
O abuso é crime público, mas se não fosse mudaria a perceção do Evangelho e de Jesus sobre o assunto?
Ao longo da história, tem havido casos de pessoas que se escusam relativamente a responsabilidades acerca de algo que sabiam e que não denunciaram, dizendo que não sabiam, ou, pior ainda, que determinados crimes não são públicos, logo, não há dever de denúncia.
Ao longo do tempo, a passagem de responsabilidade para outros, o fechar os olhos, os ouvidos e a boca podem ter um impacto mais destrutivo do que um meteorito caído do céu. A queda do meteorito é menos provável, mas, num estado de direito, a ignorância da lei ou a sua desvalorização é inaceitável. Negar que o “abuso sexual” é crime público, como o fez há dias o bispo do Porto, D. Manuel Linda, não só revela ignorância, como coloca algumas questões. Antes de mais, é preciso dizer, taxativamente, como o fez o presidente da Conferência Episcopal na TVI, José Ornelas, na segunda-feira – onde, diga-se, o tempo para falar foi exíguo e se optou por enfatizar uma reportagem cheia de imprecisões – que o abuso é crime público.
Mas vamos imaginar que não o fosse: a Igreja não tem argumentos no evangelho para reagir aberta e claramente quando há situações de desrespeito por seres humanos? Não afirma que é “perita em humanidade”? De que humanidade estamos a falar? O abuso não só é crime como é pecado. E tem de ser visto a partir de ambos os prismas: é crime, deve ser punido à luz da lei da república. É pecado: o que acontece a quem o comete? O que fazer com a dureza e a clareza das palavras de Jesus? “Qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta, a mim me recebe. Mas qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18,5-6).
O abuso é crime público, sim, mas as palavras de Jesus não são menos duras do que as penas legais.
Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Ed. Paulinas)










