Liberdade é Deus connosco,” EMANUEL” (Mt. 1,23)

A ilustração da capa de “Uma História do Paraíso (I) – O Jardim das Delícias”: Jean Fouquet, “A Criação – Deus apresentando Adão e Eva” em “Antiquités Judaiques” (c.1470-76). Bibliothèque Nationale, Paris
Liberdade é incondicionalidade. Incondicional só Deus. É a Liberdade absoluta. Que mais apropriada designação poderemos nós, condicionados, atribuir a Deus? Nós, que mais ambicionamos que superar os nossos condicionamentos, que mais ambicionamos senão libertar-nos? Para Deus se orientam as nossas ambições, os nossos desejos, que, infelizmente, trocamos por ídolos que nos condicionam. A nossa liberdade, doação gratuita da liberalidade de Deus, só tem sentido e tem todo o sentido, incondicionando-se (desprendendo-se) n’Ele. Liberdade é amor. Só é verdadeiro o amor que nos faz, mutuamente, livres, fazendo livres os outros. Emanuel é a liberalidade de Deus para connosco, a revelação da sua liberalidade e o ensino dessa liberdade e liberalidade, amor, entre nós. Condicionando-nos, barramos o caminho do amor, da liberalidade, o caminho para Deus.
Porquê, então, querendo ser livres, nos atamos com laços dispensáveis, que nos dominam (nos escravizam)? Porquê esquecer ou não querer ver que a Liberdade de Deus, a Liberalidade de Deus, é Emanuel, vindo revelar-nos a mais radical incondicionalidade? O Evangelho é liberdade pura. Ninguém foi mais livre que Jesus, dos preconceitos, dos condicionamentos familiares, tradicionais, rituais, políticos, sociais, etc. Porque não tomamos a sério, verdadeiramente a sério, a visão de Paulo: “fostes chamados para serdes livres, fazei-vos servos uns dos outros” (Ga. 5,13). Depois de Jesus, que testemunho maior que a liberdade de Paulo?
Porque nos deixamos condicionar por laços institucionais que não correspondem aos critérios de Evangelho? Porque nos deixamos condicionar por especulações teológicas e discursos dogmáticos, tão contingentes como os tempos em que foram produzidos, sem relação como o nosso tempo, nem com o nosso modo de ser, que pretendem condicionar-nos, aprisionar-nos em instituições históricas sem raiz evangélica?
Porque nos deixamos condicionar e ser dominados através de rituais sacramentalizados por um “mundo eclesiástico clerical” dominador, meramente histórico, de uma história de poder, que não tem raiz na liberdade do Evangelho? Porque nos deixamos aprisionar por sacralizações (pagãs) de coisas, de pessoas e de acontecimentos, que não se enraízam na liberdade que Emanuel revelou e praticou?
As Igrejas não amam verdadeiramente os seus fiéis e muito menos os seus infiéis, porque lhes estabelecem fronteiras, os condicionam coarctando-lhes a liberdade, criando espaços de poder dominador paralelos aos demais poderes dominadores políticos, com códigos, normas e decretos (e excomunhões)? A inspiração “sinodal”, seria a realização prática da liberdade evangélica, se não fosse apenas inspiração e fosse criadora de comunidades livres, de confronto pessoal na aprendizagem mútua da liberdade de pensar, de dizer, de desejar, de fazer, fraternalmente? As Igrejas não ensinam, nem praticam a Liberdade de Emanuel, pelo contrário, condicionam-na.
Para terminar, permita-se-me recordar, apenas, dois momentos do Novo Testamento e um caso paradigmático do nosso tempo:
1 – Lc. 2,25: “Havia um homem em Jerusalém chamado Simeão. Era justo e piedoso. Esperava a Consolação de Israel e o Espírito Santo estava com ele. O Espírito Santo tinha revelado a Simeão que não morreria sem primeiro ver o Messias prometido”. Esse Emanuel será “sinal de contradição”. Simeão acrescentava a Maria´: “uma espada há-de atravessar-Te a alma”, porque a liberdade não é inócua! Antes de ser cristão, Simeão tinha o Espírito Santo com ele.
2 – Act. 10 – Deste importante capítulo sobre a liberdade e liberalidade de Deus, destaque-se o versículo 10,34: “De facto, agora, compreendo que Deus não faz diferença entre as pessoas. Pelo contrário, etc,” e o versículo 10,44: “Pedro ainda estava a falar, quando o Espírito Santo desceu sobre todos (pagãos) que ouviam a Palavra”. Os que iam com Pedro, admiravam-se de o Espírito Santo descer aos não-batizados… Para que serviria o ritual do Batismo?
3 – Um caso do nosso tempo: quem poderá julgar o cristianismo de Simone Weil? Filósofa, operária, resistente política, mística, que do judaísmo e do agnosticismo foi pelo Espírito levada ao cristianismo, apaixonada por Emanuel, recusando-se, todavia, ao ritual do Batismo, para não se separar dos outros, dos não-crentes…
Não condicionemos a liberdade que Emanuel nos revelou e nos concedeu na sua liberalidade. Não tenhamos medo!! Somos “igreja”, mesmo fora das Igrejas.
José Veiga Torres, nascido e batizado na paróquia de Santa Maria Maior, da cidade de Viana do Castelo, a 30 de Agosto de 1930, reside em Coimbra; foi professor universitário e é autor do livro Desafio aos Cristãos e a outras gentes – da “condição humana” para a vocação humana. Contacto: joseveigatorres@sapo.pt









