esquerda prestou ao padre Max e à estudante Maria de Lurdes, no 50.º aniversário do seu assassinato nos arredores de Vila Real, não foi “um ritual de homenagem fúnebre”. “O que nos junta aqui é a urgência de dizer ao país que (…) a revolução [do 25 de Abril] foi feita da entrega de homens e de mulheres que não quiseram promoções nem reconhecimento social, mas apenas uma transformação real e profunda da sociedade.”
A afirmação é do líder daquela força política, José Manuel Pureza, e foi proferida no discurso final de um ato que encheu, neste sábado, 16 de maio, o salão da Junta de Freguesia do Bonfim, na cidade do Porto, que terminou com os participantes a cantar a Grândola, Vila Morena.
Pureza lembrou as vidas de Max e Maria de Lurdes e “quanto nelas aprendemos de coragem e de compromisso militante”, assim como a sua morte e “quanto ela desafia a uma luta pela memória como frente central da luta política no nosso tempo”. [ver 7MARGENS]
Explicando este último ponto, enfatizou que “aquilo que um país escolhe lembrar – e aquilo que decide esquecer – define os limites do que esse país fixa como o que foi e o que é e sobre o que pode imaginar no presente para o futuro”. “A memória coletiva – acrescentou – nunca é um simples exercício de evocação” e “quem vence a batalha pela memória conquista assim a capacidade de definir o que é ‘normal’, o que é ‘excessivo’ e o que é ‘impossível’ nas lutas de hoje”. E concretizou: “Quando se apresenta a revolução [de Abril] como um momento de desvario e violência, apaga-se o que foi a violência bombista da extrema-direita e apaga-se o que foi o processo revolucionário, sem o qual não teríamos a democracia que hoje temos”.

Assistência na homenagem do Bloco de Esquerda ao padre Max e à estudante Maria de Lurdes, no 50.º aniversário do seu assassinato. Foto © Manuel Pinto.
O dirigente político disse-se convencido de que quem ordenou o assassinato de Maximino de Sousa não lhe perdoou o facto de ele ser católico e padre e de, como católico e padre, “ter assumido um compromisso militante na esquerda revolucionária” e “contestar o acantonamento dos católicos no campo conservador”. “Max escolheu essa ‘margem de certa maneira’ [José Mário Branco, 1972] que foi estar com o povo e dar-lhe poder e esperança, em vez de domesticar a força do povo com medos de juízo final e ameaças de inferno. Esse desafio foi insuportável para os guardiões das hierarquias de sempre”, disse.
Transpondo a sua análise para a atualidade, Pureza, que se assume como católico, observou que o tempo que se vive agora “traz esta memória à superfície”, uma vez que, em Portugal e em muitos outros países, a estratégia da extrema-direita “passa de novo por instrumentalizar o cristianismo, de forma aberta e agressiva, e torná-lo em emblema de um programa político nos antípodas dos compromissos centrais do Evangelho: o cuidado com pobres, o acolhimento do estrangeiro, a justiça para os oprimidos e a coexistência pacífica”. E exemplificou com as “políticas de exclusão, de crueldade e de guerra” de Donald Trump, apoiado no integralismo católico e no fundamentalismo evangélico, lembrando também a divisa inspiradora “Deus, Pátria e Família” de Meloni ou o “cristianismo civilizacional” de Le Pen.
Para o dirigente político esta “aliança entre a Internacional Reacionária e o integralismo cristão não poderá ser vencida sem que as forças da esquerda política e do cristianismo progressista se juntem”, através de “convergências práticas e de empenhamento social e político articulador entre a cristã opção preferencial pelos pobres e a socialista luta pela emancipação das classes trabalhadoras”.
“Estou certo de que o Padre Max vibraria com a condenação do capitalismo pelo Papa Francisco e se associaria a estas palavras de Leão XIV: «Ninguém pode ser cristão hoje e escapar ao ‘clamor dos pobres’ e à luta pela justiça. O empobrecimento de milhões de pessoas é um verdadeiro ‘sacramento’ do pecado no mundo»”.

Na sessão de homenagem, intervieram (da esquerda para a direita) Mário Durval, presidente da associação política UDP, Manuel Pinto, José Manuel Pureza e José Machado Casto, jurista e ex-preso político. Foto © Jorge Magalhães.
Para José Manuel Pureza, o testemunho de vida do Padre Max – que motivou o seu assassinato – “inscreve-o num grande movimento que se exprime hoje na mobilização de paróquias e movimentos católicos, em todo o mundo, contra a escalada belicista comandada pelos Estados Unidos e por Israel, na resistência ativa de religiosos e leigos norte-americanos contra as operações do ICE [polícia de imigração dos Estados Unidos] nas suas comunidades, no envolvimento de cristãos no movimento de solidariedade com a Palestina, ou na participação militante de católicos na campanha StopReArm contra o aumento dos gastos militares nos orçamentos europeus”.
Recorde-se que o padre Max, que não estava filiado em qualquer partido, aceitou concorrer às primeiras eleições legislativas como independente pela União Democrática Popular (um dos partidos e movimentos políticos que esteve na origem do Bloco de Esquerda) e que a estudante Maria de Lurdes que, com ele trabalhava na alfabetização de adultos na aldeia da Cumieira, onde se verificou o atentado que matou os dois, era responsável pela estrutura estudantil local do mesmo partido. Na sessão deste sábado, intervieram também Mário Durval presidente da associação política UDP, José Machado Casto, jurista e ex-preso político, e Manuel Pinto, antigo dirigente da Juventude Estudantil Católica, que também publicou um testemunho no 7MARGENS.










