O IV Encontro Nacional das Comissões Diocesanas e Castrense de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis decorreu no passado sábado, 1 de fevereiro, em Fátima. O 7MARGENS pediu à presidente da equipa de coordenação destas comissões, Carla Rodrigues, um balanço deste dia de trabalho conjunto, mas também das principais conquistas, dificuldades e objetivos das comissões. Eis as respostas da advogada bracarense, que assumiu funções em março do ano passado.
7MARGENS – Que importância assume este encontro no trabalho desenvolvido pelas Comissões Diocesanas?
Carla Rodrigues – As Comissões Diocesanas surgiram, de forma interdisciplinar, em todas as dioceses portuguesas, por determinação do Papa Francisco. Não obstante trabalharmos a partir de uma base comum com vista à uniformização de procedimentos, levamos a cabo reuniões de forma periódica com os coordenadores das várias comissões e estamos constantemente em contacto com as comissões, acompanhando de perto as necessidades sentidas nos diversos pontos do país. O Encontro Nacional é um dia de trabalho, dedicado à partilha, à escuta e à formação presencial, olhos nos olhos.
7M – O que destaca do que foi vivido no encontro deste ano?
Sem dúvida que o que destaco deste encontro é o muito que aprendemos em humanidade, sensibilidade, cuidado e prevenção. Colocamos dúvidas, partilhamos necessidades, discutimos estratégias de apoio às vítimas e combate à violência sexual, refletindo sobre o caminho que ainda há a percorrer e que deve ser sempre pautado pela disponibilidade, sensibilidade, num trabalho credível, independente e sempre atento aos mais jovens e vulneráveis.
Destaco, ainda, as conferências que preencheram a manhã. De acordo com a conferencista convidada, Professora Ianire Angulo Ordorika, docente da Sagrada Escritura na faculdade de Teologia da Universidade Loyola, os abusos sexuais traduzem-se num problema estrutural e não pontual, que afeta toda a sociedade, tratando-se de um problema muito maior do que aquilo que é visível, realçando que o abuso sexual é indissociável do abuso de poder. Convidou-nos a olhar para esta temática como quem olha para um icebergue.
Já o segundo conferencista convidado, o jornalista João Luís Gomes, deu o seu testemunho a propósito dos abusos em contexto de Igreja e comunicação social, refletindo sobre a necessidade de diálogo entre a Igreja e a Comunicação Social, e a necessidade de ser reconhecida a importância desta na exposição e combate aos abusos sexuais.

A irmã Ianire Angulo Ordorika, docente na faculdade de Teologia da Universidade Loyola, foi uma das oradoras convidadas no encontro. Foto © Agência Ecclesia / MC
7M – Que balanço faz do trabalho desenvolvido ao longo do último ano pelas Comissões Diocesanas? Quais foram as principais conquistas? E as principais dificuldades?
Este último ano foi particularmente desafiante. Pretende-se que as Comissões Diocesanas sejam vistas como o lugar seguro e de confiança que são, onde a sílaba tónica é colocada nas vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal. A nossa disponibilidade terá de ser sempre para com as vítimas que, munidas de enorme coragem e recurso à gramática da dor, chegam até nós, diretamente ou por intermédio do Grupo VITA, partilhando os horrores que viveram.
Só despertando um sentimento de confiança, que se quer generalizado aos diversos quadrantes da sociedade, é que conseguiremos chegar a mais pessoas e proporcionar a ajuda de que necessitam. Este é, simultaneamente, um ponto positivo face ao caminho que já percorremos, mas também uma dificuldade face ao caminho que ainda precisa de ser calcorreado.
Saliento, ainda, o reforço do trabalho em parceria com o Grupo VITA, com vista a uma mudança de práticas, costumes e culturas; o empenho na formação junto dos diversos agentes pastorais; e a colaboração na redação do documento que vem regulamentar a atribuição de compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais ocorridos no contexto da Igreja Católica em Portugal.
7M – O que está ainda por fazer e quais são os principais objetivos para o próximo ano?
Os principais objetivos são: chegar a mais pessoas, reforçar a formação, atuando na prevenção, e trabalhar em rede com outros setores da sociedade.
Pretendemos reforçar a formação junto dos diversos agentes pastorais e contribuir para que a discussão desta realidade se estenda, de forma especial, às famílias, às escolas, ao desporto e à Internet. O combate, para ser eficaz, tem de ser global. A reflexão tem de ser em uníssono.
Apostar na educação sexual e incentivar a denúncia são ferramentas importantíssimas no combate à violência sexual, traduzindo-se num investimento sério para a prevenção. O silêncio favorece o abusador e permite a perpetuação do comportamento criminoso.
(Foto de destaque: Carla Rodrigues, Presidente da Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas. © Agência Ecclesia / MC)
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