28 de Setembro de 2025. Não é só o torpor matinal de domingo, é também a ressaca de uma noite horrível (maldita constipação, maldita tosse que nenhum xarope trava). Arrasto os ossos até ao refúgio do sofá. Não está frio, mas aparece-me uma manta no colo, que eu não recuso. Hoje é para ficar por aqui, não tenho forças para ir à missa.
Um dedo de conversa. Um olhar ao telemóvel. Depois passo os olhos pela televisão. Uma laracha ali, outra acolá, o enorme drama de uma assembleia do Benfica, trivialidades. Não apanho notícias de interesse real, até fico contente por isso, que a realidade está terrível de se ver. Mas apanho na RTP1 uma missa que parece um hino à tristeza e depressão transmitida a partir de uma pequena igreja de Castelo Branco. Passo à RTP2 mas, como a neta ainda está na barriga da mãe, a programação infantil ainda não me interessa. Passo sem memória pela SIC e chego à TVI onde vejo um bispo a falar. Olha, outra missa. Mas…
– coração, não te enerves, não te enerves! –
… não é uma missa qualquer, é uma missa armada, com um bispo rodeado de soldados armados de metralhadoras.
Vou admitir que neste ponto alguns leitores acharão que este é um texto ficcional escrito com algum propósito que acabará por ser revelado mais à frente. Desiludo-vos já, com prova documental admissível em qualquer tribunal: uma fotografia feita no momento. Ei-la tal qual, sem retoques, edição ou manipulação.

“… não é uma missa qualquer, é uma missa armada, com um bispo rodeado de soldados armados de metralhadoras.” Imagem da transmissão da TVI na manhã de domingo, 28 de Setembro de 2025, da missa do Jubileu dos militares. Foto: Direitos reservados.
Os ossos afinal agitam-se, erguem-se até; o cérebro activa-se e abisma-se. Percebo que se trata de uma missa de militares e polícias, todos filhos de Deus, evidentemente, todos fardados, celebrada pelo bispo Ordinário Castrense, um nome extraordinário que designa o bispo das forças armadas e das forças de segurança.
Como qualquer imagem, esta transporta mensagens, significados, representações. Que carrega esta que me causa um incómodo visceral? Acho-a imprópria, agride-me na minha essência de cristão. Tenho uma reacção epidérmica, pelo que tento procurar os seus fundamentos.
Com os meus fracos recursos tento elaborar um pouco. A imagem é o que é, e é aquilo que o meu aparelho conceptual e de valores me faz ler nela. Assim, no meu entender, a imagem
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- mostra uma Igreja a comungar (uma palavra subitamente inconveniente) o seu espaço sagrado que é o altar com a exibição de armas
- revela a fusão de duas imagéticas fortes, a castrense com a da eucaristia – ou será a da eucaristia com a castrense? (porque a vaca comer a flor não é a mesma coisa que a flor ser comida pela vaca)
- sugere-me uma Igreja subordinada e não uma Igreja de serviço e de anúncio de Jesus Cristo
- projecta uma concepção, ou talvez um desejo, consciente ou não, de musculação da sociedade e, por arrasto, da Igreja, o que é fornecido não apenas pelas metralhadoras, mas também pela encenação dos estandartes e pela estética dos homens de olhar duro e pose hirta
- traduz uma teologia em que não encontro a dimensão de teo, apenas a da ideologia, a dos mais fortes porque armados (ainda que legitimamente).
Gosto de usar, comigo e com os outros este critério que não é sequer de santidade nenhuma, mas de mero esforço de fidelidade: e Jesus, onde está Ele no pensamento, na decisão, na acção? Neste caso, pergunto-me onde estão Deus (o divino, o Pai, não a figura retórica de deus) e o Evangelho nas cabeças de quem concebe esta pastoral militar.

