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Dmytro Kuleba com o secretário para as Relações com os Estados do Vaticano, o arcebispo Paul Gallagher, 2 de dezembro em Lodz (Polónia), durante o Conselho Ministerial da OSCE, foto twitter

Parolin reiterou oferta de mediação

Negociações de paz no Vaticano: Rússia e Ucrânia (ainda) não estão interessadas

| 12/12/2022

ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, foto Twitter do propio

O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, afirmou que o tempo para as negociações ainda não chegou. Foto reproduzida a partir da conta de Twitter de Dmytro Kuleba.

 

O secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, reafirmou esta segunda-feira, 12 de dezembro, que “o Vaticano está sempre disposto a oferecer uma mesa de encontro entre as partes para a paz”. Mas representantes da Rússia e da Ucrânia já disseram não estar, por enquanto, com vontade de aí se sentar.

“Estamos disponíveis, já o dissemos desde o início. Acreditamos que o Vaticano possa ser um terreno adequado [para as negociações]. Tentamos oferecer uma oportunidade para que todos se encontrem e, ao mesmo tempo, manter um equilíbrio. Conseguiremos? É difícil saber… A vontade é de oferecer um espaço onde as partes possam reunir-se e iniciar um diálogo, sem condições prévias. Cabe-lhes a eles identificar a metodologia de trabalho e dar conteúdo, mas nós estamos disponíveis”, afirmou Parolin em resposta às perguntas dos jornalistas, à margem da apresentação de um livro sobre o ativista católico e político italiano Giorgio La Pira.

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, afastou de imediato a proposta do Vaticano para receber as negociações, destacando, numa publicação deixada no Telegram, citada pela agência estatal russa TASS, que ainda não houve um pedido de “desculpas” pelos comentários feitos pelo Papa Francisco, na entrevista que deu à revista America, sobre os soldados chechenos e buriates.

O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, afirmou por seu lado que o tempo para as negociações ainda não chegou. Numa entrevista a um grupo de jornalistas que viajou até à Ucrânia a convite das embaixadas da Polónia e da Ucrânia junto da Santa Sé, citada esta segunda-feira pela Catholic News Agency (CNA),  Kuleba reconheceu que o Papa Francisco sempre enfatizou que a Santa Sé está disponível para facilitar as negociações e que “a resposta protocolar seria que uma negociação seria mais do que bem-vinda”, mas “a triste verdade é que ainda não chegou a hora dessa ampla mediação e a razão para isso é o presidente [Vladimir] Putin”.

Se alguém quer a paz, sublinhou Kuleba, “não envia 100 mísseis todas as semanas para destruir as infraestruturas. Não envia uma onda de soldados após a outra para o Donbass. Ninguém faz essas coisas todas quando procura uma solução pacífica.” Assim, concluiu, “chegará o dia de uma grande mediação, mas ainda não estamos lá, para nosso profundo pesar”.

 

Os erros do Papa

De acordo com a CNA, Dmytro Kuleba confirmou ter abordado esta questão numa recente reunião com o secretário para as Relações com os Estados do Vaticano, o arcebispo Paul Gallagher, quando se encontraram a 2 de dezembro em Lodz (Polónia), durante o Conselho Ministerial da OSCE. Nessa altura, o ministro ucraniano sugeriu que o Vaticano poderia ajudar negociando uma troca de prisioneiros, por exemplo, ou o “regresso de milhares de crianças sequestradas da Rússia”, ou também participando “na implementação da fórmula da paz”.

Kuleba alertou no entanto para o facto de ser necessário, da parte do Vaticano, evitar alguns “erros”. Entre eles, está a noção de irmandade entre os povos ucraniano, russo e bielorrusso. “Não somos irmãos” desde que os russos “vieram a Kiev para violar todas as leis de Deus”, afirmou, acrescentando que também não se pode ser “neutro nos comentários públicos” e deve “sempre lembrar-se que a Rússia é o agressor e a Ucrânia é a vítima da agressão”.

Qualquer tentativa de responsabilizar ambos os lados de alguma forma cria “uma mensagem completamente errada”, referiu ainda o ministro, exemplificando com o Angelus de 2 de outubro, em que o Papa Francisco apelou ao presidente da Rússia para parar a guerra, e ao presidente da Ucrânia para estar seriamente aberto à proposta de paz. Na opinião de Kuleba, dizer que o presidente Putin deve parar a guerra faz “perfeito sentido”, mas pedir a Zelenskyy que esteja aberto a propostas de paz sérias fez parecer que o presidente ucraniano “não estava aberto à paz”.

Por outras palavras, concluiu Kuleba, o discurso do Papa gerou “a impressão de que ambos os lados são culpados: um é culpado por causa do ataque e o outro é culpado porque [não está] aberto a propostas de paz”.

Apesar das críticas apontadas ao Papa, Dmytro Kuleba reconheceu ter ficado comovido com a sua oração pública no passado dia 8 de dezembro, em Roma. “[A] compaixão do Papa significa muito para nós e chega diretamente ao coração dos ucranianos”, disse, assegurando que “obviamente, estamos à espera da sua visita. Ele tem muitos seguidores na Ucrânia”, não apenas das comunidades católica romana e greco-católica: “A visita do Papa será bem recebida por uma parte maior da sociedade ucraniana. Então, estamos ansiosos para recebê-lo.”

 

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