Leituras de Páscoa no 7MARGENS (1)

“O Meu Deus é um Deus Ferido”

| 28 Mar 2024

 

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Hoje, 28 de Março, os cristãos celebram Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa. 

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa. 

 

O Meu Deus é um Deus Ferido, de Tomáš Halík.

A capa O Meu Deus é um Deus Ferido, que é um dos livros mais importantes de Tomáš Halík.

As chagas de que o mundo está cheio

Numa entrevista, dizia Tomáš Halík sobre este livro: “Voltei a sentir a ressonância do episódio do apóstolo Tomé que tinha lido no Evangelho de João (Jo 20,24-29), na missa dessa manhã no túmulo do ‘padroeiro dos incrédulos’. Jesus identifica-se com todos aqueles que são pequenos e sofrem. Por outras palavras, todas as feridas dolorosas e toda a miséria humana são ‘feridas de Cristo’. Só posso acreditar em Cristo e ter o direito de exclamar ‘meu Senhor e meu Deus’ se tocar nas suas chagas de que o nosso mundo ainda está cheio. Caso contrário, digo ‘Senhor, Senhor’ simplesmente em vão e sem efeito (Mt 7,21). 

Com uma escrita transparente e uma proposta espiritual surpeeendente, O Meu Deus é um Deus Ferido é um dos livros mais importantes de Tomáš Halík, um dos mais destacados teólogos da contemporaneidade. O livro parte da aparição de Jesus Ressuscitado a Tomé para aprofundar o incrédulo que habita em cada pessoa e a “condição humana insegura que tantas vezes sonha alto: ‘Se visse, acreditava!’ Mas não…”, como o autor diz no prefácio. 

 

A Incredulidade de São Tomé (1601-02), de Caravaggio, Domínio público, via Wikimedia Commons.

A Incredulidade de São Tomé (1601-02), de Caravaggio, Domínio público, via Wikimedia Commons.

 

A porta dos feridos

Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio. Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que creem sem terem visto!

(Evangelho de João 20,24-29)

Li este Evangelho até ao fim, retirei-me do ambão e fui novamente ocupar o meu lugar. Era de manhãzinha e a catedral de Madrasta [Índia] estava ainda mergulhada na penumbra, silenciosa e quase vazia. A Índia estendia-se diante de mim como um multicolor tapete de flores, ornado e guarnecido de muitos lugares sagrados – ali estava eu, a caminho de Bodh Gaya, o lugar da iluminação de Buda, de Sarnat, onde o Iluminado fez o primeiro discurso aos seus discípulos, de Varanasi, nas margens do Ganges, o destino mais sagrado de peregrinação dos Hindus, de Mathura, a cidade natal de Krishna –, mas aqui em Madrasta, no coração do cristianismo local, onde desde sempre foi venerado o túmulo do apóstolo Tomé, padroeiro das Índias, senti-me realmente, por um instante, como em casa – graças também ao texto já familiar. Nesse momento, ainda captei e entendi a perícope re- citada do Evangelho de S. João como sempre antes a percebera e como habitualmente é interpretada: Jesus, pela sua aparição, livrou de todas as dúvidas o apóstolo cético, sobre a realidade da sua ressurreição; do «incrédulo Tomé» fez-se, de súbito, o crente. […]

Conta-se acerca de S. Martinho que, um dia, Satanás lhe apareceu até sob a figura de Cristo. Mas o santo não se deixou enganar: «Onde estão as tuas chagas?», perguntou. […]

Naquela tarde, em Madrasta, outra coisa ainda chamou a minha atenção: possivelmente, as dúvidas do apóstolo Tomé eram de um tipo muito diferente das que nós – netos da época cientificista e positivista – padecemos de vez em quando e que, apressados, projetamos nesta história; o Apóstolo não era, provavelmente, um «materialista» lerdo e pesadão, incapaz de se abrir ao mistério que não conseguia «apreender». […]

«A incredulidade de Tomé é mais útil à nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditam», escreveu o papa S. Gregório Magno, na homilia sobre este texto evangélico.