“Tanta angústia, tanta crítica. Logo me pergunto se estarei sozinho, ou quantos somos nós, os que não gostamos de ver metralhadoras no altar.” Imagem da transmissão da TVI na manhã de domingo, 28 de Setembro de 2025, da missa do Jubileu dos militares. Foto: Direitos reservados.
Tanta angústia, tanta crítica. Logo me pergunto se estarei sozinho, ou quantos somos nós, os que não gostamos de ver metralhadoras no altar.
É claro que é defensável e estimável a ideia de uma presença da Igreja nos meios castrenses e da segurança interna. No entanto, oponho-me à encenação militarista dessa presença, à fusão da religião com a instituição militar e à captura do religioso para fins não religiosos.
Também desconfio da necessidade dessa presença se realizar através de uma estrutura complexa encimada por um bispo general, com adjuntos coronéis e uma cadeia de padres majores, capitães e tenentes, matéria que descubro em breve pesquisa na internet (é um DL de 1966 que regula o Ordinariato Castrense; não encontrei uma actualização face ao fim do serviço militar obrigatório). Mais uma pergunta: não chegariam meros capelães (há-os civis e militares, não me gastei a perceber as diferenças) ou outros agentes pastorais para exercer a presença da Igreja?

“A acção da Igreja deve ser evangelizadora. Parece redundante, mas não é. Seria preciso ponderar como traduzir os valores evangélicos neste ambiente particular com potencial de conflitualidade entre a doutrina de não-violência cristã e a lógica militar (…)” Imagem da transmissão da TVI na manhã de domingo, 28 de Setembro de 2025, da missa do Jubileu dos militares. Foto: Direitos reservados.
A acção da Igreja deve ser evangelizadora. Parece redundante, mas não é. Seria preciso ponderar como traduzir os valores evangélicos neste ambiente particular com potencial de conflitualidade entre a doutrina de não-violência cristã e a lógica militar, através de uma cuidada pastoral, muito diferenciada, sustentada num discernido pensamento teológico. Apesar do local onde se exerce, ou por causa dele, ela deve assentar na defesa da paz justa e na ética da defesa da democracia, tópicos que, salvo omissão da minha parte, estiveram ausentes da homília.
Ah, e como foi essa homília? Pode ser revista, caso queiram, na TVI. Entretanto, posso dizer que foi lida, mas apesar disso pareceu-me errática. Foi longa (onde estão os sete minutos recomendados pelo Papa Francisco?). Ou eu não alcancei o sentido, ou foi feita de trivialidades que poderiam ter sido mencionadas em qualquer contexto.
Presumo que o realizador televisivo fosse um ateu impenitente, sem pingo de piedade. Os seus planos mostraram rostos neutros, ausentes, cerrados, baços, sonolentos ou enfastiados. Não há um vislumbre de vida no amplo conjunto de figurantes que cumprem com disciplina militar o script e a tarefa para que foram hoje designados, o pessoal das metralhadoras e o dos estandartes, os soldados e marinheiros, os polícias e guardas republicanos, todos engalanados nas suas fardas apertadas e quentes, sentados direitos nos bancos da igreja, mais um ou outro sem uniforme que deduzo serem do SIS e da PJ. Só o bispo abre e fecha a boca. É um teatro com muitos figurantes, mas sem palmas.
Olha que tristeza de início de domingo!

Imagem da transmissão da TVI na manhã de domingo, 28 de Setembro de 2025, da missa do Jubileu dos militares. Foto: Direitos reservados.
Declaração final de interesses:
(1) sendo pela paz justa, código que todos hoje percebem, não sou pacifista, no sentido de desejar uma paz qualquer, mesmo a dos cemitérios; portanto, reconheço a necessidade da existência das Forças Armadas e, face às circunstâncias actuais, defendo o seu reequipamento e alargamento segundo critérios de necessidade controlada;
(2) sou favorável à existência de polícias que protejam adequadamente os direitos dos cidadãos e a democracia liberal; consequentemente, defendo a sua modernização, segundo critérios de eficiência operacional proporcional às necessidades.
Este meu posicionamento social e político não obsta a que aquilo com que a Igreja nos brindou em 28 de Setembro de 2025 me pareça eclesialmente indesejável e pastoralmente impróprio.
Nuno Caiado








