À porta da caixa preta a vontade de fugir era avassaladora. À porta da sala escura só pensava, porquê-porquê, porque é que me pus nesta situação. A mais de meio do curso, todo feito com muitos exames orais, sempre antecedidos de vómitos e vontade de desaparecer, aquela espera era, de longe, a mais difícil de todas. Eu tinha de entrar na sala onde o pequeno grupo do Workshop esperava, sentado junto a uma parede. Já eu lá tinha estado também. Luz sobre mim. O exercício era fazer rir. Não contar piadas, não preparar graças, não preparar o que quer que fosse. Era fazer rir, querer ser gostado, procurar muito, muito, ser gostado. E sempre, olhar, perceber as reações e respeitar o público. Foi um Workshop de Clown, num grupo de Teatro Universitário. Tão importante que foi.
Tenho em mim todos os ingredientes para ser uma pessoa angulosa. Arrumação, ordem, limpeza, estrutura, coluna vertebral, irritação.
Não me lembro de ouvir, durante a infância, as palavras ridículo ou decente. Nas casas da minha família as palavras sempre se mediram. Talvez por isso, durante muito tempo, não simpatizei com elas. A primeira era depreciativa, a segunda era moralizadora. Dentro da minha rigidez achei que eram duas palavras a evitar.
Evitei.
Felizmente, muitos e muitas, me têm ajudado a arredondar algumas das minhas arestas. Como ouvi a Brito Guterres, sobre bairros onde a vida é injustamente muito difícil “aqui também rebenta o amor”. E a Capicua canta que “todo o chão quer ser floresta”. E assim, aos poucos e com muita paciência tenho aprendido a gostar dessas duas (e de outras) palavras.
Gosto de pensar na minha vida como um momento decente. Gosto muito de pessoas decentes, integras, que vivem de acordo com o que dizem, que pensam no que dizem, complexas de pensamento mas simples na sua expressão. Como as boas poesias. Adoro a dignidade dos que não se perdem em queixumes ou em mexericos do dia-a-dia. Os maratonistas das relações, que não se apressam em juízos e classificações. É muito bom conhecer os que estão atentos aos momentos de fragilidade, oferecendo um apoio não curioso, não invasivo. Apoio apenas.
Por outro lado, há o humor, o ridículo. A gargalhada alta. A pergunta surreal (muitas vezes de tão inicial). O gozo de nós mesmos.
O medo do ridículo é cansativo, nada criativo, muito limitante. Ser ridículo ajuda a ser feliz. Deixa um rasto de liberdade. É dançar como se ninguém visse. Pode ser extremamente político e corajoso.
Decente e ridículo lado a lado, bem bom seria.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.