 

Três Dançarinas, de Edgar Degas, Domínio público, via Wikimedia Commons.

Três Dançarinas, de Edgar Degas, Domínio público, via Wikimedia Commons.

 

O Deus que dança

 Richard Kearney relembra que um dos conceitos fulcrais da antiga teologia trinitária cristã, a perichoresis (o recíproco «adentrar-se» e o mútuo enlaçar-se das Pessoas da Santíssima Trindade), está ligado ao conceito de dança […] Esta visão deveras inabitual desencadeou em mim, como um raio, duas associações: a dança dos dervixes que, no ano passado, testemunhei na cidade turca de Konya, na festa comemorativa em honra do místico islâmico Rumi (Maulana), numa representação corpórea e sugestiva do amor dinâmico de Deus provinda do tesouro da mística sufi; em seguida, a frase de Nietzsche de que ele «só acreditaria num Deus que soubesse dançar». […]

Poderá Jesus – e o Deus uno e trino que nele se nos revela – ser um Deus que dança?

A adoração do Cordeiro

Conta-se que, na noite anterior à batalha da Ponte de Mílvio, apareceu no céu, ao imperador romano Constantino, o sinal da cruz, e ele ouviu a frase: «Com este sinal vencerás!» Mandou, então, afixar uma cruz nos escudos das suas tropas, derrotou os seus inimigos e, por gratidão, concedeu à Igreja, até aí perseguida, a legitimidade e vários privilégios. Por fim, acabou por fazer-se do Cristianismo a religião estatal do Império Romano. […]

Não me sai da cabeça esta questão: qual a configuração da história do Cristianismo, da Europa e do mundo, se o imperador Constantino tivesse entendido aquele fenómeno extraordinário com maior discernimento? […]

Talvez a Igreja, sem as regalias de Constantino, não tivesse conseguido desenvolver, com tanta robustez, o seu potencial cultural; talvez o Cristianismo, se não tivesse conseguido expandir-se no espaço público daquele Império, no lado soalheiro e luminoso do poder, não tivesse também imbuído a sociedade do seu poder terapêutico. Não teria erigido quaisquer instituições educativas e sociais, e não poderia obter, ao longo dos milénios, uma rica colheita dos frutos benéficos da sua influência. Talvez. No entanto, nesta versão imperial do Cristianismo, talvez algo de essencial tenha sido esquecido, sem se desenvolver e desdobrar – ou até tenha sido atraiçoado e desfigurado.

Ilustração

Tribunal Constitucional da Alemanha, em Karlsruhe

Tribunal Constitucional da Alemanha, em Karlsruhe. Foto © LightBcn, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

 

Corpos

Há já alguns anos, um casal, numa cidade alemã, apresentou uma proposta para que o crucifixo fosse retirado da parede das salas de aula, pois o seu filho não podia contemplar um objeto tão repelente. Surgiu assim, pouco a pouco, um caso que, por fim, confluiu numa deliberação do Tribunal Constitucional, em Karlsruhe, para que as cruzes desaparecessem das escolas públicas. Alguns anos depois, por seu turno, o legislador francês […] chegou à deliberação de que nas escolas francesas deveriam ser proibidos tanto o véu das islâmicas como as cruzes («ostensivas») nos pescoços cristãos e os kippas nas cabeças judaicas. […] Na mesma altura, os representantes da Europa unida concordaram em tirar a expressão «cristianismo» do preâmbulo do projeto para a Constituição Europeia. […] A Europa, sem dúvida, não se tornará mais ou menos cristã se esta palavra aparecer, ou não, na Constituição, e o Espírito que Cristo prometeu sopra onde quer, e certamente não o deterão nem prescrições oficiais nem zelosos mestres-escola à entrada das escolas francesas ou alemãs. Provavelmente, eu também não faria parte da manifestação dos católicos bávaros que, em Karlsruhe, agitavam cruzes à frente do edifício do tribunal, embora entenda os sentimentos desta geração de alemães que, já uma vez, tinha experimentado a retirada das cruzes das paredes das escolas; no dia seguinte, em seu lugar estava pendurada uma fotografia oficial do homem com o bigodinho e a risca ao lado.

