[domingo xxxiii do tempo comum ― c ― 2025. Dia Mundial dos Pobres]
1. A Cláudia tem sido inclemente! Cruel quanto baste!
Não me refiro a nenhuma Cláudia desta assembleia,
mas à tempestade que tem assolado o país.
Por vários dias, ela pintou-o de amarelo, laranja e vermelho.
De aviso em aviso, parece que desejou harmonizar o mapa
com as cores outonais das paisagens.
Como sabemos, causou avultados prejuízos materiais
e inclusive a morte de três pessoas idosas.
Que elas façam parte do nosso sufrágio diante e sobre o altar;
e, em Cristo ressuscitador, seja uma oração de amor por elas.
Imagino que as descargas dos intensos aguaceiros
e o ribombar das fortes trovoadas terão assutado os receosos.
Sensíveis ao frémito dos dias, aos rugidos do mundo,
espantamo-nos, todavia, com a cintilância da luz que ressoa
até no coração dos noturnos, ao ritmo de um bom ânimo.
2. As calamidades da Cláudia, porém, não fazem parte
da severa lista dos fenómenos enunciados por Jesus,
que precederão aquilo que Ele designa por «fim» (Lc 21,9),
e, na profecia de Malaquias, recebe o nome «dia do Senhor» (Mal 3,19).
Jesus encontrava-se em Jerusalém, para a festa da Páscoa.
Caminhando nos átrios do templo, alguns dos comentadores de então
― parecidos com os atuais comentadores da política e do desporto ―
iam dizendo, num misto de orgulho e vaidade, que «o templo
estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas» (Lc 21,5).
Sensível à beleza, Jesus retorquiu-lhes num modo desconcertante:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído» (Lc 21,6).
Desconhecemos se Jesus estaria a predizer a destruição do belo templo,
que sucederia, no ano 70, às mãos dos romanos comandados por Tito.

[Tudo será destruído. © Fotografia: Joaquim Félix]
3. Como um relâmpago fulminante,
esta arrasadora profecia de Jesus desperta-lhes um par de perguntas
e o pedido de uma sinalização de pré-aviso:
«Mestre, quando sucederá isto?
Que sinal haverá de que está para acontecer?» (Lc 21,7).
Jesus enumera-lhes um conjunto de sinais apocalíticos:
a vinda de falsos messias, guerras e revoltas,
grandes terramotos, fomes e epidemias,
sinais espantosos e grandes sinais nos céus.
Será o 3I/ATLAS, que há dias terá explodido, um desses sinais?
Sem termos que especular nem adivinhar,
sabemos que Jesus não aciona as luzes azuis da emergência,
nem faz soar os alarmes para exacerbar o medo.
Pelo contrário, suscita um apelo ao cuidado e à confiança,
sem esconder que sobrevirão perseguições aos seus discípulos.

[Como um relâmpago fulminante. © Fotografia (Theatro Circo, Braga): Joaquim Félix]
4. Confiança. Confiança. Confiança.
Mais que repetir o nome da antiga fábrica de sabonetes de Braga,
trata-se de uma virtude a ter sempre presente nos nossos corações,
para nos lavar dos medos e de outras sujidades,
como o pavor apocalíptico ou as ociosidades.
É verdade, estas e outras sujidades são uma recusa do Paráclito;
da defesa na língua e sabedoria que Ele nos dá e dará,
para que nenhum adversário nos possa resistir ou contradizer.

[Para nos lavar dos medos. © Fotografia (garça no rio Tibre, Roma): Joaquim Félix]
Uma pessoa, minha amiga, disse-me que uma sua amiga,
por causa da iminência do fim do mundo,
atolou de cima a baixo a sua despensa com géneros alimentares.
A atitude desta mulher assemelha-se à dos cristãos de Filipos que,
alarmando-se com a iminência da segunda vinda de Cristo,
em vez de trabalharem, entregaram-se a futilidades (cf. 2Tes 3,7-12).
Pode parecer anedótico, mas há dias contaram-me
que os alunos de uma escola, após um simulacro de incêndio,
perguntavam-se: «Porque é que a escola não ardeu?».
Estas e outras expressões são sujidades dos tempos últimos
a lavar e perfumar com a confiança e o trabalho de cada dia,
para ganharmos a comida que comemos.

[Para ganhar a comida que comemos. © Fotografia: Joaquim Félix]
5. Podem fazer-nos muito mal, por causa do nome de Jesus.
Os cristãos, como saberemos, são pessoas muito perseguidas,
mais do que nos tempos das perseguições romanas.
São alarmantes os dados do novo relatório World Watch List 2025:
mais de 380 milhões de cristãos sofrem elevados níveis de perseguição.
Só no ano passado, mais de 4 mil cristãos foram mortos.
Consola-nos, todavia, a confiança com que Jesus nos alimenta
ao dizer: «nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá» (Lc 21,18).
Ah, sim, até nos recordaremos de uma outra expressão sua:
«E até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Não temais pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos» (Lc 21,7).
Por certo Jesus não estaria a fazer um poema-piada
à contagem dos cabelos,
ao jeito do «La Repubblica», de José Tolentino Mendonça,
como se a confiança fosse um champô antiqueda:
«Apenas Deus os teria contados//
mas a publicidade aos produtos Bioscalin
garante inquietantes milagres
e revela
são 130 mil os cabelos da nossa cabeça» (Poesia reunida, 179).

