Para nos mantermos no coração da vida, ou pelo menos dele vizinhos, temos de praticar a absoluta honestidade connosco mesmos. Temos de desprezar as vaidades, as aparências, e não perder de vista os apelos profundos da nossa consciência e aquilo que entendemos ser justo e verdadeiro. Temos de saber escutar o silêncio e procurar a Deus nele; e procurar, em relação aos outros, e na relação com os outros, a autenticidade da comunicação. Temos de saber escutar, mas também de saber olhar. Prestar atenção. Temos de abominar todo o ruído, toda a futilidade, toda a superficialidade das sensações, das ideias e dos sentimentos.

Homens a pescarem em silêncio nas águas azuis sob um manto de nuvens no mar de Visayan, nas Filipinas. Foto © Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons
É evidente que tal não significa que devamos menosprezar todas as coisas simples da vida, como a brincadeira, o humor, a amizade e o amor partilhados. Muito pelo contrário. Mas alegria autêntica e profunda das coisas simples deve ser um transbordamento decorrente, precisamente, da serenidade reencontrada por aquele que reencontrou a sua integridade, reconciliado com o mundo e com o seu próprio caminho, conforme as suas aspirações mais profundas. Por outras palavras, a verdadeira alegria brota do coração daquele que vive autenticamente, quer dizer, daquele que aprendeu a ser verdadeiramente livre — para pensar, para criar, para amar, para ser —, emancipado do medo, da angústia, da mesquinhez do pecado, da vileza do vício que o empobrece e esvazia. Como escreveu Séneca nas Cartas a Lucílio, descobrir uma finalidade para a vida implica a “indispensabilidade dos princípios” e a eliminação das “causas que nos entravam e manietam a alma e a impedem de dar o melhor de si própria.”
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.