Pequeno é o lugar da verdade

Há alguns anos, participei num debate, que é transmitido na televisão checa, todos os domingos, por volta do meio-dia. Além de mim, participaram os vice-presidentes dos dois grandes partidos políticos da República Checa. Depois de terminada a emissão, um dos vice-presidentes e eu estivemos a sós, por momentos, na escadaria, e fiz-lhe uma pergunta; fiquei a saber que, por causa dela, ele me consideraria provavelmente como um extraterrestre que, por descuido, se extraviou no mundo dos que sabem e têm experiência; no entanto, eu estava muito ansioso pela sua resposta. «Senhor Vice-presidente, estamos aqui sozinhos. Sabe muito bem que aquilo que afirmou diante das câmaras, e durante todo o tempo, não é verdade?» O político olhou-me de alto a baixo, numa mescla de compaixão e desprezo, como um Golias faustosamente armado para o jovem insolente que, por um momento, lhe barrou o caminho.

«Verdade!?», repetiu ele, com horror, esta palavra, tal como se me tivesse permitido dizer diante dele algo de indecente.

«Meu caro senhor, eu falo às minhas gentes e você às suas.»

 

Santa Verónica com o Véu (c. 1655-1660), de Mattia Preti

Santa Verónica com o Véu (c. 1655-1660), de Mattia Preti, Los Angeles County Museum of Art, Domínio público, via Wikimedia Commons.

Verónica e a marca do rosto

Quando o Ressuscitado veio ter com os discípulos, ainda deprimidos com o medo, a tristeza, a desilusão, e abatidos pela sombra da cruz e por causa do seu próprio fracasso, portanto, com homens que cobardemente o abandonaram e fugiram, dirigiu-se-lhes, antes de mais, com a linguagem das suas chagas. Mas o que aconteceu com as mulheres?

Elas não o abandonaram, não fugiram, acompanharam-no no caminho da cruz e persistiram, até ao último momento, aos pés da cruz – e foram também as primeiras que descobriram o túmulo vazio, o seio aberto do mistério da manhã de Páscoa. O Evangelho regista o nome de algumas delas, e as representações medievais relativas à Páscoa falam das três Marias; uma infinidade de imagens e estátuas que, ao longo de muitos séculos, representaram a crucificação, mostram sobretudo duas: a Virgem Mãe e também a antigaprostituta de Magdala, da qual Jesus expulsou sete demónios, que o amava sem limites e que estava muito próxima do seu coração. 

Feridas transformadas

Onde estão os postos de primeiros socorros do nosso mundo? […] «Vede as minhas mãos e os meus pés», diz Cristo, hoje, com o olhar sobre todos os indigentes e feridos, os que estão perto e os que estão longe. «Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho».

«Os homens e as mulheres são carne e osso, mãos e pés, o lado trespassado de Cristo» – o seu Corpo Místico, acrescenta o autor que se esconde atrás do pseudónimo Monge da Igreja Oriental, «neles, através da nossa ação, podemos levar a cabo a realidade da ressurreição». Ele convida a que vejamos Cristo não só nos socialmente indigentes, nos doentes, pobres, abandonados, mas sobretudo nos homens que nos são estranhos e antipáticos: «Em muitos destes homens e mulheres – em homens maus e criminosos – Cristo foi, de novo, aprisionado. Liberta-o, de modo que o reconheças pacífica e silenciosamente e neles o adores.»

Duras e exigentes são estas palavras. Quem pode ouvi-las?

 

O Meu Deus é um Deus Ferido, de Tomáš Halík
240 pág., Paulinas Editora

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“Todos os dias têm muito para correr mal, sim. Mas pode-se passar pela vida irritado? Apitos e palavras desagradáveis, respirações impacientes, sempre com o “não posso mais” na boca.” – A crónica de Inês Patrício, a partir de Berlim

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