[Mais valeis vós do que muitos passarinhos. © Fotografia: Joaquim Félix]
6. Creio que poderemos ler o final do Evangelho
com a lente da última das bem-aventuranças:
«Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem,
e perseguindo e, mentindo,
disserem todo o mal contra vós, por minha causa.
Exultai e alegrai-vos sobremaneira,
pois é esplêndida a vossa recompensa nos céus» (Mt 5,11-12).
7. Tudo isto alcançaremos, assim o diz Jesus, na perseverança:
«Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas» (Lc 21,19).
Viver a esperança com resiliência: eis o sinal da perseverança!
Conforme escreveu Santo Agostinho, devemos pedi-la:
«Deus dá algumas graças, como o começo da fé,
mesmo aos que não pedem;
outras, como a perseverança, reservou para os que pedem».

[Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas. © Fotografia: Joaquim Félix]
8. Celebrando hoje o Dia Mundial dos Pobres,
faz sentido que desenvolvamos a resiliência da perseverança.
Resiliência, sim; inércia não.
Como recorda o Papa Leão XIV, na Mensagem para este dia:
«Os pobres não são objetos da nossa pastoral,
mas sujeitos criativos que nos estimulam a encontrar sempre
novas formas de viver o Evangelho hoje.
Diante da sucessão de novas ondas de empobrecimento,
corre-se o risco de se habituar e resignar-se» (n.6).
Por conseguinte, não sejamos indiferentes a tantas lutas
de combate às antigas e novas formas de pobreza,
como, por exemplo, à marcha das mais de 30 mil pessoas
que, nas ruas de Belém do Pará, no Brasil,
se manifestaram, durante a COP 30,
a favor de mais atenção e justiça para os povos indígenas
e do combate às causas que alteram e danificam o clima.

[Combate às causas que alteram e danificam o clima. © Fotografia (Circo Massimo alagado, Roma): Joaquim Félix]
9. «Mas para vós que temeis o meu nome,
nascerá o sol de justiça,
trazendo nos seus raios a salvação» (Mal 3,20).
Ouvimos esta espécie de cartaz na Profecia de Malaquias?
Se sim, perguntemo-nos: De onde nos virá tal luz?
Ah!, ela levantar-se-á no dia do Senhor!
Será a luz que, desde a sua ressurreição, liberta dos laços da morte.

[Nascerá o sol de justiça. © Fotografia (Anjo da luz, de Ernesto Lamagna. Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, Roma): Joaquim Félix]
10. Permiti que evoque, neste momento, o quarto disco de Rosalía,
cantora espanhola que, desde o dia 7 de novembro,
colocou meio mundo a falar das suas músicas e letras,
inclusive o cardeal José Tolentino Mendonça e vários bispos espanhóis.
Numa longa entrevista, concedida ao El País,
ela refere que se preparou toda a vida para isto.
A certo momento, confessa que lê apaixonadamente
a literatura das místicas cristãs e revela um desejo:
«De facto, adoraria começar ser ouvinte de Teologia
numa universidade, isso me deixaria louca. Se tiver tempo suficiente…».
Nós, que frequentamos a Faculdade de Teologia,
como não havemos de nos apaixonar por esta luz
que é oferecida a todos os povos e liberta das pobrezas existenciais?
11. Na primeira estrofe de «Lux»,
ela refere o substrato comum à humanidade inteira:
medo, raiva, amor e sangue.
Sem com isto vos sugerir ecleticismos ou endeusamentos,
proponho-vos escutar e contemplar o belíssimo videoclip.
Oxalá a luz do Senhor seja como ela sugere
nos primeiros versos da segunda estrofe:
«A chama penetra o meu cérebro
como um ursinho de peluche de chumbo».
E possamos perseverar naquela fé que, na sexta estrofe,
Björk, uma das suas convidadas, canta:
«Esta é a intervenção divina
A única forma de nos salvar é através da intervenção divina
A única forma de eu ser salva é através da Intervenção divina».

[Esta é a intervenção divina. © Fotografia (Cristo Redentore, Maratea): Joaquim Félix]
12. Quem desejar pode também ler um artigo
publicado na revista Vida Nueva em regime aberto.
Lendo-o, poderemos meditar neste como noutros parágrafos:
«Delírios, transformações, perdas — é o que se ouve em ‘Lux’,
o testemunho de uma jovem de apenas 32 anos que,
subitamente no auge da fama,
quer mudar, cantar sobre isso e partilhar.
Olha para dentro de si, mas também aprende com a tradição:
‘Hagiografias, tantas hagiografias.
Simone Weil, Chris Kraus.
Estas freiras eram poetisas incríveis, grandes artistas;
Hildegarda de Bingen era como uma polímata,
capaz de criar de tantas maneiras.
Há tantas mulheres incríveis na história que não ouvimos o suficiente,
sobre as quais não falamos o suficiente.’
E diz mais: cada mudança de linguagem é uma homenagem a uma delas».
Não confundamos estas mulheres, nem tão-pouco Rosalía,
com os bárbaros que alguns esperam, e desesperam pela sua chegada
― num advento que os entrega a inutilidades ―,
para sair da inércia e do estado de resignação.
Os bárbaros não chegaram ainda. Não, não chegaram.
Permiti por isso que termine com palavras de S. Paulo aos Efésios,
o versículo que se encontra a seguir ao último da leitura feita hoje:
«Quanto a vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem» (2Tes 3,13).
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 16 de novembro, [domingo xxxiii do tempo comum ― c ― 2025. Dia Mundial dos Pobres], proferida em Fragoso (S. Pedro), do arciprestado de Barcelos, e na igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar de Braga.










