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O “efeito trincheira”

| 14/07/2021

A forma como boa parte das pessoas vivenciam hoje a política é um atraso de vida. Literalmente. Voltámos atrás 100 anos, às batalhas de trincheiras que caracterizaram a I Guerra Mundial.

“Ele acreditava que a possibilidade do impeachment não iria minar a base, antes ajudando a solidificá-la, e estava certo”. Foto: Pronunciamento de Jair Bolsonaro (Brasília – DF, 24/04/2019).©  Isac Nóbrega/PR/Wikimedia Commons

 

Bem sei que é o medo que está na origem das reacções mais violentas observadas no ser humano. Há quem mate por medo, e quem morra também por medo. Mas neste caso específico o medo tem o precedente da ignorância. O populismo tem destas coisas. Quanto mais desmascarado estiver o líder populista mais os apaniguados se entrincheiram para o defender, quanto mais violento ele for mais endurecem o combate em sua defesa, quanto mais mentir, mais eles o secundam.

Bucci escrevia há dias no Estado de S. Paulo: “Quanto mais desaforado for, quanto mais animalesco e mais boçal, mais amado será o líder ciberpopulista – para usar aqui o conceito que Andrés Bruzzone apresenta no livro Ciberpopulismo: democracia e política no mundo digital (…). Quanto mais asqueroso e mais contrário aos bons modos, mais festejado. Essa é a receita seguida pelo Presidente da República. As falanges virtuais o aclamam não apesar de sua falta de boas maneiras, mas justamente por causa delas. Quanto mais desclassificado ele for, mais idolatrado será.”

O cientista político Miguel Lago propõe mesmo uma chave hermenêutica para interpretar o fenómeno bolsonarista: “quanto maior e mais conflagrado for o confronto nas redes sociais, mais sustentação terá o Presidente da República – e quanto mais baixo descer a reputação do governante, mais alto soará o alarido daqueles que o sustentam.” Ele acreditava que a possibilidade do impeachment não iria minar a base, antes ajudando a solidificá-la, e estava certo. À medida que a imagem do Presidente e do seu governo se vai degradando aos olhos da opinião pública, os bolsonaristas indefectíveis vão-se tornando mais determinados e adoptam o “espírito de trincheira”.

A razão estará na lógica de funcionamento das redes sociais que é distinta da que rege a política convencional. Não será por acaso que tanto Trump como o “gabinete do ódio” no Planalto são tão amigos da sua utilização. Enquanto nesta se negoceiam apoios, acordos e alianças políticas, o que funciona nas plataformas digitais é o que choca, ofende ou escarnece; por isso é que as agressões e as tiradas de ódio e infâmia resultam a favor dos populistas. O que empolga estas pessoas é o prazer do insulto e do ultraje a um suposto inimigo, que tanto pode ser real como imaginário ou indefinido, num pico emocional onde não há espaço para a razão.

De acordo com Bucci, “Milhões de anônimos, encolhidos em suas misérias afetivas, sorvem a torpeza bolsonarista como quem degusta um cálice de absinto. Vão se entorpecendo de fluxos de gozo. Esses infelizes, tomados pela paixão da raiva e da intolerância, encontram nas barbaridades proferidas e alardeadas pelo fascismo de silício uma satisfação libidinal equivalente à que vai buscar nos sites pornográficos ou nos jogos online, que sabidamente exploram a dependência psíquica do freguês.” Nesse sentido o bolsonarismo torna-se viciante, em linha, aliás, com a natureza perversa das redes sociais. Ricardo Abramovay e Rafael Zanata mostravam já em 2019, numa revista da USP, como as empresas de tecnologia organizam e administram as funcionalidades para provocar adição aos utilizadores.

A propósito de adições, no documentário O Dilema das Redes, altos quadros da indústria chegam mesmo a explicar que existe uma estratégia para causar dependência, e lembram que o termo “usuário” (no Brasil, “utilizador” em Portugal), apenas é usado para “designar o consumidor de drogas e o frequentador das redes sociais, como a dizer que os traficantes e os gigantes da internet lucram com o mesmo negócio: o vício.” No fundo, a massa ciberbolsonarista não passa duma actualização dos romanos no circo de feras e do frémito de gozo que percorria a assistência quando o imperador apontava o polegar para baixo e alguém era executado. A política populista tornou-se uma celebração prazenteira de linchamentos morais.

Por isso esta bestialização da política não suporta o conhecimento científico, a imprensa livre e as artes, porque todos eles contribuem para humilhar a ignorância rude. Em particular, explica o ódio aos jornalistas, que representam a mediação entre a notícia e o público, se sujeitam ao código deontológico da profissão e fazem o contraditório, procurando interpretar os factos para não induzir o público em erro.

Segundo os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) só em 2020 Bolsonaro e os filhos fizeram 469 ataques a jornalistas e veículos de imprensa. Aliás, os RSF acabaram de classificar Bolsonaro como um “predador” da liberdade de imprensa, a par dos presidentes de Cuba, Miguel Díaz-Canel, Nicarágua, Daniel Ortega, mas também Nicolás Maduro, Vladimir Putin, Erdogan, Bashar al-Assad, Xi Jinping e Viktor Orbán. Mas os fanáticos do populismo não querem saber de nada disso e dispõem-se até a prescindir da própria liberdade para se submeterem à tirania. Estes são mesmo tempos estranhos.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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