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Emmerico Nunes
Emmerico Nunes. Foto: Fundação Calouste Gulbenkian.

[Crónica da Europa]

O estranho caso do genial Emmerico Nunes

 

Há artistas que cabem inteiros numa etiqueta: modernista, naturalista, ilustrador, pintor oficial. E depois há o estranho caso de Emmerico Nunes – que parece ter sido tudo isso ao mesmo tempo, sem pedir licença a ninguém.

Natural de Sines, onde hoje existe o Centro Cultural Emmerico Nunes no que antes foi o edifício da Misericórdia, o artista trouxe do litoral alentejano uma combinação rara: de independência, ironia e obstinação silenciosa. Começou cedo – aos dez anos já editava um jornal humorístico, A Risota. Depois vieram os estudos na Escola de Belas-Artes de Lisboa, a temporada decisiva em Paris por conselho de José Malhoa, e a afirmação internacional na Alemanha, com contrato de exclusividade na revista Meggendorfer-Blätter. Tornou-se um caricaturista moderno, europeu, crítico da guerra, dos costumes e da velocidade do século.

Emmerico Nunes

Capa do catálogo  Eilt!: obra perdida [de] Emmerico Nunes / comissariado de Isabel Lopes Cardoso e José Pedro Cavalheiro / CAM. – Lisboa : FCG 2013.

Mas eis o paradoxo que importa sublinhar: ele é também o genial autor dos desenhos da Historiazinha de Portugal, de Adolfo Simões Muller, e do célebre Livro da Terceira Classe que moldou a imaginação histórica de gerações. Publicado pelo Secretariado Nacional de Informação nos anos 40, aquele volume quadrado, impresso em papel encorpado, com heróis perfilados e episódios fundadores narrados com clareza gráfica, tornou-se parte da memória escolar portuguesa.

Convém dizê-lo sem hesitação: não são ilustrações menores, nem meramente funcionais. Há nelas síntese, ritmo narrativo, domínio anatómico, sentido cénico. A construção visual da história – batalhas, reis, descobrimentos – deve muito ao traço seguro de Emmerico. Tal como eu pelos 7 anos, muitos portugueses que “viram” pela primeira vez Afonso Henriques ou Vasco da Gama, viram-nos através dele. É uma forma silenciosa de génio: formar o imaginário coletivo sem assinar manifesto algum.

Emmerico Nunes

“(…) o mesmo homem que desenhava a epopeia nacional para crianças era o caricaturista mordaz que satirizava a sociedade europeia. Modernista nos tempos novos, clássico quando a narrativa o exigia.”

E, no entanto, o mesmo homem que desenhava a epopeia nacional para crianças era o caricaturista mordaz que satirizava a sociedade europeia. Modernista nos tempos novos, clássico quando a narrativa o exigia. Versatilidade. O traço adapta-se; a qualidade mantém-se.

Há ainda a terceira face: o pintor. Participou ativamente nas exposições da Sociedade Nacional de Belas-Artes, recebeu distinções e deixou obra significativa. Um dos seus quadros integra a colecção da Fundação Calouste Gulbenkian. Pintou paisagens e retratos de paleta intensa, menos conhecidos do grande público, mas reveladores de sólida formação e ambição artística.

E não esqueçamos um outro capítulo quase esquecido: os postais religiosos e trabalhos de temática devocional; como o teto do Salvador do Mundo na igreja matriz de Sines que olhei desde miúdo quando foi inaugurado em 1964, e onde o desenho se coloca ao serviço de uma sensibilidade espiritual popular. Também aqui há mestria – clareza, expressão, humanidade nas figuras.

Assim se compõe o retrato: um artista entre pátrias (França, Alemanha, Suíça, Portugal), entre géneros (caricatura, ilustração histórica, pintura), entre públicos (a elite europeia das revistas satíricas e as crianças da escola primária). Um homem de Sines que foi europeu antes de ser reconhecido em casa.

O estranho caso de Emmerico Nunes não está em ter sido múltiplo, como Fernando Pessoa. Está em continuarmos a separá-lo em compartimentos: o humorista de Munique, o ilustrador do regime, o pintor discreto, o autor de postais religiosos. Talvez seja tempo de o reconhecer como um todo.

Porque, no fim de contas, há poucos artistas que possam reclamar isto: ter feito rir a Europa, ter pintado com ambição e, ao mesmo tempo, ter desenhado as imagens com que um país inteiro aprendeu a sua própria história.

Emmerico Nunes

Solidão, desenho de Emmerico Nunes, 1920 (c.), Centro de Arte Moderna

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

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