
José Manuel Pureza (o 4º a contar da direita), entre o grupo de deputados que recebeu a oferta da encíclica Fratelli Tutti: “O ‘recado’ essencial da vida de Jesus é a convocação a mudar a vida.” Foto © António Marujo
Sou a minha circunstância. Cresci na fé, como jovem adulto, com a noção de que ser cristão é sempre um compromisso militante, expressão chave dos meus anos de Ação Católica. E, na minha vida, esse compromisso militante significou invariavelmente um compromisso político, um envolvimento sem disfarces nem reservas com a construção da sociedade a partir de escolhas coletivas contrastantes.
Essa imbricação do compromisso político com a minha condição de cristão é uma decorrência natural da radicalidade da vida fraterna e despida que, para mim, significa ser cristão e que o movimento cristão bebeu do testemunho de Jesus e as primeiras comunidades – as dos dois primeiros séculos – materializaram num desafio insuportável para todas as estruturas de poder então vigentes. Foi assim nesse tempo, é assim agora.
Sucede que o tempo e os poderes transformaram o Jesus questionador de todos os poderes e de todos os confortos num Cristo light e sobrepuseram a prioridade da religião, dos seus preceitos e das suas estruturas institucionais à imitação pessoal e comunitária da vida de Jesus. E, com isso, despolitizaram a condição cristã. Entendamo-nos bem: eu compreendo a advertência de que os critérios de Jesus, na sua vida pública, foram de outra natureza que não a de um programa político; e comungo da noção de que a imitação de Jesus não se verte num programa e muito menos se atrela a um poder instituído. Mas constato que a marca da divina rebeldia de Jesus (como lhe chama José Veiga Torres) cedeu, em muito do percurso da Igreja, o lugar a um pietismo alérgico à conformação estrutural do “recado” essencial da vida de Jesus: a convocação a mudar a vida. Voltar a essa convocação faz dos Evangelhos uma referência política de primeira grandeza. Faz da política a organização da sociedade alimentada por vidas mudadas e que potencia essa mudança. A política que conta é essa: a da escolha de caminhos que mudem as vidas sofridas e, ao mesmo tempo, as vidas arrogantes.
Certo: a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Mas Deus é o avesso de um referencial de neutralidade nos gestos de César. Deus é louvado ou negado em cada gesto de César. Não por invocar o Seu nome. Mas por aquilo que cada um desses gestos traz ou não para a vida de cada um dos mais frágeis, como Jesus vincou.
Resgatar a imitação da vida de Jesus para o centro das nossas vidas de cristãos apaixona-nos, por isso, pela luta política enquanto disputa entre visões do que pode e deve ser o mundo e entre práticas que se querem coerentes com essas visões. Estou profundamente convencido de que um tal resgate do que foi a prática das comunidades fundadoras do movimento cristão é uma ameaça para a política dominante e será por ela combatida com todas as suas forças. Porque esse resgate do cristianismo originário – tão presente no pontificado de Francisco – vincula a política ao rosto concreto de cada um/a dos/as que sofrem e ao amor por que cada um/a dos/as que sofrem suplica e desvaloriza o que na política dominante há de formalismo e de poder sem amor.
Creio ser esse o sentido da mensagem de Francisco: “Temos de nos convencer que a caridade é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos”; daí concluindo que “a política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum.” (Evangelii Gaudium, 205).
José Manuel Pureza é professor universitário e dirigente do Bloco de Esquerda










